Arquivo do mês: setembro 2012

Notas de um visitante brasileiro sobre a Venezuela

Texto interessante sobre a Venezuela chavista, abaixo. Alguns trechos que me chamaram a atenção:

 

A Virada Cultural, em Caracas, se chama Rota Noturna e ocorre uma vez por mês. Em julho, bandas de rock, reggae, salsa e outros ritmos embalaram milhares de jovens em pontos espalhados por todo o centro histórico, numa festa que só terminou ao amanhecer. Na edição seguinte, em agosto, a virada caraquenha teve como foco os museus, que ficaram abertos a noite inteira, oferecendo a um público de todas as idades recitais de música e poesia.

Para o visitante brasileiro, submetido ao bombardeio de grande parte da imprensa comercial sobre os horrores da “ditadura chavista”, Caracas é uma agradável surpresa. A população desfruta como nunca do espaço urbano, que vem sendo recuperado depois de décadas de abandono.”

 

Com a chegada de Hugo Chávez à presidência, no final de 1998, as regras do jogo mudaram. Um gigantesco pacote de programas sociais fez cair o índice de pobreza de 70% para 28%. “Se temos a sorte de ter petróleo, que seja usado em favor do povo”, defende Gustavo Borges, coordenador de uma rede de rádios comunitárias em 23 de Enero, bairro popular que está sendo urbanizado com a instalação de escolas, clínicas de saúde, quadras esportivas e iluminação pública. No ano passado, em viagem ao Brasil, Borges visitou a favela carioca de Rio das Pedras, e se diz chocado com o que viu: “No teu país, a população mais pobre vive em condições abaixo da dignidade humana”.

 

Entre os investimentos públicos, a ênfase à cultura chama atenção. Não por acaso, nos trens do metrô de Caracas se ouve música clássica o dia inteiro. É comum a presença de jovens carregando instrumentos. São alunos do Sistema Venezuelano de Orquestras, uma referência internacional. O país é, talvez, o único do mundo em que um maestro – Gustavo Dudamel, da Orquestra Sinfônica de Caracas – é um ídolo de massas.

 

A legislação trabalhista que entrou em vigor em maio amplia direitos dos assalariados em uma escala sem paralelo em qualquer outro país. O benefício em caso de demissão sem justa causa equivale à remuneração de 105 dias por ano de serviço. A trabalhadora que dá à luz ganha seis meses e meio de licença e tem garantia de emprego por dois anos. Ainda assim, a parcela da mão de obra com carteira assinada tem aumentado, e o desemprego se situa atualmente em 7,5%, um índice próximo ao brasileiro.

 

Boa leitura.

H.N.

__________________________

http://www.outraspalavras.net/2012/09/15/venezuela-o-cenario-que-pode-manter-chavismo-no-poder/

O cenário que tende a manter Chávez no poder

Por: Igor Fuser – 15/09/2012.

Igor Fuser relata: desigualdades ainda são enormes. Mas direitos sociais, investimentos públicos e setor não-capitalista da economia transformaram  a Venezuela

Por Igor Fuser

A Virada Cultural, em Caracas, se chama Rota Noturna e ocorre uma vez por mês. Em julho, bandas de rock, reggae, salsa e outros ritmos embalaram milhares de jovens em pontos espalhados por todo o centro histórico, numa festa que só terminou ao amanhecer. Na edição seguinte, em agosto, a virada caraquenha teve como foco os museus, que ficaram abertos a noite inteira, oferecendo a um público de todas as idades recitais de música e poesia.

Para o visitante brasileiro, submetido ao bombardeio de grande parte da imprensa comercial sobre os horrores da “ditadura chavista”, Caracas é uma agradável surpresa. A população desfruta como nunca do espaço urbano, que vem sendo recuperado depois de décadas de abandono.

Como em qualquer metrópole da América Latina, o contraste social na capital venezuelana é dramático. Situada num estreito vale, com 20 quilômetros no sentido leste-oeste e apenas 4 no eixo norte-sul, a cidade é rodeada por favelas. Nos bairros chiques há mansões suntuosas, várias delas com campos particulares de golfe, luxo incomum no Brasil. Lá moram os donos das fortunas acumuladas graças à renda do petróleo – uma riqueza fabulosa, da qual o povo até recentemente só recebeu as migalhas.

Com a chegada de Hugo Chávez à presidência, no final de 1998, as regras do jogo mudaram. Um gigantesco pacote de programas sociais fez cair o índice de pobreza de 70% para 28%. “Se temos a sorte de ter petróleo, que seja usado em favor do povo”, defende Gustavo Borges, coordenador de uma rede de rádios comunitárias em 23 de Enero, bairro popular que está sendo urbanizado com a instalação de escolas, clínicas de saúde, quadras esportivas e iluminação pública. No ano passado, em viagem ao Brasil, Borges visitou a favela carioca de
Rio das Pedras, e se diz chocado com o que viu: “No teu país, a população mais pobre vive em condições abaixo da dignidade humana”.

A melhora da realidade social venezuelana é, de fato, impressionante. Em Caracas, dois teleféricos recém-inaugurados levam favelados até o alto dos morros. Nas ruas, não se enxerga uma única criança pedindo esmolas ou em situação de risco. Ninguém dormindo na calçada por falta de abrigo. O que mais se destaca na paisagem urbana são os canteiros de obras da Misión Vivienda, projeto governamental que pretende erguer em dois anos 350 mil casas ou apartamentos (mais de 90% já entregues) para a população sem teto ou precariamente instalada, no país inteiro. As moradias populares são espaçosas, construídas com material de qualidade e bem localizadas.

Muitos projetos habitacionais destinados aos mais pobres se situam em bairros de classe média, rompendo a segregação social no espaço urbano. Nem sempre os recém-chegados são recebidos com simpatia. “Existem pessoas de classe média que não aceitam viver ao lado dos pobres”, constata o arquiteto Francisco Farruco, um dos coordenadores da Misión Vivienda. “Eles consideram o nível de educação dos novos moradores inferior, ou inadequado seu comportamento, o que é muito discutível.” Para Farruco, esses conflitos são inevitáveis em um país que está reduzindo a desigualdade. Nas suas palavras: “O sonho de transformar Caracas passa por integração. Estamos construindo uma cidade que rompa com barreiras sociais”.

Erudição popular

Os sinais dessa mudança são muito claros. Como jornalista, viajei a Caracas várias vezes na década de 1990. Minha lembrança é de um lugar decadente e perigoso. Agora me surpreendi ao caminhar pela Sábana Grande, o centro comercial da cidade, limpo, bem iluminado e seguro. Numa esquina, um mágico reúne a seu redor dezenas de curiosos. Ali perto, crianças se divertem nos equipamentos recreativos instalados pela estatal Petróleos de Venezuela. A reurbanização daquela área faz parte de um imenso projeto de recuperação do espaço urbano, o que inclui teatros, centros esportivos, praças e monumentos históricos.

Entre os investimentos públicos, a ênfase à cultura chama atenção. Não por acaso, nos trens do metrô de Caracas se ouve música clássica o dia inteiro. É comum a presença de jovens carregando instrumentos. São alunos do Sistema Venezuelano de Orquestras, uma referência internacional. O país é, talvez, o único do mundo em que um maestro – Gustavo Dudamel, da Orquestra Sinfônica de Caracas – é um ídolo de massas.

A paisagem remodelada tem como pano de fundo uma transformação social mais profunda, que inclui a elevação da renda dos trabalhadores. Em 2011, a remuneração média teve um aumento real de 8,5% e o novo salário mínimo, anunciado em maio deste ano, um reajuste de 33,5%. A inflação, porém, é muito alta, 27% em 2011. O congelamento dos preços de 19 produtos essenciais garante uma relativa proteção ao poder de compra. E uma gigantesca rede de mercados e feiras livres estatais (a Mercal) oferece todos os itens da cesta básica pela metade dos preços do comércio privado.

Sem surpresas

A legislação trabalhista que entrou em vigor em maio amplia direitos dos assalariados em uma escala sem paralelo em qualquer outro país. O benefício em caso de demissão sem justa causa equivale à remuneração de 105 dias por ano de serviço. A trabalhadora que dá à luz ganha seis meses e meio de licença e tem garantia de emprego por dois anos. Ainda assim, a parcela da mão de obra com carteira assinada tem aumentado, e o desemprego se situa atualmente em 7,5%, um índice próximo ao brasileiro.

O “socialismo do século 21″, como Chávez batizou seu projeto político, convive com um setor privado que controla 70% da economia e garante gordos lucros aos empresários, graças à elevação do consumo popular. Do outro lado, as empresas controladas diretamente pelos trabalhadores crescem na preferência dos consumidores, com produtos como os laticínios Los Andes (vendidos até mesmo nas padarias dos bairros ricos) e o café La Fama de América, exportado para Europa e Estados Unidos. Na embalagem, essas mercadorias trazem sempre uma pequena frase, rodeada pelo desenho de um coração: Hecho en Socialismo.

Há ainda conquistas extraordinárias – que não caberão neste espaço – em educação, saúde e na participação política dos cidadãos, que se organizam em conselhos comunitários (mais de 40 mil, em todo o país) para fiscalizar as autoridades e definir investimentos públicos para as regiões onde moram. Como nada disso é divulgado na imprensa brasileira, na qual Chávez é apontado diariamente como um tirano grotesco, imagino a dificuldade dos leitores em entender o fato de ele liderar as pesquisas para as eleições de outubro com uma vantagem de 15 a 25 pontos sobre seu adversário direitista. Para quem conhece a verdadeira face da Venezuela, não há nisso surpresa alguma.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Minha seleção para o Super-Clássico das Américas

O técnico Mano Menezes convocou recentemente os jogadores que farão parte da Seleção Brasileira no Super-Clássico das Américas, conflito em dois jogos com a Argentina no qual só podem atuar os jogadores que integram equipes desses dois países. Segue a lista da seleção convocada:

Goleiros
Cássio (Corinthians)

Jefferson (Botafogo)

Laterais

Carlinhos (Fluminense)

Marcos Rocha (Atlético-MG)

Fábio Santos (Corinthians)

Lucas Marques (Botafogo)

Zagueiros
Dedé (Vasco)

Rhodolfo (São Paulo)

Réver (Atlético-MG)

Meio-campistas

Arouca (Santos)

Paulinho (Corinthians)

Ralf (Corinthians)

Fernando (Grêmio)

Jadson (São Paulo)

Lucas (São Paulo)

Bernard (Atlético-MG)

Thiago Neves (Fluminense)

Atacantes

Leandro Damião (Internacional)

Luis Fabiano (São Paulo)

Neymar (Santos)

Welington Nem (Fluminense)

Na minha vida, aprendi a respeitar o conhecimento dos outros, e a não dar muitos “pitacos” em áreas que transcendem o meu próprio conhecimento. Por isso, apesar de estranhar muito essa lista de jogadores, admito que é possível que eu não esteja enxergando algo que pessoas que têm um conhecimento técnico maior sobre o esporte porventura sejam capazes de enxergar. Mas, ainda assim, e apesar de eu nunca ter jogado futebol profissionalmente ou me preparado para ser técnico de futebol e de nunca ter lido a literatura técnica sobre futebol (livros, artigos científicos etc.), considero que, por jogar e por acompanhar o esporte há muitos anos, acumulei um conhecimento prático limitado, mas razoável; por isso, minha opinião não deve ser de todo desprezível, e, sendo assim, que vou me arriscar a fazer algumas críticas e comentários.

Vamos começar pelos goleiros: Mano convocou Cássio, do Corinthians, e Jefferson, do Botafogo.

Antes da última copa, tínhamos um goleiro de altíssimo nível, Júlio César, tido à época como um dos melhores do mundo. Após a lesão que quase o tirou da Copa e que provavelmente prejudicou o seu rendimento durante esse torneio, Júlio César nunca mais foi o mesmo, e, de unanimidade e grande craque “invendável” do time da Inter de Milão, foi recentemente negociado para um time que, apesar de ter se reforçado nos últimos tempos, é tido como de menor expressão do futebol inglês (Queens Park Rangers). Desde então, temos sofrido para arrumar um camisa “1” para a seleção principal.

No entanto, há um goleiro que atua no Brasil e que manteve, durante todo esse período, uma regularidade impressionante: Fábio, do Cruzeiro. Campeão Sul-Americano Sub-17 e Campeão Mundial Sub-17 com a Seleção Brasileira, em 1997, Fábio foi ainda campeão da Copa América de 2004, quando o treinador era Carlos Alberto Parreira, atuando justamente como reserva de Júlio César, mas, depois disso, apesar de grandes atuações pelo Cruzeiro desde 2005, Fábio não teve mais oportunidades nem na seleção de Dunga, tampouco na de Mano, que o convocou em apenas três oportunidades, mas não o aproveitou – na terceira oportunidade, há cerca de um ano atrás, exatamente para os jogos do Super-Clássico das Américas do ano passado contra a Argentina, Fábio foi cortado por lesão e substituído por Victor, então goleiro do Grêmio, e hoje do Atlético-MG.

Apesar da má fase do Cruzeiro, o goleiro Fábio, por todo o seu histórico de anos e anos atuando em alto nível, merecia uma oportunidade. Não tenho dúvidas de que é mais qualificado que o goleiro Cássio, do Corinthians, e mesmo que o próprio Jefferson.

O goleiro Fábio, do Cruzeiro, em ação. Fonte da imagem aqui.

Cássio, aliás, é um dos nomes mais polêmicos dessa convocação, e surpreende que os canais de notícias esportivas nada digam a respeito. Cássio é até um bom goleiro, e pode mesmo evoluir para se tornar um goleiro digno de Seleção Brasileira (afinal, tem apenas 25 anos, pouca idade em se tratando de goleiros), mas, hoje, está bem abaixo de pelo menos cinco atletas dentre os clubes da primeira divisão: Fábio (Cruzeiro), Victor (Atlético-MG), Fernando Prass (Vasco), Diego Cavalieri (Fluminense) e o próprio Jefferson (Botafogo), convocado por Mano). Francamente, esse jogador talvez jamais seria convocado no momento atual se não jogasse por um clube tão influente na CBF.

Algo semelhante ocorre nas laterais: Mano convocou Carlinhos (Fluminense), Marcos Rocha (Atlético-MG), Lucas Marques (Botafogo) e Fábio Santos (Corinthians), sendo que o último é outro nome que deveria ser tido como polêmico pelos jornalistas, e que também não foi contestado pelos canais de notícias esportivas. Na lateral esquerda, temos outros jogadores mais qualificados que Fábio Santos no momento e que poderiam ter sido lembrados, como Bruno Cortez (São Paulo), Fabrício (Internacional), e mesmo Márcio Azevedo (Botafogo) ou Júnior César (Atlético-MG), que fazem um campeonato brasileiro muito superior ao do lateral do Corinthians. Dentre os mencionados, acredito que estaríamos muito melhor servidos com a convocação de Bruno Cortez para a camisa “6”, deixando Carlinhos como seu reserva imediato.

Em relação à lateral direita, a convocação de Marcos Rocha é muito justa, pois trata-se de um jogador jovem mas maduro, que já havia feito um excelente campeonato mineiro no ano passado pelo América-MG, e que está jogando em alto nível pelo Atlético-MG. Um grande apoiador, com ótimo passe, além de ser veloz e muito habilidoso nos dribles. No clube, Marcos Rocha tem a vantagem de ter liberdade para avançar, inclusive invertendo de posição com os outros meias ofensivos do Atlético (inovação do técnico Cuca que vem confundindo as defesas adversárias), pois conta com a cobertura dos cães de guarda Pierre e Leandro Donizete e do próprio Danilinho, meia ofensivo que foi adaptado pelo técnico Cuca para fazer essa função de cobertura e marcação. Por isso, tem se destacado muito no âmbito ofensivo, apesar de notoriamente não ser um grande marcador, devendo o treinador da seleção ser inteligente para extrair de Marcos Rocha o seu melhor futebol.

A convocação de Lucas, no entanto, não é tão evidente, pois, apesar de apresentar um bom futebol atuando pelo Botafogo no campeonato brasileiro, deveria, na minha visão, dar lugar ao lateral Ayrton, do Coritiba, que é um dos destaques do campeonato, e que daria uma opção adicional à Seleção Brasileira nas cobranças de bolas paradas.

Marcos Rocha, do Atlético-MG. Fonte da imagem aqui.

Na zaga, as escolhas de Mano são mais consensuais, pois Réver e Dedé provavelmente são uma dupla unânime entre os entendedores de futebol. O zagueiro Rhodolfo, contudo, apesar de ter feito bons jogos pelo São Paulo, está bem abaixo do nível de Dedé e Réver. É um bom jogador, mas, a exemplo do seu companheiro de clube Rafael Tolói, é muito lento, e, apesar de ter idade para evoluir mais, não creio que se tornará menos lento com o passar dos anos até a Copa do Mundo no Brasil. De todo modo, a convocação de Rhodolfo para os jogos contra a Argentina não preocupa tanto, porque para a Seleção principal, i.e., com os jogadores que atuam aqui e no exterior, estaremos bem servidos com Thiago Silva, David Luiz, Dedé e Réver. A rigor, se fôssemos analisar friamente apenas o momento atual e convocar os melhores do futebol brasileiro, o terceiro elemento para se juntar a Réver e Dedé seria fatalmente Leonardo Silva, zagueiro de 31 anos do Atlético-MG, não apenas pelos muitos gols que vem fazendo, e que o alçaram a destaque nas manchetes de jornais, mas pela consistência ao longo do campeonato. Leonardo Silva, que antes era conhecido por fazer muitas faltas e tomar muitos cartões, tem repetido atuações de gala e de liderança no campeonato desse ano, e acrescentaria muito à seleção pela experiência, marcação e presença de área nas bolas paradas.

No meio-campo, Mano convocou quatro volantes e quatro meias ofensivos. Entre os volantes, foram chamados Arouca (Santos), Paulinho (Corinthians), Ralf (Corinthians) e Fernando (Grêmio). Pelo futebol que vêm jogando, Arouca e Paulinho não só devem ser os titulares nos jogos contra a Argentina, mas também os titulares da seleção principal, sendo incompreensível que Mano insista em dar chances aos volantes Sandro e Rômulo. Ambos têm um passe muito ruim, o que é inadmissível para um volante de Seleção Brasileira. Na enganosa vitória de 8×0 da seleção contra a China em 10/09/2012, o que se viu foi um show de passes errados e bolas perdidas por parte de Rômulo, lances que dificilmente seriam repetidos por jogadores do quilate de Arouca e Paulinho. Esse último, aliás, já faz algum tempo que compõe com Ralf a melhor meia defensiva do Brasil, e, por isso, sua convocação também é algo natural. Apesar de ter apenas 20 anos, Fernando vem atuando pelo time principal do Grêmio com desenvoltura, sendo um dos jogadores mais frequentes da equipe na temporada. Além disso, tem grande potencial, e pode evoluir até a Copa e se tornar uma boa peça para o elenco brasileiro. Sendo assim, a convocação de Fernando não é controversa como a de Cássio ou Fábio Santos. No entanto, apesar da boa temporada, Fernando não vive um momento brilhante pelo Grêmio – por isso, sua reação à convocação foi de surpresa absoluta.

Outros volantes do futebol brasileiro têm jogado muito bem nos últimos tempos, e poderiam igualmente ter sido convocados. Marcos Assunção, do Palmeiras, ou Juninho Pernambucano, do Vasco, são dois veteranos que ainda têm boa condição física e que esbanjam categoria (o último atua mais como segundo volante ou meia armador, mas bem poderia compor o grupo). Seriam, é verdade, nomes polêmicos em razão da idade avançada, mas, se pensarmos apenas em escalar os melhores (e Seleção Brasileira tem que ser lugar dos MELHORES!), dificilmente poderíamos nos esquecer desses jogadores. Outros dois ótimos nomes e que têm menos idade são Léo Silva, da Portuguesa, e Pierre, do Atlético-MG – dois jogadores que vêm feito um campeonato brasileiro excelente, com alto poder de marcação e bom passe.

Entre os meias ofensivos, Mano convocou Jadson (São Paulo), Lucas (São Paulo), Bernard (Atlético-MG) e Thiago Neves (Fluminense). São todos bons jogadores, e que estão em boa fase nos respectivos clubes: Jadson tem feito um bom campeonato brasileiro, Lucas é um craque em ascensão e já decidiu alguns jogos para o São Paulo, Bernard desponta como a maior revelação do futebol brasileiro no ano e Thiago Neves tem revivido o seu ótimo futebol pelo Fluminense. Contudo, como deixar de fora Ronaldinho Gaúcho, que rememora sua majestade à frente do Atlético-MG, além de Andrezinho, do Botafogo, e Elano, do Grêmio?

Mano tem jogado com dois volantes, um meia, dois pontas abertos e um centroavante, com a recente variação de retirar o centroavante fixo e deixar a função de conclusão de jogadas com Neymar ou Hulk, a depender de onde parte a jogada. Na primeira versão, o meia é Oscar, com Neymar aberto na esquerda, Hulk ou Lucas na direita, e Leandro Damião no centro avançado. Na variação, Damião dá lugar a Hulk.

Na seleção com jogadores que atuam no futebol brasileiro, é provável que a intenção de Mano seja colocar Jadson no meio, com Lucas aberto na direita, Neymar na esquerda, e Damião como centroavante, deixando Bernard como opção para a ponta esquerda, Thiago Neves como opção para a meia, Wellington Nem para a ponta direita, e Luís Fabiano para o centro avançado.

Thiago Neves, por suas características, joga mais avançado, e teria dificuldades em atuar nesse esquema. Sua entrada talvez provocasse uma alteração no esquema tático, ou talvez ele seja aproveitado para outro setor. De qualquer maneira, numa equipe ideal é forçoso reconhecer que Ronaldinho Gaúcho ou Andrezinho fariam melhor do que Jadson essa função de meia central que é exercida por Oscar na seleção principal, e Elano também não teria dificuldades para armar as jogadas. Elano ainda tem a vantagem de poder atuar como segundo volante com enorme qualidade, podendo, assim, ser um substituto para Paulinho. Todos os três – Ronaldinho Gaúcho, Andrezinho e Elano – vêm sendo decisivos para suas respectivas equipes no campeonato brasileiro em muitos jogos, com assistências, gols e grandes jogadas, e mereciam uma chance.

Andrezinho, grande destaque do Botafogo, em disputa com Renato, do Flamengo. Fonte da imagem aqui.

Finalmente, para o ataque Mano convocou Leandro Damião (Internacional), Luis Fabiano (São Paulo), Neymar (Santos) e Welington Nem (Fluminense). São todos jogadores de qualidade, mas como não estranhar a ausência de Fred (Fluminense), que é, indiscutivelmente, o melhor centroavante do futebol brasileiro? Antes de chamar novamente Luís Fabiano à seleção, que vive um bom momento, mas já tem certa idade e dificilmente poderá ser aproveitado na Copa de 2014 (pois é, a idade pesa: menos para zagueiros e volantes, é verdade, mas pesa muito para um jogador de ataque), Mano deveria ter convocado Fred. Além de Fred, Mano poderia ter convocado Vagner Love, que vive um momento no mínimo tão bom quanto o de Luís Fabiano, e tem mais chances de ser aproveitado para a Copa por ter menos idade. Love é um centroavante muito qualificado, que joga bem também fora da área, e concluí em gol com a mesma qualidade nas duas pernas.

Em face de todas essas considerações, a minha seleção seria a seguinte:

Goleiros
Fábio (Cruzeiro)

Diego Cavalieri (Fluminense)

Laterais

Carlinhos (Fluminense)

Marcos Rocha (Atlético-MG)

Bruno Cortez (São Paulo)

Ayrton (Coritiba)

Zagueiros
Dedé (Vasco)

Leonardo Silva (Atlético-MG)

Réver (Atlético-MG)

Meio-campistas

Ralf (Corinthians)

Pierre (Atlético-MG)

Arouca (Santos)

Paulinho (Corinthians)

Elano (Grêmio)

Ronaldinho Gaúcho (Atlético-MG)

Andrezinho (Botafogo)

Lucas (São Paulo)

Atacantes

Bernard (Atlético-MG)

Neymar (Santos)

Fred (Fluminense)

Leandro Damião (Internacional)

Respeitado o mesmo esquema tático de um meia armador, dois pontas abertos e um centroavante no ataque, meu time titular, por sua vez, provavelmente seria o seguinte: Fábio; Marcos Rocha, Réver, Dedé, Bruno Cortez; Arouca, Paulinho, Andrezinho (Ronaldinho Gaúcho); Lucas (Bernard), Fred, Neymar.

Mas, como eu não sou o treinador…

 

p.s. Diferentemente do que ocorre com o Brasil, os principais jogadores argentinos não atuam nem no futebol argentino, nem no brasileiro. Por isso, os hermanos terão um time logicamente mais frágil que o nosso, e, sendo assim, a Seleção de Mano é franca favorita. Que uma eventual vitória, portanto, não seja capaz de nos ludibriar. Vitórias expressivas contra forças menores do futebol como foi o caso do amistoso contra a China e mesmo vitórias contra a Argentina nessas condições, sem que os hermanos tenham os seus principais jogadores em campo, pouco dizem sobre o trabalho de Menezes à frente do selecionado do país do futebol.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Um pesadelo

Henrique Napoleão Alves

Ontem, tive um pesadelo terrível. Sonhei que vivia numa sociedade dividida em castas: a dos ricos que não precisavam trabalhar; a dos ricos que não precisavam, mas trabalhavam, e o faziam mais com o intelecto do que com a força bruta; a dos trabalhadores mais ou menos privilegiados que também trabalhavam mais com o intelecto do que com a força bruta; a dos trabalhadores mais ou menos pobres que trabalhavam mais com a força bruta do que com o intelecto; e, na raspa do tacho, a casta dos miseráveis que não podiam trabalhar porque não conseguiam emprego.

Na sociedade do meu pesadelo, trabalhos intelectuais eram vistos como superiores. Por isso, os que trabalhavam mais com a força do que com o intelecto ganhavam consideravelmente menos. Alguns dos ricos (que não precisavam trabalhar) continuavam a fazê-lo para perpetuar o status, e também porque não haviam sido educados para buscarem o desenvolvimento pleno de todas as suas potencialidades, livres que estavam do trabalho obrigatório como fuga da carestia material.

Era mesmo uma sociedade estranhíssima, e muito atrasada.

No pesadelo, eu também era advogado, e, por isso, fazia parte da casta dos trabalhadores que precisavam trabalhar para sobreviver, mas o faziam mais com o intelecto do que com a força. Para ocupar esse espaço na sociedade de castas, eu havia sido educado desde pequeno para desenvolver algumas potencialidades intelectuais. O desenvolvimento destas habilidades teve o “efeito colateral” de me incutir algumas ideias perigosas para o sistema de castas, como a de ambicionar uma vida livre para todos, onde não houvesse mais carestia e onde o trabalho fosse fruto apenas de escolhas individuais informadas, e não da obrigatoriedade incutida. Esse era o meu “eu” naquele mundo terrível.

Ali, eu tinha um amigo, mas ele era da casta abaixo da minha. Como eu, ele também havia sido educado desde pequeno para exercer aquele trabalho pouco valorizado… Fazia parte da sua educação ser enganado para acreditar que ele tivera as mesmas oportunidades que eu tive, mas não as soube aproveitar, e que, assim, por sua culpa, sua única e máxima culpa, sofria mais do que eu no jogo da vida. Fazia parte da sua educação ser enganado para acreditar que as castas eram naturais e, portanto, justas. Como se alguém nascesse e crescesse para essa ou aquela função. Como se o que um homem é e o que ele pode se tornar fossem coisas mais ou menos mecânicas.

Trabalhávamos, eu e o meu amigo, numa mesma empresa. Eu era responsável por estudar e desenvolver argumentos jurídicos complexos para atender às demandas dos nossos clientes, confortavelmente instalado numa sala com ar refrigerado e mesa bacana, e com acesso a uma biblioteca excelente, igualmente climatizada; e ele era responsável por enfrentar filas de banco para pagar contas e levar documentos daqui pra lá e de lá pra cá e de cá pra acolá, pelas ruas e avenidas da cidade, desafiando o perigo numa moto magra cujo para-choque era composto pelos seus próprios joelhos.

Eu o queria tão bem… Mas havíamos tido e continuávamos a ter vidas muito diferentes. Tínhamos muitos interesses vitais em comum, é verdade, e ele seguramente sabia muitas coisas sobre os sofrimentos injustos da sociedade de castas que eu jamais poderia aprender em livros ou na observação empática; mas o diabo é que nos diferenciaram tanto nas oportunidades de vida e de formação, na distribuição das dificuldades e facilidades da existência, nos costumes e expectativas sociais e modos de falar e de andar e de agir, nos assaram tanto dentro dos moldezinhos de cada casta, que não éramos capazes de enxergar muito bem as dores e alegrias e desejos de uma vida melhor que poderíamos e deveríamos compartilhar. Era tudo muito triste: o futebol era, desgraçada e fortuitamente, o único assunto que tínhamos em comum.

1 comentário

Arquivado em Uncategorized

“Doutor Advogado e Doutor Médico: até quando?” Por Eliane Brum

Estimados leitores,

Compartilho com vocês uma ótima reflexão da jornalista Eliane Brum.

H.N.

__________________________

http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/09/doutor-advogado-e-doutor-medico-ate-quando.html

Doutor Advogado e Doutor Médico: até quando?

Por que o uso da palavra “doutor” antes do nome de advogados e médicos ainda persiste entre nós? E o que ela revela do Brasil?

ELIANE BRUM

Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista (Foto: ÉPOCA)Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de um romance – Uma Duas (LeYa) – e de três livros de reportagem:Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê(Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua(Globo). E codiretora de dois documentários: Uma História Severina e Gretchen Filme Estrada. elianebrum@uol.com.br
@brumelianebrum (Foto: ÉPOCA)

Sei muito bem que a língua, como coisa viva que é, só muda quando mudam as pessoas, as relações entre elas e a forma como lidam com o mundo. Poucas expressões humanas são tão avessas a imposições por decreto como a língua. Tão indomável que até mesmo nós, mais vezes do que gostaríamos, acabamos deixando escapar palavras que faríamos de tudo para recolher no segundo seguinte. E talvez mais vezes ainda pretendêssemos usar determinado sujeito, verbo, substantivo ou adjetivo e usamos outro bem diferente, que revela muito mais de nossas intenções e sentimentos do que desejaríamos. Afinal, a psicanálise foi construída com os tijolos de nossos atos falhos. Exerço, porém, um pequeno ato quixotesco no meu uso pessoal da língua: esforço-me para jamais usar a palavra “doutor” antes do nome de um médico ou de um advogado.

Travo minha pequena batalha com a consciência de que a língua nada tem de inocente. Se usamos as palavras para embates profundos no campo das ideias, é também na própria escolha delas, no corpo das palavras em si, que se expressam relações de poder, de abuso e de submissão. Cada vocábulo de um idioma carrega uma teia de sentidos que vai se alterando ao longo da História, alterando-se no próprio fazer-se do homem na História. E, no meu modo de ver o mundo, “doutor” é uma praga persistente que fala muito sobre o Brasil. Como toda palavra, algumas mais do que outras, “doutor” desvela muito do que somos – e é preciso estranhá-lo para conseguirmos escutar o que diz.

Assim, minha recusa ao “doutor” é um ato político. Um ato de resistência cotidiana, exercido de forma solitária na esperança de que um dia os bons dicionários digam algo assim, ao final das várias acepções do verbete “doutor”: “arcaísmo: no passado, era usado pelos mais pobres para tratar os mais ricos e também para marcar a superioridade de médicos e advogados, mas, com a queda da desigualdade socioeconômica e a ampliação dos direitos do cidadão, essa acepção caiu em desuso”.

Em minhas aspirações, o sentido da palavra perderia sua força não por proibição, o que seria nada além de um ato tão inútil como arbitrário, na qual às vezes resvalam alguns legisladores, mas porque o Brasil mudou. A língua, obviamente, só muda quando muda a complexa realidade que ela expressa. Só muda quando mudamos nós.

Historicamente, o “doutor” se entranhou na sociedade brasileira como uma forma de tratar os superiores na hierarquia socioeconômica – e também como expressão de racismo. Ou como a forma de os mais pobres tratarem os mais ricos, de os que não puderam estudar tratarem os que puderam, dos que nunca tiveram privilégios tratarem aqueles que sempre os tiveram. O “doutor” não se estabeleceu na língua portuguesa como uma palavra inocente, mas como um fosso, ao expressar no idioma uma diferença vivida na concretude do cotidiano que deveria ter nos envergonhado desde sempre.

Lembro-me de, em 1999, entrevistar Adail José da Silva, um carregador de malas do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, para a coluna semanal de reportagem que eu mantinha aos sábados no jornal Zero Hora, intitulada “A Vida Que Ninguém Vê”. Um trecho de nosso diálogo foi este:

– E como os fregueses o chamam?
– Os doutor me chamam assim, ó: “Ô, negão!” Eu acho até que é carinhoso.

– O senhor chama eles de doutor?
– Pra mim todo mundo é doutor. Pisou no aeroporto é doutor. É ó, doutor, como vai, doutor, é pra já, doutor….

– É esse o segredo do serviço?
– Tem que ter humildade. Não adianta ser arrogante. Porque, se eu fosse um cara importante, não ia tá carregando a mala dos outros, né? Sou pé de chinelo. Então, tenho que me botar no meu lugar.

A forma como Adail via o mundo e o seu lugar no mundo – a partir da forma como os outros viam tanto ele quanto seu lugar no mundo – contam-nos séculos de História do Brasil. Penso, porém, que temos avançado nas últimas décadas – e especialmente nessa última. O “doutor” usado pelo porteiro para tratar o condômino, pela empregada doméstica para tratar o patrão, pelo engraxate para tratar o cliente, pelo negro para tratar o branco não desapareceu – mas pelo menos está arrefecendo.

Se alguém, especialmente nas grandes cidades, chamar hoje o outro de “doutor”, é legítimo desconfiar de que o interlocutor está brincando ou ironizando, porque parte das pessoas já tem noção da camada de ridículo que a forma de tratamento adquiriu ao longo dos anos. Essa mudança, é importante assinalar, reflete também a mudança de um país no qual o presidente mais popular da história recente é chamado pelo nome/apelido. Essa contribuição – mais sutil, mais subjetiva, mais simbólica – que se dá explicitamente pelo nome, contida na eleição de Lula, ainda merece um olhar mais atento, independentemente das críticas que se possa fazer ao ex-presidente e seu legado.

Se o “doutor” genérico, usado para tratar os mais ricos, está perdendo seu prazo de validade, o “doutor” que anuncia médicos e advogados parece se manter tão vigoroso e atual quanto sempre. Por quê? Com tantas mudanças na sociedade brasileira, refletidas também no cinema e na literatura, não era de se esperar um declínio também deste doutor?

Ao pesquisar o uso do “doutor” para escrever esta coluna, deparei-me com artigos de advogados defendendo que, pelo menos com relação à sua própria categoria, o uso do “doutor” seguia legítimo e referendado na lei e na tradição. O principal argumento apresentado para defender essa tese estaria num alvará régio no qual D. Maria, de Portugal, mais conhecida como “a louca”, teria outorgado o título de “doutor” aos advogados. Mais tarde, em 1827, o título de “doutor” teria sido assegurado aos bacharéis de Direito por um decreto de Dom Pedro I, ao criar os primeiros cursos de Ciências Jurídicas e Sociais no Brasil. Como o decreto imperial jamais teria sido revogado, ser “doutor” seria parte do “direito” dos advogados. E o título teria sido “naturalmente” estendido para os médicos em décadas posteriores.

Há, porém, controvérsias. Em consulta à própria fonte, o artigo 9 do decreto de D. Pedro I diz o seguinte: “Os que frequentarem os cinco anos de qualquer dos Cursos, com aprovação, conseguirão o grau de Bacharéis formados. Haverá também o grau de Doutor, que será conferido àqueles que se habilitarem com os requisitos que se especificarem nos Estatutos, que devem formar-se, e só os que o obtiverem, poderão ser escolhidos para Lentes”. Tomei a liberdade de atualizar a ortografia, mas o texto original pode ser conferido aqui. “Lente” seria o equivalente hoje à livre-docente.

Mesmo que Dom Pedro I tivesse concedido a bacharéis de Direito o título de “doutor”, o que me causa espanto é o mesmo que, para alguns membros do Direito, garantiria a legitimidade do título: como é que um decreto do Império sobreviveria não só à própria queda do próprio, mas também a tudo o que veio depois?

O fato é que o título de “doutor”, com ou sem decreto imperial, permanece em vigor na vida do país. Existe não por decreto, mas enraizado na vida vivida, o que torna tudo mais sério. A resposta para a atualidade do “doutor” pode estar na evidência de que, se a sociedade brasileira mudou bastante, também mudou pouco. A resposta pode ser encontrada na enorme desigualdade que persiste até hoje. E na forma como essas relações desiguais moldam a vida cotidiana.

É no dia a dia das delegacias de polícia, dos corredores do Fórum, dos pequenos julgamentos que o “doutor” se impõe com todo o seu poder sobre o cidadão “comum”. Como repórter, assisti à humilhação e ao desamparo tanto das vítimas quanto dos suspeitos mais pobres à mercê desses doutores, no qual o título era uma expressão importante da desigualdade no acesso à lei. No início, ficava estarrecida com o tratamento usado por delegados, advogados, promotores e juízes, falando de si e entre si como “doutor fulano” e “doutor beltrano”. Será que não percebem o quanto se tornam patéticos ao fazer isso?, pensava. Aos poucos, percebi a minha ingenuidade. O “doutor”, nesses espaços, tinha uma função fundamental: a de garantir o reconhecimento entre os pares e assegurar a submissão daqueles que precisavam da Justiça e rapidamente compreendiam que a Justiça ali era encarnada e, mais do que isso, era pessoal, no amplo sentido do termo.

No caso dos médicos, a atualidade e a persistência do título de “doutor” precisam ser compreendidas no contexto de uma sociedade patologizada, na qual as pessoas se definem em grande parte por seu diagnóstico ou por suas patologias. Hoje, são os médicos que dizem o que cada um de nós é: depressivo, hiperativo, bipolar, obeso, anoréxico, bulímico, cardíaco, impotente, etc. Do mesmo modo, numa época histórica em que juventude e potência se tornaram valores – e é o corpo que expressa ambas – faz todo sentido que o poder médico seja enorme. É o médico, como manipulador das drogas legais e das intervenções cirúrgicas, que supostamente pode ampliar tanto potência quanto juventude. E, de novo supostamente, deter o controle sobre a longevidade e a morte. A ponto de alguns profissionais terem começado a defender que a velhice é uma “doença” que poderá ser eliminada com o avanço tecnológico.

O “doutor” médico e o “doutor” advogado, juiz, promotor, delegado têm cada um suas causas e particularidades na história das mentalidades e dos costumes. Em comum, o doutor médico e o doutor advogado, juiz, promotor, delegado têm algo significativo: a autoridade sobre os corpos. Um pela lei, o outro pela medicina, eles normatizam a vida de todos os outros. Não apenas como representantes de um poder que pertence à instituição e não a eles, mas que a transcende para encarnar na própria pessoa que usa o título.

Se olharmos a partir das relações de mercado e de consumo, a medicina e o direito são os únicos espaços em que o cliente, ao entrar pela porta do escritório ou do consultório, em geral já está automaticamente numa posição de submissão. Em ambos os casos, o cliente não tem razão, nem sabe o que é melhor para ele. Seja como vítima de uma violação da lei ou como autor de uma violação da lei, o cliente é sujeito passivo diante do advogado, promotor, juiz, delegado. E, como “paciente” diante do médico, como abordei na coluna anterior, deixa de ser pessoa para tornar-se objeto de intervenção.

Num país no qual o acesso à Justiça e o acesso à Saúde são deficientes, como o Brasil, é previsível que tanto o título de “doutor” permaneça atual e vigoroso quanto o que ele representa também como viés de classe. Apesar dos avanços e da própria Constituição, tanto o acesso à Justiça quanto o acesso à Saúde permanecem, na prática, como privilégios dos mais ricos. As fragilidades do SUS, de um lado, e o número insuficiente de defensores públicos de outro são expressões dessa desigualdade. Quando o direito de acesso tanto a um quanto a outro não é assegurado, a situação de desamparo se estabelece, assim como a subordinação do cidadão àquele que pode garantir – ou retirar – tanto um quanto outro no cotidiano. Sem contar que a cidadania ainda é um conceito mais teórico do que concreto na vida brasileira.

Infelizmente, a maioria dos “doutores” médicos e dos “doutores” advogados, juízes, promotores, delegados etc estimulam e até exigem o título no dia a dia. E talvez o exemplo público mais contundente seja o do juiz de Niterói (RJ) que, em 2004, entrou na Justiça para exigir que os empregados do condomínio onde vivia o chamassem de “doutor”. Como consta nos autos, diante da sua exigência, o zelador retrucava: “Fala sério….” Não conheço em profundidade os fatos que motivaram as desavenças no condomínio – mas é muito significativo que, como solução, o juiz tenha buscado a Justiça para exigir um tratamento que começava a lhe faltar no território da vida cotidiana.

É importante reconhecer que há uma pequena parcela de médicos e advogados, juízes, promotores, delegados etc que tem se esforçado para eliminar essa distorção. Estes tratam de avisar logo que devem ser chamados pelo nome. Ou por senhor ou senhora, caso o interlocutor prefira a formalidade – ou o contexto a exija. Sabem que essa mudança tem grande força simbólica na luta por um país mais igualitário e pela ampliação da cidadania e dos direitos. A estes, meu respeito.

Resta ainda o “doutor” como título acadêmico, conquistado por aqueles que fizeram doutorado nas mais diversas áreas. No Brasil, em geral isso significa, entre o mestrado e o doutorado, cerca de seis anos de estudo além da graduação. Para se doutorar, é preciso escrever uma tese e defendê-la diante de uma banca. Neste caso, o título é – ou deveria ser – resultado de muito estudo e da produção de conhecimento em sua área de atuação. É também requisito para uma carreira acadêmica bem sucedida – e, em muitas universidades, uma exigência para se candidatar ao cargo de professor.

Em geral, o título só é citado nas comunicações por escrito no âmbito acadêmico e nos órgãos de financiamento de pesquisas, no currículo e na publicação de artigos em revistas científicas e/ou especializadas. Em geral, nenhum destes doutores é assim chamado na vida cotidiana, seja na sala de aula ou na padaria. E, pelo menos os que eu conheço, caso o fossem, oscilariam entre o completo constrangimento e um riso descontrolado. Não são estes, com certeza, os doutores que alimentam também na expressão simbólica a abissal desigualdade da sociedade brasileira.

Estou bem longe de esgotar o assunto aqui nesta coluna. Faço apenas uma provocação para que, pelo menos, comecemos a estranhar o que parece soar tão natural, eterno e imutável – mas é resultado do processo histórico e de nossa atuação nele. Estranhar é o verbo que precede o gesto de mudança. Infelizmente, suspeito de que “doutor fulano” e “doutor beltrano” terão ainda uma longa vida entre nós. Quando partirem desta para o nunca mais, será demasiado tarde. Porque já é demasiado tarde – sempre foi.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized