Arquivo do mês: novembro 2012

Juca Kifouri: “25 anos sem Mané Garrincha”

Segue, abaixo, uma crônica brilhante do jornalista Juca Kifouri sobre o legendário futebolista brasileiro Mané Garrincha (1933-1983). O texto foi publicado em 2008, mas só hoje pude conhecê-lo.

É imperdível, especialmente para os amantes do esporte, mas também para os amantes da vida: Garrincha é um ícone do imprevisível que torna a nossa existência tão trágica quanto bela.

H.N.

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http://blogdojuca.uol.com.br/

25 anos sem Mané Garrincha

Juca Kifouri

Pelé deixava o estádio boquiaberto. Garrincha fazia o estádio gargalhar.

O Rei beirava a perfeição, como Michelangelo. Mané alegrava, como Van Gogh.

O “Atleta do Século” era Spielberg. A “Alegria do Povo” era o próprio Chaplin.

Um lembrava Beethoven, o outro, Mozart.

O Rei Pelé, é o melhor de todos os tempos. Mané Garrincha, a “Alegria do Povo”, foi o segundo.

Mesmo que o mundo não reconheça, Garrincha foi sim, o segundo melhor jogador da história do futebol.

E com Pelé e Garrincha juntos, a Seleção Brasileira jamais perdeu um jogo sequer. Foram 40 partidas, 36 vitórias e apenas quatro empates.

Por herético que pareça, Garrincha conseguiu ser até mais importante que Pelé nas duas Copas do Mundo vencidas pela Seleção Brasileira com ambos em campo — em 1958, na Suécia, e em 1962, no Chile.

Na primeira, o Brasil provavelmente venceria mesmo sem o menino Pelé, com 17 anos. Teria sido mais difícil, sem seus seis gols e tanta genialidade. Mas, sem Mané, talvez tivesse sido impossível, arma letal para desarrumar as defesas européias.

Indiscutível, no entanto, que na Copa do Chile, na qual Pelé saiu machucado no segundo jogo, Garrincha fez pelo Brasil o que só Maradona foi capaz de fazer pela Argentina, no México, 24 anos depois: ganhou a Copa praticamente sozinho.

Ali, ele driblou como sempre e fez gols, quatro, como nunca. Mais: armou pelo meio, marcou gol de cabeça, de pé esquerdo, de fora da área, bateu faltas, uma das quais, no rebote do goleiro inglês, acabou e gol do Brasil. Enfim, ele pintou e bordou.

Assumiu o papel de ator principal, acostumado que estava a ser coadjuvante de Pelé.

Até ser expulso de campo ele foi (pela quarta e última vez em 20 anos de carreira), na semifinal, contra os anfitriões, depois de muito apanhar de seus marcadores chilenos.

E jogou a finalíssima febril.

Em 1970, ano do tricampeonato brasileiro, Garrincha já não estava e Pelé foi maravilhoso, como era habitual. Mas, novamente, é possível supor que o Brasil seria campeão mesmo sem ele.

No Chile, no entanto, sem Garrincha, jamais.

E, enfim, para enaltecer o maior camisa 7 da história não é preciso compará-lo a ninguém — embora inevitável, mas já suficiente. Até porque Garrincha foi único.

Tão único que apenas uma vez, em 60 jogos, saiu derrotado de campo com a camisa da Seleção Brasileira. E foi exatamente em sua última participação pelo time da CBF, na Copa da Inglaterra, em 1966, Brasil 1, Hungria 3. No mais, foram 52 vitórias e sete empates.

Mané Garrincha era pura fantasia. E, fisicamente, improvável.

A tal ponto que foi dispensado de servir ao Exército sem nem sequer precisar de exame médico. O sargento que o recebeu achou que ele era deficiente físico e dispensou-o sem mais.

Tinha o joelho direito virado para dentro e o esquerdo, para fora.

Em regra, as pessoas são genuvaras (os dois joelhos voltados para fora) ou genuvalgas (para dentro).

Ele não era nem uma coisa nem outra. Ou era ambas.

De quebra, tinha um deslocamento de bacia.

Daí porque ser praticamente impossível marcá-lo.

Se o marcador olhasse para os seus joelhos ficaria inteiramente desorientado. Se olhasse para o seu tronco que, é claro, sempre acompanha o movimento do corpo, também se perderia, porque o deslocamento da bacia causava confusão.

E todo mundo sabia que ele só driblava para a direita. Mas ninguém conseguia roubar a bola dele.

Vale relembrar.

Os dois alvinegros, Santos e Botafogo, faziam os grandes jogos da época, anos 60. Pelé x Garrincha, fora outros gigantes de ambos os timaços.

 

Pois o Pacaembu, em São Paulo, estava lotado para ver mais uma disputa genial.

 

Pelé e Mané estavam em campo, mas o diabo estava era no corpo que vestia a camisa 7, não a 10. O lateral esquerdo Dalmo, do Santos, viveu uma tarde de terror. Garrincha pegava a bola e, andando, levava Dalmo até dentro da grande área, onde o zagueiro não podia fazer falta.

 

O Pacaembu não acreditava no que via: um ponta andar da intermediária até a área, sem que o lateral tentasse tirar a bola, temeroso do drible desmoralizante. Até que Dalmo percebeu que tinha virado motivo de chacota dos torcedores, muitos dos quais nem santistas eram, mas que iam ao campo na certeza do espetáculo.

 

E Dalmo resolveu bater, fora da área. Bateu uma vez, Garrincha caiu, o árbitro marcou a falta e repreendeu o paulista. Bateu outra vez, Garrincha voltou ao chão, o árbitro marcou a falta e ameaçou Dalmo de expulsão, porque naquele tempo o cartão amarelo não existia.

 

A terceira falta de Dalmo foi a mais violenta, como se ele tivesse pensando: “Arrebento essa peste, sou expulso, mas ele não joga mais”.

 

Pensado e feito. Enquanto o gênio das pernas tortas estava estirado no bico direito da área dos portões principais do Pacaembu, o árbitro determinava a expulsão de Dalmo, cercado por botafoguenses justamente irados com seu gesto.

 

Eis que, como um acrobata, Garrincha levanta-se, afasta seus companheiros, bota o braço esquerdo no ombro de Dalmo e o acompanha até a descida da escada para o vestiário, que, então, ficava daquele lado.

 

Saíram conversando, como se Garrincha justificasse a atitude, entendesse que, para pará-lo, não havia mesmo outro jeito.

 

O Botafogo ganhou de 3 a 0 e saiu aplaudido do estádio. Tinha visto uma autêntica exibição do Carlitos do futebol, digna mesmo de Charles Chaplin, divertida, anárquica, humana, sensível, solidária.

Assim Mané levava o futebol e a vida. Sem maldade.

Talvez também por isso, o povo brasileiro o amou mais do que qualquer outro ídolo do futebol.

Garrincha não se enquadrava em nenhuma teoria e foi a melhor prova de que nada é mais injusto do que tratar igualmente os desiguais.

Ele merecia tratamento especial. Ou era assim ou não teria sido o que foi.

Nilton Santos, por exemplo, seu compadre e líder do grande Botafogo dos anos 50 e 60, gosta de contar que de vez em quando surgiam reclamações dentro do elenco alvinegro por causa das regalias do camisa 7.

Quando a situação começava a dar pistas de uma crise iminente, o lateral-esquerdo reunia os jogadores e os catequizava. “É verdade que o Mane não aparece na revisão médica às segundas-feiras. É que na segunda-feira ele vai para Pau Grande, sua cidade, caçar passarinho. Sei também que nem sempre ele aparece para treinar na terça, principalmente quando o tempo está bom. É que ele dá uma esticadinha, fica caçando mais um pouco, e tomando sua cachaça. É também fato que ele vira-e-mexe foge da concentração. Mas ninguém pode acusá-lo de não jogar aos domingos e nos jogos ele garante o nosso bicho. É só isso que temos de cobrar dele: que nos garanta os prêmios por vitórias. Esse negócio de revisão médica, treinamentos, concentrações é para nós, mortais, comuns. O Mané é diferente”.

E bote diferente nisto.

Garrincha era um sujeito simples, ingênuo mesmo, mas muito inteligente, diferentemente do que o folclore sempre quis fazer parecer.

São inúmeros os casos que o têm como protagonista central, boa parte deles fruto da imaginação de quem os contou.

Sobre isso, por sinal, é recomendável a leitura do grande livro “Estrela Solitária – Um brasileiro chamado Garrincha”, obra-prima do jornalista Ruy Castro, publicado em 1995 pela editora brasileira Companhia das Letras.

(Ruy Castro, por sinal, prefere comparar Mané Garrincha ao comediante mexicano Cantinflas e a Harpo, um dos irmãos Marx, e discorda dos que o comparam a Chaplin, embora fosse impossível ver Garrincha sem lembrar de Carlitos e vice-versa).

Na biografia, revelam-se todos os ângulos do ponta-direita e, sem rodeios, como o álcool o devastou, levando-o a um fim dramático e inglório.

O imortal compositor Tom Jobim costumava dizer que o povo brasileiro é tão original que entre um vencedor e um perdedor sempre escolhe o segundo, razão pela qual Garrincha era mais amado que Pelé.

Uma evidente meia-verdade porque se, de fato, o craque botafoguense não teve a vida que merecia, por outro lado, dentro dos gramados, foi um incontestável vencedor. Como poucos, aliás.

Mané Garrincha nasceu Manuel dos Santos, em 28 de outubro de 1933, em Pau Grande, no estado do Rio de Janeiro. As pernas tortas foram herança da mãe, Maria Carolina, e o alcoolismo herdado geneticamente do pai, Amaro.

Sobre ele, alguns dos principais escritores e jornalistas brasileiros cunharam frases como estas: ´´Para Garrincha, a superfície de um lenço era um latifúndio.“ (Armando Nogueira);

´´Como o poeta, tocado por um anjo, como um compositor, seguindo a melodia que lhe cai do céu, como o bailarino atrelado ao ritmo, Garrincha joga futebol por pura inspiração.“(Paulo Mendes Campos); ´´E a civilização não era o elemento de Garrincha. A graça estava em driblar, apenas driblar. Estava no futebol em estado selvagem e lúdico, que era como os índios o jogariam, se soubessem.“(Ruy Castro).

 

E um jornal chileno, “El Mercúrio”, perguntou, durante a Copa do Mundo de 1962, em manchete: ´´De que planeta viene?“

 

Garrincha veio de um planeta desconhecido da imensa maioria dos atletas europeus, mas velho conhecido dos jogadores do Terceiro Mundo.

 

O campinho que serviu de palco para seus primeiros jogos quando ainda menino ficava à beira de uma ribanceira.

 

Ruy Castro descreve: “Conduzir a bola descalço, sem torcer o pé num daqueles buracos, já seria uma façanha. Driblar perto da ribanceira sem deixar a bola escorrer por ela, façanha maior ainda. Garrincha praticava as duas proezas com a maior facilidade. No primeiro caso porque, de tanto topar com os buracos, aprendera a driblá-los junto com o adversário; no segundo, porque detestava ter de descer a pirambeira para buscar a bola – donde tentava não perdê-la. O normal era que jogassem Garrincha e mais dois contra sete ou oito, para a partida ficar equilibrada”.

Com um aprendizado em tais condições, só mesmo os italianos ficaram surpresos com a atuação dele num amistoso diante da Fiorentina, pouco antes da Copa do Mundo de 1958.

É ainda Ruy Castro quem narra: “O Brasil já ganhava por 3 a 0, mas o quarto gol, que foi de Garrincha, aos 30 minutos do segundo tempo, sangrou a Fiorentina até a morte. Garrincha transformou os italianos em soldadinhos de cartas, um derrubando o outro à sua passagem. Robotti foi o primeiro que ele driblou. Magnini apareceu para ajudar Robotti e foi igualmente driblado. O goleiro Sarti abandonou a meta para enfrentar Garrincha e também foi fintado. Com o gol vazio, Garrincha poderia ter chutado, mas Robotti conseguira voltar para combatê-lo. Garrincha tirou-o da jogada com um drible de corpo e Robotti teve de segurar-se na trave para não cair. Garrincha, então, apenas caminhou com a bola até dentro do gol”. Como se quisesse evitar que a bola descesse ribanceira abaixo.

Diz a lenda que a brincadeira tirou-o do time titular do Brasil no começo da Copa e , fábula ou não, o fato é que ele só entrou na equipe no terceiro jogo, quando enlouqueceu os soviéticos do começo ao fim da partida.

Entre 1955 e 1962, Mané Garrincha foi isso, arte em estado puro.

De 1962 em diante, embora tenha jogado a Copa da Inglaterra, em 1966, ele tentou apenas sobreviver.

Seus joelhos já estavam em situação miserável e o alcoolismo se acentuava dramaticamente.

O melhor ponta-direita da história não conseguia driblar seus fantasmas e, no dia 20 de janeiro de 1983, nove meses e oito dias antes de completar 50 anos, Manoel dos Santos morreu miserável e esquecido para passar a ser reverenciado como um dos grandes gênios do futebol.

Mas gênio mesmo, com G de Garrincha.

*Texto escrito originalmente para e publicado no livro  ”Futebol de muitas cores e sabores”, da coleção Saberes do Desporto, Editora Campos das Letras, da Universidade do Porto, Portugal, em 2004.

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“Sorria, seu carro está sendo seguido!”

Imperdível o artigo do prof. Tulio Vianna sobre a instalação de chips nos carros.

É impressionante e sintomático como algo tão grave e aterrador não seja um dos tópicos do dia no debate público do nosso país.

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Sorria, seu carro está sendo seguido

 

TÚLIO VIANNA É PROFESSOR DA FACULDADE DE DIREITO DA UFMG, AUTOR DE TRANSPARÊNCIA PÚBLICA, OPACIDADE PRIVADA (ED. REVAN) – O Estado de S.Paulo

TÚLIO VIANNA
O governo federal anunciou que vai implantar chips em todos os veículos do País a partir de janeiro. O Sistema Nacional de Identificação Automática de Veículos (Siniav) pretende substituir os atuais radares por antenas capazes de se comunicar com os chips de uso obrigatório que deverão ser instalados nos para-brisas dos veículos. Um veículo em excesso de velocidade, em lugar de ter sua placa fotografada por um radar, teria então os dados de seu chip registrados em um sistema informático que o autuaria pela infração. Além disso, o sistema também poderá ser usado na cobrança de pedágio, no controle do tráfego, na identificação de veículos com multas ou impostos atrasados e na localização de veículos furtados ou roubados.
Ainda que a propaganda oficial procure dar destaque à suposta capacidade de inibir os ladrões de veículos, é pouco provável que, na prática, o sistema alcance esse objetivo. Isso porque o chip pode ser arrancado do para-brisa e inutilizado e a multa por trafegar sem o chip obrigatório decididamente será a menor das preocupações do ladrão. E é até melhor que o chip possa ser facilmente encontrado e inutilizado, pois sua instalação em um local de difícil acesso acabaria incentivando o sequestro do motorista, já que, enquanto o roubo não for comunicado, o ladrão conseguiria passar com o veículo pelas antenas sem desencadear uma perseguição policial.
Não se trata, pois, de um sistema criado para proteger motoristas de furtos ou roubos, mas sim para aumentar a arrecadação de multas, impostos e pedágios. E o mais grave: o preço a se pagar pelo aumento dessa arrecadação é uma significativa restrição ao direito à privacidade dos motoristas, pois os computadores do Estado passarão a ter armazenados os locais por onde os veículos passaram ao longo dos últimos meses.
Ainda que tais dados sejam resguardados oficialmente pela tecnologia da criptografia e pelo direito à privacidade, na prática qualquer policial com acesso ao sistema poderá saber por onde um veículo circulou nos últimos meses, com os horários exatos de quando passou pelas antenas, sem necessidade sequer de mandado judicial. Haverá um excesso de informações de interesse exclusivamente privado nas mãos da polícia, que poderá vigiar os percursos de cidadãos de acordo com sua livre conveniência.
Se considerarmos que essas informações só serão utilizadas nos estritos limites da legalidade, a medida já se mostra excessivamente invasiva; mas se imaginarmos que os dados possam vazar para criminosos, o cenário se torna ainda mais inquietante: sequestradores e ladrões poderiam ter acesso a uma lista detalhada dos hábitos de deslocamento de todos os motoristas brasileiros.
Um projeto como esse, que pretende impor a todos os motoristas brasileiros graves restrições a seu direito à privacidade, não deveria ser decidido pelo Conselho Nacional de Trânsito (Contran), até porque seus membros não foram eleitos pelo voto popular e não têm legitimidade para impor tamanha restrição a um direito constitucional. Cabe ao Congresso Nacional apreciar a matéria, abrindo um amplo debate público sobre a necessidade ou não da implantação do sistema.
O projeto prevê gastos de aproximadamente R$ 5 milhões e não tem precedentes em outros países do mundo, o que tornaria o Brasil o pioneiro ou, dependendo do ponto de vista, a cobaia do sistema. Se é certo que os avanços tecnológicos podem trazer grandes melhorias na administração pública, é preciso, porém, bastante cautela antes de realizar esse tipo de investimento.
O Brasil é um país em desenvolvimento e não se pode prestar ao papel de laboratório de novas tecnologias que limitem direitos fundamentais de seus cidadãos. Nos EUA, na Europa e em outros países desenvolvidos e com a democracia já consolidada nenhum sistema como esse foi implantado em escala massiva e com uso obrigatório.
O governo não pode nem deve se deixar seduzir pela propaganda das empresas privadas interessadas em vender a nova tecnologia, pois os eventuais benefícios sociais que ela pode trazer têm, como efeito colateral, uma grave limitação ao direito constitucional à privacidade. É preciso que haja um amplo debate público sob a necessidade e a conveniência de se monitorar veículos.
Já colocaram câmeras de vigilância nas ruas sem que o Congresso Nacional aprovasse sequer uma lei regulamentando-as. Agora querem monitorar por onde os veículos brasileiros passam, sem de novo submeter a questão ao Legislativo. O que virá em seguida? Câmeras de vigilância nas casas? Gravação de todas as conversas telefônicas? Chips implantados em recém-nascidos?
O Big Brother, que no passado foi tema de livro e hoje é programa de TV, a cada dia que passa está se tornando uma aterradora realidade. É preciso impedi-lo de crescer enquanto há tempo.

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Noam Chomsky: “Pós-Modernismo?”

Caros Leitores,

Com grande satisfação, torno público um instigante artigo do prof. Noam Chomsky, intitulado “Pós-Modernismo?”, cuja tradução acabo de concluir.

O artigo é a transcrição de uma entrevista com o professor Noam Chomsky publicada online pela primeira vez em Novembro de 1995, e republicada pela ZNet em 14 de Agosto de 2012, e coloca em questão (mas não em xeque*) o papel das teorias e filosofias propostas no âmbito das ciências humanas e sociais na compreensão dos problemas sociais e na sua superação ou manutenção (com duras críticas particularmente direcionadas aos filósofos de Paris – Foucault, Derrida, Kristeva etc.).

Há também reflexões muito ricas sobre o distanciamento dos intelectuais em relação aos problemas concretos da sociedade, e sobre a relação entre escolaridade e ideologização.

O texto está disponível nos seguintes hiperlinks:

CHOMSKY, Noam. Pós-Modernismo? [Post-Modernism?]. Trad. Henrique Napoleão Alves. Velho Trapiche, 14 de novembro de 2012 [1995]. 11 p.

(ou clique aqui)

Alguns trechos particularmente interessantes:

Os proponentes da “teoria” e “filosofia” têm uma tarefa muito simples se quiserem sustentar suas proposições: […] mostrem-nos que os princípios da “teoria” ou “filosofia” que nos dizem para estudar e aplicar conduzem, por meio de argumentos válidos, a conclusões que nós ainda não tenhamos alcançado a partir de outros fundamentos; esse “nós” inclui pessoas que não tiveram acesso à educação formal, e que geralmente parecem não ter problema algum em alcançar essas conclusões muitas vezes por si próprias, se não por meio de interações mútuas que evitam totalmente as obscuridades “teóricas”.

 

Há muitas coisas que não compreendo – digamos, os últimos debates sobre se neutrinos têm ou não massa ou o modo como o último teorema de Fermat foi comprovado. Mas, em cinquenta anos neste jogo, aprendi duas coisas: (1) posso pedir para amigos que trabalham nessas áreas que me expliquem essas questões num nível que eu possa compreender, e eles são capazes disso sem maiores dificuldades; (2) se eu estou interessado na questão, tratar de aprender mais, até que eu venha a compreendê-la.

Ora, Derrida, Lacan, Lyotard, Kristeva etc. – mesmo Foucault, que conheci e de quem gostei, e que é de alguma forma diferente desse restante – escrevem coisas que não só não compreendo, mas a que (1) e (2) não se aplicam: ninguém que diz que os entende é capaz de me explicar e tampouco têm a menor idéia de como proceder para superar as minhas falhas e limitações. Isso nos deixa com duas possiblidades: ou (a) ocorreu algum avanço novo na vida intelectual, talvez uma mutação genérica súbita, que criou uma forma de “teoria” que transcende a teoria quântica, a topologia matemática etc. em complexidade e profundidade; ou (b) …. não irei soletrar.

 

Alguns dos exemplos específicos de Foucault (digamos, sobre as técnicas de punição do século XVIII) parecem ser interessantes e merecedores de serem investigados quanto à sua precisão. Mas a “teoria” é meramente uma reafirmação extremamente complexa e inflada do que muitos outros disseram de maneira simples, sem qualquer pretensão de que se tratasse de algo profundo. […] Que fique claro: os que me questionam estão fazendo exatamente a coisa certa, apresentando o que vêem como “importantes intuições [insights] e construções teóricas” que encontram em Foucault. Meu problema é que as “intuições” [insights] me parecem básicas, e não há “construções teóricas”, exceto se tomarmos como tais as idéias simples e básicas que são revestidas de retórica complicada e pretensiosa.

 

Verifiquei repetidas vezes que, quando o público é majoritariamente pobre e menos escolarizado, posso deixar de lado várias questões relativas ao pano de fundo e ao “contexto de referência” da discussão por serem coisas já óbvias e tidas como tais por todos, e posso, assim, avançar para os temas que interessam a todos. Com os públicos mais escolarizados, isso é muito mais difícil; é necessário desmontar montes de construções ideológicas.

 

Os intelectuais de esquerda, que há sessenta anos estariam a ensinar em escolas da classe trabalhadora, a escrever livros como “matemática para milhões” (que tornou a matemática inteligível para milhões de pessoas), a participar e falar em organizações populares etc., estão hoje amplamente afastados de tais atividades, e, embora rápidos para nos contar que são muito mais radicais, não se encontram disponíveis, ao que parece, quando há uma necessidade óbvia e crescente e mesmo requisições explícitas pelo trabalho que eles poderiam desenvolver lá fora, no mundo das pessoas com problemas e preocupações reais.

 

Boa leitura a todos.

H.

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* O próprio Chomsky é notoriamente um entusiasta das ideias de vários filósofos e teóricos das ciências sociais e humanas e do seu papel transformador; por isso, ler suas críticas como “anti-intelectualismo irresponsável” ou algo do tipo é incorrer em grave equívoco. Quero escrever sobre o texto de Chomsky de forma mais alongada oportunamente; por ora, atenho-me apenas a uma breve introdução ao texto, para instigá-los a conhecê-lo.

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“O que os juristas deveriam aprender com Karl Marx?”

Caros leitores,

Em 2008, no último ano da minha graduação, tive a oportunidade de traduzir um artigo do professor Martti Koskenniemi, intitulado “What Should International Lawyers Learn From Karl Marx?”.

O texto seria publicado pelo Centro Acadêmico Afonso Pena no seu periódico, a Revista do CAAP, mas não o foi. Hoje, anos depois, decidi publicá-lo no nosso Velho Trapiche, cumprindo a promessa feita ao professor Koskenniemi de disponibilizar o texto gratuitamente ao público brasileiro. “Antes tarde do que nunca”…

KOSKENNIEMI, Martti. O que os jusinternacionalistas deveriam aprender com Karl Marx? [What Should International Lawyers Learn from Karl Marx?]. Trad. Henrique Napoleão Alves. Velho Trapiche, 01 de novembro de 2012 [2004]. 20 p.

(ou clique aqui)

O resumo do texto, nas palavras do próprio Koskenniemi:

O direito internacional e a teoria marxiana emanam ambos do progressismo do século XIX. Apesar de Marx não ter tido interesse algum por direito internacional, diversos aspectos da sua obra são muito relevantes para este. Onde o direito internacional (moderno) se tornou secular e passou a enfocar os Estados e os direitos humanos, a (jovem) teoria marxiana afirmaria que esta secularização não foi longe o bastante. Ao invés disso, o estatismo (statehood) e os direitos individuais aparecem como formas de teologia política. Hoje, o desconstrutivismo leva adiante parte do legado da dialética marxiana. Contudo, a tarefa é ir da crítica doutrinária à prática progressista. Neste sentido, a teoria da hegemonia nos mostra a melhor forma de como isso pode ser feito sem perdermos a ambição da universalidade do Direito.

Obra de Berni - Manifestación (1934)

Acredito ser bastante adequado à ocasião associar a publicação do artigo de Koskenniemi no nosso Velho Trapiche à imagem do belo quadro “Manifestación”, concebido em 1934 pelo artista argentino Antonio Berni (1905-1981), reproduzida acima.

Boa leitura a todos.

H.N.

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