Melhores do Brasileirão 2016

futebol moleque

Montar seleções é algo que todo amante do esporte faz. No ano passado, pela primeira vez resolvi colocar no papel a minha seleção dos melhores do Brasileirão 2015. Em 2016, achei por bem dar continuidade à tarefa. Espero fazer isso até o fim dos meus dias. Neste ano, fui mais econômico com as palavras. Após indicar os destaques por posição, indico minha seleção principal, minha seleção reserva, o craque, a revelação e os treinadores das seleções principal e reserva. Viva o futebol.

Destaques 

Goleiros: Vanderlei, Sidão, Jailson.

Zagueiros: Geromel, Mina, Réver, Vitor Hugo, Emerson Santos, Luiz Felipe, Juninho.

Laterais: Jean, Jorge, Fábio Santos, Zeca, Pará, Victor Luis.

Meias: Willian Arão, Moisés, Tchê-Tchê, Renato, Rodrigo Lindoso, Cícero, Diego Souza, Diego, Vitor Bueno, Gustavo Scarpa.

Atacantes: Dudu, Robinho, Fred, Gabriel Jesus, Marinho, Grafite, Keno, William Potker.

Treinadores: Cuca, Zé Ricardo, Dorival, Jair Ventura.

Melhores

Seleção: Vanderlei; Jean, Mina, Geromel, Jorge; Willian Arão, Moisés, Diego Souza; Marinho, Robinho, Gabriel Jesus.

Seleção reserva: Sidão; Zeca, Emerson Santos, Réver, Fábio Santos; Tchê-Tchê, Renato, Vitor Bueno; Dudu, William Potker, Fred.

Treinador: Cuca.

Treinador da seleção reserva: Zé Ricardo.

Revelação: Vitor Bueno.

Artilheiro: Fred (34 jogos no campeonato; 2.726 minutos jogados), William Potker (31 jogos no campeonato; 1.909 minutos jogados) e Diego Souza (34 jogos no campeonato; 2.909 minutos jogados) marcaram, cada um, 14 gols. Com isso, dividiram a artilharia do campeonato. Usando o critério de desempate de quem marcou este mesmo número de gols com menos tempo de jogo, a “Chuteira de Ouro” vai para William Potker.

Craque: Marinho.

[Segundo lugar: Diego Souza e Robinho. Terceiro lugar: Gabriel Jesus e Moisés.]

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O famoso “Dezesseis Toneladas”

 

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Morto em 1975 aos 39 anos de idade, Noriel Vilela é o cantor de “Dezesseis Toneladas”. Sim, é aquela mesmo: “Este é o famoso Dezesseis Toneladas…” Bem dançante, começa com “Este samba quente é muito legal…”. Toca na pista do Paco Pigalle, danceteria de Belo Horizonte, há décadas.
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A letra festiva de “Dezesseis Toneladas” é original. Seu título e ritmo, no entanto, vieram da homônima “Sixteen Tons”. Na voz de Ernie Ford, alcançou grande sucesso da parada Billboard, ano de 1955. Fala sobre as agruras do trabalhador carvoeiro e do sistema de cantina (escravidão por dívida).
Seu refrão é mais ou menos assim:
“Você carrega 16 toneladas hoje, e o que ganha? / Menos um dia de vida, mais outra dívida… / São Pedro, não me chame, sequer posso morrer: devo até a minha alma na cantina da empresa.”
**********
O sistema de cantina ainda existe, inclusive no Brasil. Também persiste a exploração do trabalho e o endividamento do trabalhador, em diferentes formas e níveis.
O carregador de lixo pra reciclagem leva suas toneladas no lombo. Também as carrega o estudante e trabalhador pobre, aquele que divide a alma com o chefe da firma ou do telemarketing, o dono da faculdade privada, o dono da empresa de transporte, o dono do quartinho alugado, etc.
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Atualmente, o topo da Billboard dos EUA é da música “Closer”, com o refrão: “Então baby me puxa pra mais perto / no assento de trás do Rover / Que eu sei que você não pode pagar / Mordo aquela tatuagem no seu ombro”.
O topo da Billboard Brasil é da música “Eu sei de Cor”, com o refrão: “Se eu não me engano, agora vai me deixar só / O segundo passo é não me atender / O terceiro é se arrepender / Se o que dói em mim doesse em você”.
“Se o que dói em mim doesse em você…” “Se o que dói em mim doesse em você…” Que coisa. Em outro tom, com outro peso, a frase poderia ter sido dita pelo carvoeiro de ontem e de hoje. Quem iria ouvi-lo?

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Ricos provérbios do idioma Zulu

 

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“Zulu worshippers”. Foto: Wikipedia

 

Um dos idiomas oficiais da África do Sul desde 1994, o Zulu é falado por cerca de dez milhões de pessoas. É um idioma Bantu e, como outros do mesmo tronco linguístico, usa o alfabeto latino para a escrita.

O escritor Soka Mthembu listou alguns provérbios do idioma Zulu e seu significado em inglês. São cheios de sabedoria, ternura, criatividade e poesia.

Confira alguns deles:

 

Ikhiwane elihle ligcwala izibungu.  

<<O figo bonito costuma estar cheio de bichos.>>

Nem tudo que reluz é ouro. As aparências enganam.

 

Isitsha esihle asidleli.

<<Não se come em prato bonito por muito tempo.>>

Provérbio usado para lamentar danos a coisas bonitas ou mortes prematuras. Seria o contrário do nosso “Vaso ruim não quebra”.

 

Enethunga ayisengeli phansi.          

<<Quem tem balde não deveria ser obrigado a ordenhar leite no chão.>>

Aquele que possui algo não deveria sofrer por emprestar esse algo para outra pessoa.

 

Akukho qili lazikhotha emhlane.    

<<Não há ninguém esperto que tenha lambido as próprias costas. >>

Esperteza tem limite. Quem banca o esperto, um dia extrapola e é pego.

 

Uphakathi komhlane nembeleko.   

<<Ele está entre as costas e o saco.>>

É a pessoa que está numa boa situação, numa situação confortável (o saco nas costas é usado para carregar os filhos). Seria o contrário da situação aflitiva que chamamos, no Brasil e e na América Latina, “entre a cruz e a espada”.

 

Akulahlwa mbeleko ngakufelwa.   

<<Não se joga o saco fora depois da morte de uma criança.>>

Refere-se metaforicamente ao saco usado para ninar, abrigar e carregar crianças pequenas. Quer significar que não se deve desesperar nas adversidades; que o futuro pode reservar coisas boas.

 

Ikhotha eyikhothayo engayikhothi iyayikhahlela.

<<A vaca lambe quem a lambe.>>

As pessoas ajudam quem ajuda de volta.

 

Iso liwela umfula ugcwele.   

<<O olho atravessa o rio inteiro.>>

Desejos são capazes de transcender os limites do possível.

 

Iqaqa alizizwa ukunuka.     

<<Nenhuma doninha fedida sente seu próprio mau-cheiro.>>

Ninguém reconhece seus próprios erros, sua própria culpa.

 

Akukho mango ongenaliba.

<<Não há colina sem sepultura.>>

A morte é inevitável; o encontrará onde quer que seja.

 

Isikhuni sibuya nomkhwezeli.         

<<O tição aceso voltou com um fogo enviesado.>>

Quem brinca com fogo, acaba queimado. Quem procura (problemas), acha (o que merece).

 

Amaqili kathengani. 

<<Homens espertos evitam uns aos outros.>>

Próximo do nosso “Assombração sabe pra quem aparece”. O esperto evita lidar com quem é esperto também para não ser passado pra trás.

 

Uchakide uhlolile imamba yalukile.

<<Quando a mamba sai, a doninha fica à vontade.>>

Equivalente ao nosso “Quando os gatos saem, os ratos fazem a festa.”

 

Ukubona kanye ukubona kabili.    

<<Uma vez mordido, duas vezes desconfiado.>>

Próximo do nosso “Gato escaldado tem medo de água fria.”

 

Amanxiwa Kamili Mbuya.  

<<A pedra que rola não pega musgo.>>

Bem próximo do nosso “Cobra que circula não morre de fome.”

 

Uphembela emoyeni.

<<Ele acende fogo na ventania.>>

Designa as pessoas que favorecem estranhos em detrimento do seu próprio povo.

 

Udla indlu yakho njengentwala.     

<<Você come seu cabelo feito piolho.>>

Refere-se a quem ataca quem o ajuda ou favorece; à ingratidão.

 

Akukho nkwali yaphendela enye.  

<<Um perdiz não coça o outro.>>

Cada um que cuide de si.

 

Ingwe Idla Ngamabala.       

<<O leopardo come por causa de suas pintas.>>

Cada pessoa se vira conforme seus talentos próprios.

 

Inkunzi isematholeni.           

<<O touro está entre os bezerros.>>

Entre as crianças de hoje estão os líderes de amanhã.

 

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Não é uma beleza? Qual é o seu preferido?

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Umuntu ngumuntu ngabantu

Ubuntu

Foto: One.org

 

Vinte e sete mil, trezentos e noventa e três. Este é o número de dias equivalente a setenta e cinco anos de vida. É a expectativa de vida no nosso país. A vida é breve, passa com enorme rapidez. Com sorte, você pode aprender pelo menos uma coisa nova por dia, e assim contar com milhares delas no seu coração na hora da partida. Divido com você o que eu aprendi hoje: além de ser o nome de um software, “ubuntu” é também uma noção profunda e maravilhosa dos idiomas Zulu e Xhosa.
Para Nelson Mandela, significa: “Respeito. Cortesia. Compartilhamento. Comunidade. Generosidade. Confiança. Desprendimento. Tudo isso é o espírito de Ubuntu.”
“Ubuntu”, prossegue Mandela, “não significa que as pessoas não devam cuidar de si próprias. A questão é: você vai fazer isso de maneira a desenvolver a sua comunidade, permitindo que ela melhore?”
Para Desmond Tutu, o conceito exprime a comunhão que conecta toda a humanidade: “sou o que sou graças ao que somos todos nós.”
“Uma pessoa com Ubuntu”, disse Tutu, “está aberta e disponível para as outras, apoia as outras, não se sente ameaçada quando outras pessoas são capazes e boas, com base em uma autoconfiança que vem do conhecimento de que ele ou ela pertence a algo maior que é diminuído quando outras pessoas são humilhadas ou diminuídas, quando são torturadas ou oprimidas.”
A palavra se relaciona com a máxima Zulu “Umuntu ngumuntu ngabantu”, ou, em português: “uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas”.
O escritor uruguaio Eduardo Galeano costumava dizer que “o melhor que o mundo tem é a quantidade de mundos que o mundo contém”. Tinha toda razão. “Sou o que sou graças ao que somos todos nós”, nos ensina a sabedoria africana. Que todos nós possamos caminhar com mais ubuntu hoje, e até o último dos nossos dias. Amém e Saravá!

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Resumo: “Um discurso sobre as Ciências”, de Boaventura Sousa Santos

 

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O professor Boaventura de Sousa Santos proferiu uma Oração de Sapiência como abertura solene das aulas na Universidade de Coimbra no ano letivo de 1985/1986, cujo conteúdo foi ampliado e publicado pela editora Afrontamento em 1987, sob o título “Um discurso sobre as Ciências”. O pequeno livro foi ainda publicado no Brasil e nos Estados Unidos, tendo tido grande êxito e aceitação no meio acadêmico universitário e secundarista.

Ali, Santos avança três pontos principais: (i) uma caracterização do paradigma dominante da ciência moderna; (ii) a alegação de que vivemos em um período de crise do paradigma atual e transição para um novo paradigma e (iii) uma apresentação especulativa (segundo ele, uma síntese pessoal impregnada na imaginação sociológica) do paradigma emergente.

 

Caracterização do paradigma dominante

 

Segundo Santos, o “paradigma dominante” constitui-se e se desenvolve ao longo dos séculos XVI e XIX no âmbito das ciências naturais. No século XIX, estende-se às “ciências sociais emergentes”. Sua característica fundamental é negar a racionalidade de outras formas de conhecimento, como o conhecimento do senso comum e das humanidades. Além disso, o paradigma se opõe a todas as formas de dogmatismo e autoridade; afirma os dualismos “ciência / senso comum” e “homem / natureza”; assume a matemática como basilar, o que implica ideias de que conhecer é quantificar (exclusão de aspectos qualitativos), dividir e classificar (uso do método científico para reduzir complexidades); busca leis que expliquem o “como” do funcionamento das coisas (em detrimento do “quem” e do “para que”); ao basear-se na formulação de leis, adota como “pressuposto metateórico” o “determinismo mecanicista”, a ideia de um mundo estável, ordenado e fora da história.

Este “determinismo mecanicista” é colocado como aspecto ideológico do paradigma dominante, como visão de mundo que funcionou como um dos pilares da ideia de progresso e como “horizonte cognitivo mais adequado aos interesses da burguesia”. Nas ciências sociais, deu-se através dos percursores na busca pelas leis da sociedade – Francis Bacon, Giambattista Vico e Montesquieu – e de marcos teóricos como o estado positivo de Comte, a sociedade industrial de Spencer e a solidariedade orgânica de Durkheim.

A adoção do “modelo mecanicista” pelas ciências sociais deu-se em duas vertentes: (i) como aplicação do mesmo modelo teórico das ciências naturais às sociais; e (ii) com o desenvolvimento de um modelo próprio, distinto das ciências naturais. A primeira vertente assume as ciências naturais como modelo universalmente válido, adota a ideia central do atraso (superável) das ciências sociais em relação às ciências naturais e entende que existem diferenças entre fenômenos naturais e sociais, que atuam contra as últimas, pois tornam o cumprimento do método mais difícil e o conhecimento a que se chega menos rigoroso. A segunda vertente parte da visão de que a ação humana é radicalmente subjetiva e, por isso, não pode ser descrita / explicada a partir de características externas, objetiváveis, fazendo com que as ciências sociais, enquanto ciências subjetivas, adotem métodos qualitativos. As duas vertentes pertencem ao paradigma da ciência moderna e suas características, como a distinção entre homem e natureza e a prioridade cognitiva das ciências naturais.

 

Crise do paradigma da ciência moderna

 

Segundo Santos, o paradigma da ciência moderna é um paradigma em crise. Para ele, o próprio aprofundamento do conhecimento propiciado pela ciência “permitiu ver a fragilidade dos pilares em que se funda”. Os cientistas “chegámos a finais do século XX possuídos pelo desejo quase desesperado de complementarmos o conhecimento das coisas com […] o conhecimento de nós próprios”.

Santos cita quatro condições teóricas da crise do paradigma moderno:

  1. Relatividade da simultaneidade de Einstein: inexistindo “simultaneidade universal, o tempo e o espaço absolutos de Newton deixam de existir”.
  2. Mecânica quântica: introduziu a consciência no ato do conhecimento e, fundamentalmente, colocou em xeque o rigor da medição e a distinção (forte) entre sujeito e objeto.

III. Teoremas de Gödel: abalam o rigor da medição ao questionar o rigor da matemática (veículo formal da medição e base do rigor das leis da natureza), ao mostrar que é possível formular “proposições que não se podem demonstrar nem refutar, sendo que uma dessas proposições é precisamente a que postula o carácter não contraditório do sistema”.

  1. Avanços da microfísica, da química e da biologia em geral; teoria das estruturas dissipativas e o princípio da “ordem através de flutuações” de Prigogine: “nova concepção da matéria e da natureza” que transcende a física clássica.

O sociólogo português sintetiza as mudanças teóricas que relata nos seguintes termos: “Em vez da eternidade, a história; em vez do determinismo, a imprevisibilidade; em vez do mecanicismo, a interpenetração, a espontaneidade e a auto-organização; em vez da reversibilidade, a irreversibilidade e a evolução; em vez da ordem, a desordem; em vez da necessidade, a criatividade e o acidente.”

Ao lado das condições teóricas, menciona a existência de um movimento científico convergente, de vocação transdisciplinar, também chamado de “paradigma da auto-organização”, aflorado pelas seguintes inovações: a teoria de Prigogine, a sinergética de Haken, o conceito de hiperciclo e teoria da origem da vida de Eigen, o conceito de autopoiesis do Maturana e Varela, a teoria das catástrofes de Thom, a teoria da evolução de Jantsch, a teoria da “ordem implicada” de David Bohm e finalmente, a teoria da matriz-S de Geoffrey Chew e a filosofia do “bootstrap”.

Santos associa a crise a limites qualitativos do conhecimento científico – limites que não podem ser superados por “maiores quantidades de investigação ou maior precisão dos instrumentos” –, bem como a limites quanto à sua precisão quantitativa. Sobre o último ponto, salienta que o teorema de Brillouin permite concluir que “a experiência rigorosa é irrealizável, pois que exigiria um dispêndio infinito de atividades humanas”, e que a mesma via da “parcelização do objeto” que fez avançar o conhecimento científico “confirma a irredutibilidade das totalidades orgânicas ou inorgânicas às partes que as constituem”, logo, o “caráter distorcivo” do conhecimento centrado na observação das partes.

Dentre as condições sociais da crise, destaca que o que a ciência ganhou em rigor, perdeu em capacidade de autorregulação diante do fenômeno da industrialização da ciência, compromisso com os centros de poder econômico, social e político, cujas consequências, no âmbito da aplicação, são os perigos de uma catástrofe ecológica e de um holocausto nuclear; e, no âmbito da organização do trabalho científico, a estratificação e proletarização da comunidade científica e o aumento da desigualdade entre os países centrais e periféricos em virtude da investigação capital-intensiva. Entre as facetas sociológicas da crise, menciona reflexões feitas por cientistas, nunca antes tão interessados em problematizar suas práticas, sobre questões a respeito das condições sociais de produção da ciência, que antes eram tratadas por sociólogos.

A crise é pautada por críticas às leis da natureza, ao conceito de causalidade e à relação sujeito-objeto:

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O paradigma emergente

 

Santos apresenta um conjunto de teses que conformariam o “paradigma emergente”, por ele também chamado de “paradigma de um conhecimento prudente para uma vida decente”. Ao assim proceder, assumidamente adota uma “via especulativa” que, segundo ele, é a única possível para abordar a “configuração do paradigma que se anuncia no horizonte”. Em suas palavras, o paradigma emergente que identifica decorre de uma especulação “fundada nos sinais que a crise do paradigma atual emite” e é também “produto de uma síntese pessoal impregnada na imaginação sociológica”.

O paradigma emergente gira em torno de três máximas:

  1. “Todo conhecimento científico-natural é científico-social.” No paradigma emergente, a distinção dicotômica entre ciências naturais e ciências sociais passa a ser superada. Os avanços da física e da biologia põem em causa as distinções orgânico / inorgânico, seres vivos / matéria inerte e humano / não humano, e diferentes teorias teriam introduzido na matéria “os conceitos de historicidade e de processo, de liberdade, de autodeterminação e até de consciência” nas ciências naturais. Neste processo, as ciências sociais e as humanidades assumem protagonismo. Segundo ele, há uma “emergente inteligibilidade da natureza” presidida “por conceitos, teorias, metáforas e analogias das ciências sociais”, e é notável a facilidade com que as teorias físico-naturais, uma vez formuladas no seu domínio específico, se aplicam ou aspiram a aplicar-se no domínio social. Além disso, a ciência pós-moderna abraça a concepção humanística das ciências sociais, segundo a qual a ação humana é radicalmente subjetiva, necessitando, assim, de um método próprio (qualitativo); e o faz por essa concepção exibir maior resistência à separação sujeito / objeto, preferir a compreensão do mundo à sua transformação, e colocar a pessoa como centro do conhecimento (e, no paradigma emergente, também a natureza no centro da pessoa). A ciência pós-moderna, a partir das humanidades, se constituirá a partir de analogias humanísticas como “categorias de inteligibilidade universais”, em que cada uma “desvela uma ponta do mundo”; e terá como “categorias matriciais” a analogia textual (filológica), a analogia lúdica, a analogia dramática e a analogia biográfica. Feita a transição, o mundo será natural e social ao mesmo tempo e será visto como um texto, como um jogo, como um palco ou ainda como uma autobiografia.
  2. “Todo conhecimento é local e total.” A ciência moderna é um conhecimento parcial, i.e., que avança por especialização e é mais rigoroso quanto mais restrito é o objeto e quanto mais arbitrariamente espartilha o real; e também disciplinar, que “segrega uma organização do saber orientada para policiar as fronteiras entre as disciplinas e reprimir os que as quiserem transpor”. Do caráter parcial e disciplinar decorrem males de todos os tipos, impassíveis de solução no âmbito do paradigma da ciência moderna. A ciência pós-moderna, ao revés, será local, i.e., se constituirá a partir de temas importantes para os grupos sociais e seus projetos de vida; e será total, elegendo como horizonte “a totalidade universal de que fala Wigner ou a totalidade indivisa de que fala Bohm”. Sendo total, será também local, pois assume-se como analógica e como tradutora, incentivando o uso de conceitos e teorias fora do seu contexto de origem. A ciência pós-moderna contará com conhecimento “relativamente imetódico”, “pluralidade metodológica”, “fusão de estilos”, “interpenetrações entre cânones de escrita”, “uso de vários estilos segundo o critério e a imaginação pessoal” e “constelação de métodos” para “captar o silêncio que persiste entre cada língua que pergunta”.
  3. “Todo conhecimento é autoconhecimento.” Para Santos, a distinção entre sujeito e objeto nunca foi pacífica nas ciências sociais, tendo sido questionada também nas ciências naturais. Nestas, em suma, o sujeito teria regressado “na veste do objeto”. Sinais disso são: a mecânica quântica, ao mostrar que o ato do conhecimento e o produto do mesmo são inseparáveis; os avanços da microfísica, da astrofísica e da biologia; a verificação de que a tecnologia nos separou da natureza ao invés de nos integrar a ela, e que a exploração da natureza, tendo sido veículo da exploração do homem, consolidou uma “nova dignidade da natureza”. Segundo ele, a validade da ciência decorre de um juízo de valor e, sendo assim, não há nenhuma razão científica para considerar a ciência melhor do que explicações alternativas da metafísica, da astrologia, da religião, da arte ou da poesia. A ciência, natural ou social, é necessariamente subjetiva e autobiográfica: “o objeto é a continuação do sujeito por outros meios”, e a subjetividade do cientista (seus pressupostos metafísicos, sistemas de crenças, juízos de valor) é parte integrante de sua explicação da natureza ou da sociedade. “A ciência não descobre, cria”. Diferentemente da ciência moderna, a ciência pós-moderna assume-se como autobiográfica e autorreferenciável. Ademais, preocupa-se menos com sobreviver, e mais com “saber viver”; busca ser “uma outra forma de conhecimento, um conhecimento compreensivo e íntimo” que nos une pessoalmente ao que estudamos; vê a incerteza como “chave do entendimento”; entende que, mais do que controlado, o mundo deve ser contemplado; avalia o conhecimento menos pelo que ele controla e mais pela satisfação pessoal que ele gera em quem lhe acede e partilha; aproxima-se das criações artísticas, porque subordina a transformação do real à contemplação do resultado.

Santos considera que o paradigma emergente é ao mesmo tempo científico (conhecimento prudente) e social (vida decente), e que isso resulta do fato de que a revolução científica que daria azo ao novo paradigma seria uma revolução numa sociedade já transformada pela revolução científica do século XVI.

Fonte:

Para saber mais:

  • Santos, Boaventura Sousa. Introdução a uma ciência pós-moderna. Porto: Afrontamento, 1989.
  • Baptista, António Manuel. Crítica da Razão Ausente. Lisboa: Gradiva, 2003. [críticas de um físico português ao pensamento de Boaventura Sousa Santos]
  • Santos, Boaventura Sousa (org.). Conhecimento prudente para uma vida decente: Um discurso sobre as ciências revisitado. Porto: Edições Afrontamento, 2003.

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Títulos truncados

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Não é raro que juristas façam escolhas infelizes na hora de nomear os seus trabalhos acadêmicos.

Por exemplo: “Fundamentos filosóficos para uma crítica e legítima aplicação do Direito: o operar do círculo hermenêutico na compreensão jurídica”.

Ô campeão, me ajuda aí. Chama o troço só de “Círculo hermenêutico e compreensão jurídica” e corre logo pro abraço, meu filho! Sem firula, sem dor.
Outro exemplo: “Contributos hermenêutico-filosóficos para uma fundamentação ética dos direitos humanos: a epocalidade e o cotidiano sob o pensamento de Heidegger e Gadamer”.

Que isso, cidadão? Muda esse trem pra “Heidegger, Gadamer e a Fundamentação dos Direitos Humanos”. Assim, leve, solto, tranquilo! Pode confiar.
Precisávamos todos de aulas obrigatórias, na graduação, pela simplificação da linguagem e contra a prolixidade.

O mal do “falar truncado” afeta até mesmo os melhores entre nós, e seguramente um bom quinhão dos piores.

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Chomsky sobre Foucault e relativismo

Noam-Chomsky

 

Numa sessão de perguntas e respostas ocorrida no Théâtre National Raison em 19 de março de 2011, Noam Chomsky fez comentários esclarecedores a respeito do relativismo moral, resumidos e organizados em tópicos abaixo. Ao final do post, o leitor poderá encontrar o link para a própria fala de Chomsky.

 

Ceticismo e relativismo moral

 

Debater o relativismo moral é difícil; é como debater o ceticismo. É possível debatê-los num seminário de filosofia, mas não há céticos, nenhum ser humano pode ser cético e sobreviver. O mesmo se dá com o relativismo moral: não há relativistas. Há pessoas que o professam, ele é debatido abstratamente, mas ele não existe na vida comum [ordinary life].

Enquanto conceito, “relativismo moral” abarca um espectro amplo. Há coisas sobre ele que são evidentemente verdadeiras, incontroversas, como, e.g., a afirmação de que normas éticas variam no tempo e no espaço. Esta, aliás, é uma observação fática que ninguém nega. Similarmente, outros aspectos sobre nós mesmos variam enormemente, como nossos sistemas visuais, que podem se diferenciar bastante uns dos outros de acordo com a experiência prévia (early experience) de cada um. Nós somos organismos biológicos, e todo sistema biológico pode variar muito, dependendo da experiência. Isso não é controverso, e abrange também valores morais.

Por outro lado, não é possível transformar um sistema visual humano num sistema visual de um inseto, independentemente de quão diferentes possam ser as vivências envolvidas. Existe um escopo de variações possíveis, e também seus limites.

Há uma tendência de partir do que é incontroverso para incorrer naquilo que é incoerente: dizer que valores morais podem variar no tempo e no espaço, e daí afirmar também que valores morais podem variar ilimitadamente. Essa crença é literalmente incoerente. Baseia-se na suposição de que valores morais refletem a cultura, o que levanta a questão: como uma pessoa adquire sua cultura? Ela não é adquirida por meio de uma pílula e um copo d’água, mas pela observação de um conjunto bastante limitado de comportamentos e ações a partir do qual cada um constrói, mentalmente, o conjunto de comportamentos e de crenças que constituem sua cultura. Esse ato é muito semelhante à forma pela qual adquirimos a linguagem, desenvolvemos nosso sistema visual ou encontramos uma teoria científica: é uma questão de dar um grande salto, de dados dispersos (scattered data) para a alta complexidade. Indivíduos variados só podem ser capazes disso se compartilharem uma ampla estrutura inata, que confere possibilidades e limites. Uma pessoa só pode desenvolver um sistema visual humano, e não de um inseto, por haver instruções genéticas bastante específicas. O mesmo vale para a aquisição da linguagem, da habilidade aritmética ou da cultura como um todo (o que inclui os valores morais).

A forma mais extrema de relativismo moral está na verdade comprometida com valores universais sobre a existência, quais sejam, os que estabelecem a moldura (frame) no qual o grande salto se dá. Isso porque, ao reconhecer variações, na verdade o relativismo reconhece a moldura de possibilidades a ela subjacente. Ademais, o próprio relativismo é uma das possibilidades.

 

Progresso moral

 

Os exemplos apresentados na pergunta direcionada ao professor Chomsky – escravidão, subjugação de mulheres, repressão de homossexuais – confirmam a fraqueza do relativismo moral e também a possibilidade de progresso moral.

Numa análise não de outras culturas, mas da nossa própria, é possível perceber que não faz muito tempo escravidão, subjugação de mulheres, repressão de homossexuais eram práticas perfeitamente aceitáveis. Há poucas décadas atrás, quando Chomsky era estudante de pós-graduação, o governo britânico chegou inclusive a matar um matemático e herói de guerra, Alan Turing, ao força-lo a um tratamento para curar sua homossexualidade, vista como uma doença. Hoje, isso seria inaceitável. Nossos valores morais avançaram. Nossa esfera moral expandiu-se.

Quanto à subjugação de mulheres, apesar de ainda haver muito a ser feito, os últimos trinta ou quarenta anos foram marcados por mudanças muito significativas, catalisadas pela militância de grupos voltados a aumentar a conscientização das pessoas a respeito do problema, mostrando como coisas tidas como normais e aceitáveis na verdade não o eram. E a mesma coisa se deu aqui: uma expansão da nossa esfera moral. A escravidão, por sua vez, ainda existe no mundo, e segundo estimativas oprime trinta milhões de pessoas. Ainda assim, houve avanços inquestionáveis. A escravidão é amplamente tida como inaceitável e repreensível.

O debate em torno da escravidão enseja um outro ponto importante: o de que existem desacordos morais que podem ser debatidos, que podem ser enfrentados racionalmente. As pessoas não precisam gritar umas com as outras. Elas podem examinar argumentos, buscar alguma convergência (common ground), alcançar conclusões. A superação da escravidão no Ocidente envolveu precisamente intensos debates morais.

Alguns dos argumentos morais apresentados, por sinal, nunca foram respondidos, o que nos dá algum insight. Dentre eles, donos de escravos do sul estadunidense se colocavam como mais morais do que os ricos do norte, porque por serem donos dos seus trabalhadores, cuidavam melhor deles, da mesma forma que alguém tem mais cuidado com uma coisa de sua propriedade do que com uma coisa alugada. Há algum mérito no argumento. A conclusão que deve ser alcançada através dele não deve ser, evidentemente, a de que a escravidão é legítima, mas aquela alcançada pelos próprios trabalhadores estadunidenses do século XIX, que criticavam o trabalho assalariado como “escravidão salarial” (wage slavery), entendimento tão comum na época que figurava em artigos do New York Times e em palavras de ordem do Partido Republicano.

Há sempre uma base fixa sem a qual o indivíduo não consegue nem adquirir cultura, e é uma base estritamente determinada; é ela que nos dá nossos valores morais. Existe progresso moral, e ele é perceptível na nossa própria cultura e história. Os exemplos dados ilustram fortemente isso, são evidências – porque nos assuntos humanos não há provas, não os compreendemos o suficiente –; de algum modo, estamos a penetrar mais profundamente nos nossos próprios valores normativos reais e expandindo nossa esfera moral.

 

Críticas a Foucault

 

Michel Foucault é amplamente tido como um dos defensores principais do pós-modernismo e do relativismo.

O chamado “pós-modernismo” não tem nem a capacidade do relativismo moral de ser, pelo menos, incoerente. “Não é nem falso”, como dizia acidamente o físico Wolfgang Pauli num outro contexto.

A ideia foucaultiana de que a verdade, incluindo a verdade científica, é sempre decorrente de “regimes de verdade” inextricavelmente ligados ao poder, reflete basicamente um exagero enorme de algo real. Há um certo truísmo de que sistemas de poder provocam algum efeito sobre como a ciência procede. Exemplo extremo disso é a biologia estalinista. Há outros: a influência de empresas em testes de medicamentos, os limites profissionais impostos aos próprios acadêmicos, etc. Tudo isso é verdade. O próprio Chomsky sofreu isso na pele, quando não conseguiu publicar, nos anos 1950, seu primeiro livro porque seu conteúdo entrava muito em conflito com ideias aceitas na época. Enfim, tudo isso é real, mas não reflete o todo da prática da ciência. São eventos marginais, e há procedimentos autocorretivos que não são perfeitos, mas funcionam muito bem.

 

Fonte: CHOMSKY, Noam. Noam Chomsky On Moral Relativism And Michel Foucault. Chomsky’s Philosophy, 5 dez. 2015 [19 mar. 2013]. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=M3oLEGlzs6k>. Acesso em: 17 jan. 2016.

 

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