Arquivo do mês: junho 2013

“A flor e a náusea” (poema de Carlos Drummond de Andrade)

Preso à minha classe e a algumas roupas,

Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me’?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas,
alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.

Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas,
consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio,
paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

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Lições da manifestação de sábado, 22/06/2013

A manifestação de sábado, 22/06/2013, em BH, a exemplo de outras ocorridas no país, foi uma manifestação com muitas manifestações dentro dela. São, enfim, muitas as versões possíveis sobre o que ocorreu nas ruas. No meio do mosaico de vozes e reivindicações, uma das peças brilhou muito no meu coração:

 

Todo Petróleo pra Educação

 

Alguns amigos que também que se encantaram pela foto acima e pelo que ela representa (i.e., serviços públicos de qualidade para toda a população) disseram com desânimo, contudo, que a foto retrata somente uma minoria em meio a uma maioria com pautas despolitizadas ou mesmo brutalmente conservadoras, e logo concluíram que não deveriam mais sair às ruas (afinal, ir às ruas seria, para eles, engrossar o caldo do retrocesso político e social).

Eu, um otimista ponderado, considero que, se a foto representa uma minoria, então que construamos uma nova maioria. Não é hora de abandonar as manifestações, mas, pelo contrário, fica mais e mais urgente a tarefa de politizá-las, de disseminar ideias e propostas concretas para um país melhor e mais justo.

A maior faixa que vi na manifestação trazia uma passagem do hino nacional que, se bela, é vazia de sentido político quando descontextualizada: “Verás que o filho teu não foge à luta”. A tarefa de quem teve a chance de ter uma formação social e política mais forte do que a maioria, curiosamente, é a de seguir à risca a palavra de ordem aprioristicamente vazia e de literalmente não fugir à luta; de transformar anseios ainda genéricos em ações específicas.

Neste sentido, um outro momento da manifestação me sensibilizou, em particular: enquanto muitos gritavam o igualmente genérico cântico “ôôôô, o povo acordôôôôô”, um grupo soube puxar as vozes das nuvens para o concreto do dia-a-dia das massas, entoando, a plenos pulmões: “ôôôôôôô, cadê o meu metrôôôôôô?”. E de repente o canto concreto se transformou em maioria, pelo menos durante um momento, e em meio à parcela do mar de gente que tomou a Avenida Antônio Carlos que foi alcançada por ele.

Uma pequena vitória, incompleta, frágil, mas pronta para ser repetida em outras proporções. Não faltam bandeiras, principalmente entre as necessidades humanas por serviços públicos de melhor qualidade. E eu sinceramente acredito que também não faltam pessoas dispostas a levantá-las.

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Um cartaz que vale por mil: auditoria já!

 

Milhões de brasileiros nas ruas exigem mudanças. As manifestações ganham força a cada dia.

Nos diferentes cartazes, entre frases que exigem transporte, saúde e educação de qualidade, são cada vez mais frequentes expressões de revolta contra a corrupção.

Por que a corrupção nos revolta tanto?

Porque é o nosso dinheiro sendo desviado, e não sendo aplicado na saúde, na educação, no transporte, na habitação…

Mas quando a TV só diz pra gente que o Estado é corrupto, quando ela só passa a imagem do político ladrão, ela esconde da gente quais são realmente as maiores pedras no nosso sapato.

“Operação Satiagraha”? “Escândalo do Mensalão”? “Mensalão do DEM”? “Valerioduto tucano”?

Ah, tudo isso aí é cosquinha perto do que o Estado gasta todos os anos com a DÍVIDA PÚBLICA!

Sim, DÍVIDA PÚBLICA.

Já ouviu falar dela? Não?

Como uma imagem vale mais do que mil palavras, aí vai:

 

Orcamento-2012

Fonte: Senado Federal – Sistema SIGA BRASIL
Elaboração: Auditoria Cidadã da Dívida

 

É isto mesmo, amigos: a dívida levou embora 43,98% dos recursos federais em 2012, enquanto a Saúde recebeu apenas 4,17%, a Educação 3,34%, Segurança 0,38%, Transportes 0,7% e Habitação apenas 0,01%.

Só este ano, já foram embora 406 BILHÕES DE REAIS – ou seja, QUASE TRÊS BILHÕES DE REAIS POR DIA!

Ei, mas espere aí: pra onde vai tanto dinheiro?

Segundo o IPEA, a maior parte do dinheiro dos juros da dívida (70%!) vai para um seleto grupo que não corresponde a sequer 1% da população… Um absurdo!

O que podemos e devemos fazer diante disso tudo?

A resposta é: precisamos exigir uma AUDITORIA DA DÍVIDA PÚBLICA!

Auditoria? O que é isso?

Em suma, é fiscalização pra saber o tanto que a gente realmente deve!

Não é calote, é direito, está lá na Constituição, mas precisa sair da Constituição e ir pra realidade, com a força do povo nas ruas.

O Equador, nosso vizinho sul-americano, fez a tal da AUDITORIA, e descobriu que estava pagando 3 vezes mais do que devia. 3 vezes mais!

Com o fim da dívida falsa, o Equador conseguiu respirar um pouco mais aliviado, e sobrou mais dinheiro pra saúde, transporte, educação, segurança…

Os equatorianos conseguiram; nós também vamos conseguir!

Conseguimos algumas vitórias em relação ao transporte, mas os políticos dizem que não é possível reduzir mais o preço das passagens, que terão que cortar gastos da saúde ou da educação…

Mas e se a dívida pública fosse menor?

Será que ainda assim não haveria dinheiro para o transporte, e também para saúde, segurança, educação, habitação…?

Com certeza haveria!

Vamos, amigos, à luta por um Brasil melhor e mais justo!

Estaremos nas ruas, em BH, no Rio, e, quem sabe, em todos os cantos do país! Todos e todas! Nosso cartaz? É este aqui, ó:

Auditoria já!

Belo Horizonte e Rio de Janeiro, Brasil, 23 de junho de 2013

 

Assinam este texto:

Henrique Napoleão Alves, 27, advogado e professor.

Tadzio Peters Coelho, 30, cientista social e professor.

Marina França Santos, 27, advogada e professora.

Gabriel Freitas Maciel Garcia de Carvalho, 28, advogado.

Saiba mais em: http://www.auditoriacidada.org.br/

Contribua: apoie e divulgue esta causa tão justa!

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Sobre o preço do transporte público, direitos e a teimosia eloquente

 

A insatisfação com as políticas públicas de mobilidade urbana, que catalisou a corrente onda de protestos democráticos, agora exige que seja colocado em ampla e aberta discussão o sistema tarifário dos transportes públicos urbanos. O tema, que é rico e complexo, certamente será discutido como nunca. Espera-se da mídia o adequado e democrático tratamento da questão.

E deveria começar pelo ponto mais simples, independentemente da exigência popular de redução da margem de lucro das empresas de transporte coletivo: as recentes desonerações tributárias direcionadas ao setor já tornam, por si mesmas, ilegal e imoral a manutenção das tarifas nos patamares vigentes no início do ano.

Neste ano de 2013, as empresas de transporte coletivo foram duplamente beneficiadas pelo governo federal com medidas de redução de tributos federais: a desoneração da folha de pagamentos, que passou a vigorar a partir de janeiro para o transporte rodoviário e desde junho para o metroviário e ferroviário; e a isenção de PIS e COFINS, resultante de medida provisória válida desde o fim de maio para todos os modais de transporte. Juntas, essas ações implicaram redução de 7,23% da carga tributária incidente sobre o preço das passagens.

Para além das isenções tributárias federais, o transporte metroviário ainda foi beneficiado em janeiro de 2013 com a redução das tarifas de energia elétrica, representando diminuição de 3% nos custos da tarifa dos metrôs, e a compra de novos ônibus continua sendo subvencionada por causa do IPI zero sobre a produção desses veículos.

O que representam então – ou deveriam representar – todas essas reduções de tributos?

É sabido que os lucros de uma empresa são basicamente auferidos com a diferença entre o custo de produção e o preço do produto vendido no mercado, sendo a tributação um dos custos de produção mais relevantes.

Com isso, a diminuição dos tributos possibilita duas ações opostas: ou se reduz o preço da passagem na mesma proporção ou se aumenta os lucros das empresas que exploram o transporte público nas cidades.

Ora, se as tarifas do transporte não se modificaram com o advento das diversas reduções de tributos ao longo deste ano, é óbvio que os valores de que o Estado abriu mão representaram idêntico aumento dos lucros das empresas de transporte coletivo, ao invés de voltarem aos consumidores por meio da diminuição das passagens. Ou seja, o cidadão continuou pagando indiretamente os tributos, o Estado deixou de receber e aplicar esses recursos, e as empresas incrementaram seus lucros.

É justamente para impedir essa apropriação indevida e injusta de recursos oriundos de isenções tributárias que a lei, há muito tempo, já prevê medida específica a se adotar obrigatoriamente para essa hipótese. Tanto a Lei de Licitações, quanto a Lei de Concessões de Serviços Públicos, ao estabelecerem as regras para contratos entre a administração pública e particulares, determinam que a criação, alteração ou extinção de quaisquer tributos ou encargos legais, após o início do contrato, “implicará, quando comprovado seu impacto, a revisão da tarifa, para mais ou para menos, conforme o caso”.

Sendo óbvio e significativo o impacto das alterações tributárias, os governos deveriam (e devem) reajustar a tarifa para menos, já que os encargos das empresas diminuíram. Isto é, longe de se tratar de decisão política, de ceder à pressão do povo, a medida é primariamente um imperativo legal, que independe de qualquer boa vontade do governante de plantão ou sensibilidade social dos empresários envolvidos. Não deve haver discricionariedade.

A defesa de entendimento diverso é a defesa, na verdade, de um enriquecimento indevido e oportunista, que não decorre do mérito empresarial ou do aumento da produtividade por trabalhador.

Quando o Estado deixa de arrecadar tributos para que o preço da passagem fique menor, o transporte fica mais acessível, facilitando o acesso da população mais carente a outros direitos e serviços (lazer, frequentar a escola, ir a um hospital, etc), já que a economia faz com que o usuário do transporte tenha mais renda disponível.

Mas quando o Estado deixa de arrecadar tributos para aumentar os lucros das empresas que exploram o transporte (e a gente que dele precisa), ele atua como um Robin Hood ao contrário: um anti-herói ladrão que, sem dó nem piedade, tira dos pobres para dar aos ricos.

Algumas poucas cidades cumpriram a lei de ofício, antes mesmo da eclosão dos protestos, uma vez que as isenções e desonerações vêm sendo feitas desde janeiro e ocorreram todas antes de junho. Foi o caso de Manaus e de cinco municípios do ABC Paulista. Sequer foi necessária lei específica ou discussão com os empresários: o reajuste foi feito diretamente pelo Poder Executivo e apenas comunicado aos concessionários. No entanto, mesmo tais cidades não repassaram integralmente ao consumidor a redução dos tributos, sendo agora, por outras motivações, compelidos a descontos mais largos.

É curiosa, mas nada surpreendente, a inércia da maioria dos governos após as medidas do governo federal. Apesar da última isenção nacional – referente ao PIS e Cofins – ter sido feita primordialmente com intuito de reduzir o impacto inflacionário de aumentos tarifários maiores em São Paulo e Rio de Janeiro, não tendo sido propriamente uma política de incentivo à mobilidade, a maioria dos governantes apostaram que ninguém reclamaria. O que não era improvável, já que eram pouquíssimas as pessoas que, até ontem, aderiam a raros movimentos contra aumento de passagens. Era, portanto, “quase certo” que ninguém reivindicaria uma redução de tarifa, inédita na história recente.

Os empresários e os governos estaduais e municipais, além de não terem sido pressionados pelo governo federal (à exceção de Rio e São Paulo), contaram com a já histórica inércia dos órgãos de controle e fiscalização nesse campo.

Não se viu iniciativa alguma do Ministério Público ou Defensoria Pública, órgãos com competência legal para propor a ação civil pública, instrumento progressista plenamente adequado ao caso, preenchendo não só uma, mas três hipóteses legais de cabimento: defesa do consumidor; do direito difuso ou coletivo ao transporte de qualidade, um serviço público essencial; e infração à ordem econômica.

Nada fizeram também os Tribunais de Contas, responsáveis pela fiscalização dos contratos administrativos. Tampouco se podia esperar algo das Câmaras e Assembleias Legislativas, que constitucionalmente deveriam fiscalizar os atos do Executivo. A grande mídia não quis, como sempre, cutucar esse vespeiro. E nem sonhavam, sequer no mais agudo dos delírios do inconsciente, com uma revolta popular – o menos provável, até ontem, de todos os incômodos.

Com o povo nas ruas, os governos já começaram a reajustar para baixo as tarifas dos serviços de transporte sob sua responsabilidade; uns mais, outros menos. A diferença proporcional entre as reduções concedidas por cada governante é sintomática, revelando onde são mais fortes os cartéis e maior o grau de comprometimento e conluio entre Estado e concessionárias. Mas que não nos enganem: a redução não foi uma concessão do poder público, uma graça que nos foi dada de cima pra baixo, mas sim uma vitória da força das ruas.

No entanto, do discurso que acompanha os anúncios de redução tarifária se percebe claramente a natureza comum a todas as medidas: resumem-se a, no máximo, repassar ao usuário a integralidade da desoneração tributária. Em outras palavras, nenhuma das reduções de passagens até agora feitas foi fruto de algo mais do que a obrigação legal das empresas e governos: corrigiu-se o abuso que se pretendia perpetuar, mas a margem de lucro do início do ano foi mantida.

É importante que se frise que a redução dos tributos que repercutem no preço das passagens é uma medida camuflada e absolutamente singela. Com sua adoção, a caixa-preta dos lucros das empresas que exploram o transporte público e o próprio modelo de exploração do transporte público pelo mercado permanecem intactos.

E parece que, por enquanto, mesmo com reduções superiores às desonerações, essa margem de lucro permanecerá intocada. São Paulo e Rio, que já tinham considerado a menor carga tributária quando do aumento realizado com atraso, ao revogá-lo anunciaram imediatamente que subsidiarão as empresas com receitas decorrentes do corte de gastos em outras áreas.

Portanto, tudo indica que as empresas não terão suas margens de lucro alteradas unilateralmente. E, segundo alguns, nem poderiam. Sim, seguramente haverá quem defenda que as mesmíssimas leis que obrigam a revisão dos preços na superveniência de alterações tributárias também concedem certas garantias aos contratados pela administração pública, como a inalterabilidade do equilíbrio financeiro do contrato, isto é, da relação entre a remuneração e os encargos do contratado, da equação financeira originalmente fixada no momento da celebração da concessão (três maneiras rebuscadas de dizer “margem de lucro”).

Não obstante essa alegação, a permanência (e mesmo o crescimento) das manifestações após algumas reduções nos preços das passagens demonstra cabalmente que as exigências quanto ao transporte público não se resumem ao cumprimento da lei e o consequente repasse das isenções tributárias aos usuários.

Ainda quanto aos altos preços das passagens, sem falar em qualidade do serviço, e permanecendo vigentes os atuais contratos de concessão, vislumbram-se pelo menos quatro possibilidades de redução tarifária para além das atuais intenções dos governantes: i) desoneração de tributos estaduais e municipais, como o ICMS e ISS; ii) subsídio às empresas; iii) revisão contratual na Justiça; e iv) redução com a concordância das empresas.

Uma quinta alternativa, também conferida pelo Direito à administração pública, mas que já não pressupõe a permanência dos atuais contratos, seria justamente a extinção unilateral do contrato de concessão, antes do prazo, por motivo de interesse público. São necessários, para tanto, lei autorizativa e pagamento prévio de indenização. Nessa situação, o poder público teria a prerrogativa de usar os bens e pessoal das empresas para garantir a continuidade do serviço público de transporte coletivo até nova concessão ou outra medida que assegure o fornecimento desse serviço essencial.

De qualquer maneira, a luta do povo é por um transporte coletivo acessível e de qualidade, capaz de inclusive garantir o acesso a outros direitos sociais, e que não mais comprometa grande parte da renda e do tempo de vida dos brasileiros. Isso transcende tecnicalidades; diz respeito às mais altas aspirações políticas e jurídicas da Constituição Cidadã. Um transporte público ruim e caro impõe sofrimento a todos, pobres e ricos. Num cenário como esse, argumentos de respeito aos contratos e ao lucro pactuado das empresas de transporte se revelam inócuos aos olhos do povo. No passado, também alegaram que a escravidão não deveria ser abolida em respeito aos direitos e ao lucro dos donos de escravos…

Contudo, pelo que se vê Brasil afora, muitos governantes ainda se recusam a cumprir o mínimo, o mais elementar, o que a lei e mesmo o status quo técnico-jurídico obriga e racionalmente exige.

Até quando?

 

Henrique Chaves F. Carvalho, 25, advogado.

Henrique Napoleão Alves, 27, advogado e professor universitário.

Originalmente publicado em: http://olhorua.wordpress.com/2013/06/23/sobre-o-preco-do-transporte-publico-direitos-e-a-teimosia-eloquente/

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Tributos e o transporte público que queremos

Henrique Napoleão Alves

 

“Os tributos são o preço que pagamos para vivermos numa sociedade civilizada”, disse Oliver Wendell Holmes em 1904. Sem tributos, resta inviabilizada a continuidade de instituições que, com todas as suas limitações, garantem pelo menos um mínimo de coesão social. Portanto, arrecadar tributos é coisa muito séria: para que o Estado abra mão de arrecadar, é preciso que tenha boas razões para tanto.

As empresas de transporte coletivo foram duplamente beneficiadas pelo governo federal com medidas de redução de tributos: a isenção de PIS e COFINS e a desoneração da contribuição patronal sobre folha de pagamento. Somadas, as medidas implicaram numa redução de 7,23% da carga tributária.

O que a redução representa?

 

onibus sem catraca

 

Os lucros de uma empresa são, basicamente, auferidos com a diferença entre o custo de produção e o preço do produto vendido no mercado, sendo a tributação um dos custos de produção mais relevantes (Wallerstein, I. European Universalism – the Rhetoric of Power. London: The New Press, 2006, p.55).

Sendo assim, a redução nos tributos representa uma oportunidade real de reduzir o preço da passagem, ou aumentar os lucros das empresas que exploram o transporte público nas cidades.

Conforme dados do próprio governo federal, entre as capitais que aumentaram o preço das passagens de ônibus desde dezembro de 2012 até o presente, o reajuste médio foi de R$ 0,20 – exatamente a redução média possível com as medidas de desoneração federal.

Curiosamente, os mesmos R$ 0,20 do aumento da passagem de São Paulo que funcionaram como estopim para as insurgências populares, que, de forma justa, reclamam um transporte público melhor, e muito mais. O mesmo Estado de São Paulo, aliás, voltou atrás e restaurou o preço anterior ao aumento.

E há margem para reduções ainda maiores. Caso seguissem o exemplo do governo federal, v.g., as capitais que ainda cobram o Imposto Sobre Serviços (ISS) em relação aos serviços de transporte público poderiam aprovar leis para implementar isenções deste tributo.

No caso específico de Belo Horizonte, cidade onde vivo, caso a Prefeitura deixasse de cobrar o ISS que hoje cobra dos serviços de transporte, o preço das passagens poderia ser reduzido em mais 2% – o que, ao lado das medidas do governo federal, significaria uma redução total de 9,23%.

Contudo, no apagar das luzes de 2012, ao invés de reduzir o preço da passagem de R$ 2,65 para R$ 2,40, a Prefeitura de Belo Horizonte aumentou o preço de R$ 2,65 para R$ 2,80. É certo que a mesma Prefeitura estuda enviar uma proposta de lei para isentar o ISS do transporte público; contudo, ao mesmo tempo a Prefeitura afirmou que uma redução do preço das passagens “não está em pauta”, e o prefeito Marcio Lacerda (PSB) decidiu não participar da audiência pública de 19/06/2013, no Senado, para discussão da redução das tarifas do transporte público.

É importante que se diga, todavia, que a redução dos tributos que repercutem no preço das passagens para tornar o transporte mais acessível é uma medida absolutamente singela. Com sua adoção, a caixa-preta dos lucros das empresas que exploram o transporte público e o próprio modelo de exploração do transporte público pelo mercado permanecem, ambos, intactos. Deveriam?

Em outras partes do mundo, o transporte público passou efetivamente da esfera das mercadorias – que só podem ser compradas por quem pode pagar por elas – para a esfera dos direitos, garantidos a todos, independente da classe social. É o que ocorre com o transporte com tarifas subsidiadas e baixas o bastante, quando não zeradas, afastadas por completo.

Mas logo surgirá um grupo de pessoas a dizer que a tarifa-zero (ou o mais próximo disso) é tarefa impossível. Não há problema, nada disso jamais deverá desanimar o cidadão mais atento à história da nossa espécie: contra os pessimistas, sempre eles, demos voltas ao mundo em embarcações de madeira e tecido e corda, abolimos a escravidão, fomos à lua. Seguramente somos capazes de criar e implementar um modelo de transporte coletivo menos vil.

Belo Horizonte, 19 de junho de 2013.

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Comentário rude

Estava relendo hoje “O amor é um cão dos diabos”, livro de poemas do Charles Bukowski, e me deparei com o poema abaixo, “um poema rude”. A repulsa de Bukowski em relação aos poemas nada originais, repetitivos, sem qualquer autoquestionamento, despejados pelos “jovens garotos” e “professores universitários “e “esposas que bebem vinho durante a tarde”, é muito semelhante ao que sinto em relação a um bom quinhão de livros e artigos jurídicos despejados aos montes nos nossos dias.

livros... 2

————————————

um poema rude

eles seguem escrevendo

despejando poemas…

jovens garotos e professores universitários

esposas que bebem vinho durante a tarde

enquanto seus maridos trabalham,

eles seguem escrevendo

os mesmos nomes nas mesmas revistas

todos escrevendo um pouco pior a cada ano,

lançando uma coletânea de poesias

despejando mais poemas

é como um concurso

é um concurso

mas o prêmio é invisível.

eles não escreverão contos ou artigos

ou romances

apenas seguirão

despejando poemas

cada um soando mais e mais como os outros

e menos e menos como eles mesmos,

e alguns dos garotos se cansam e desistem

e as mulheres que bebem vinho durante a tarde

nunca nunca nunca desistem

e novos garotos chegam com novas revistas

e há alguma correspondência entre homens e mulheres

algumas fodas

e tudo é exagerado e estúpido.

quando os poemas são recusados

eles os reescrevem

e mandam para a próxima revista na lista,

e eles fazem leituras

e todas as leituras que conseguem

de graça na maioria das vezes

esperando que alguém finalmente os reconheça

finalmente os aplauda

finalmente os congratule e reconheça o

talento deles

estão todos tão certos de suas genialidades

há tão pouco autoquestionamento,

e a maioria deles vive em North Beach ou Nova York,

e seus rostos são como seus poemas:

iguais,

e conhecem uns aos outros e

se congregam e se odeiam e se admiram e se escolhem e se

descartam

e seguem despejando mais poemas

mais poemas

mais poemas

o concurso dos cretinos:

tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap…

 

(Charles Bukowski)

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