Arquivo do mês: agosto 2013

O contribuinte pobre não pode ser esquecido

 

Por Henrique Napoleão Alves

 

Em 1948, um empresário estadunidense, Dallas Hostetler, cunhou o conceito do “Dia Livre de Impostos”, e, entre 1948 e 1971, calculou as datas anuais em que deveria ser comemorado o Dia de acordo com a carga tributária de cada ano.

Na esteira do Sr. Hostetler e da ideologia que o serviu, em 2007 o Deputado Sandro Mabel, do PR/GO, protocolou na Câmara o Projeto de Lei 819/2007, por meio do qual propôs a instauração do Dia Nacional do Respeito ao Contribuinte, a ser comemorado no dia 25 de maio de cada ano. Segundo o mesmo Deputado Mabel,

A escolha dessa data é emblemática do entendimento de que cada cidadão brasileiro trabalha cerca de 145 dias do ano – de 1° de janeiro até 25 de maio – só para pagar impostos, segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT). Dessa forma, justa é homenagem ao cidadão que suporta o ônus da existência estatal contribuindo com parte de seus recursos.

Após pontuais alterações e apreciação em ambas as Casas Legislativas, o projeto foi convertido em Lei: o Presidente Lula sancionou, no dia 16 de setembro de 2010, a Lei 12.235, instituindo o Dia Nacional do Respeito ao Contribuinte – “data de conscientização cívica a ser celebrada, anualmente, no dia 25 de maio, com o objetivo de mobilizar a sociedade e os poderes públicos para a conscientização e a reflexão sobre a importância do respeito ao contribuinte”, conforme apregoa o seu art. 1º.

Quero aproveitar a oportunidade para dar voz a um contribuinte que quase nunca se faz presente no debate público sobre tributação, e que é o mais desgraçado e injustiçado entre todos eles: o contribuinte pobre, aquele que continuará trabalhando muito tempo depois do dia 25 de maio para pagar tributos.

Conforme dados do IPEA, instituto de pesquisa do próprio poder público, enquanto as famílias de baixíssima renda (zero a dois salários mínimos) suportaram uma carga tributária de 53,9%, as famílias com renda mensal superior a trinta salários mínimos suportaram uma carga de 29% (IPEA. Receita pública: quem paga e como se gasta no BrasilComunicado da presidência n.22, 30 de junho de 2009). E o pior: como essa carga tributária é repassada aos pobres principalmente por meio do preço dos produtos, mesmo os produtos mais básicos como o arroz e o feijão, muitos ignoram sua existência.

Traduzindo as grandezas mencionadas em dias do ano, isso equivale a dizer que as famílias de baixíssima renda gastaram 197 dias para pagar tributos, contra 106 dias gastos pelas famílias mais abastadas. Entre elas estão, portanto, 91 dias de diferença, i.e., mais de três meses.

Elaborei o gráfico abaixo a partir dos dados do IPEA, de modo a facilitar a visualização das disparidades envolvidas:

 

CT em dias trabalhados no ano x renda mensal familiar

(CLIQUE NO GRÁFICO PARA VÊ-LO EM TAMANHO MAIOR)
Fonte: IPEA, 2009 (dados de 2008). Elaboração própria.

 

Por mais louvável que seja a iniciativa de celebração de um Dia Nacional do Contribuinte, a assertiva de que o “brasileiro” trabalha 145 dias do ano para pagar tributos (que fundamenta a escolha da data) acaba por esconder o enorme fosso social que ainda nos caracteriza, omitindo que muitos, exatamente os mais humildes, estão a trabalhar muito mais para dar conta da carga tributária a eles imposta de maneira tão injusta.

Dezesseis de julho. É o 197º dia do ano. É quando os famélicos e os miseráveis terminam de pagar a conta de sua subcidadania. É também um dos símbolos maiores do nosso fracasso enquanto sociedade.

Se o Congresso Nacional se preocupa com a fixação de uma data para “mobilizar a sociedade e os poderes públicos para a conscientização e a reflexão sobre a importância do respeito ao contribuinte”, deveria, mais ainda, criar o Dia Nacional do Contribuinte Pobre, e, a partir dele, promover não só a conscientização, mas mudanças reais e efetivas na estrutura imoral, inaceitável e injustificável do seu sistema tributário atual.

Da próxima vez que alguém te disser que o “brasileiro” trabalha 145 dias para pagar tributos, responda com um sonoro “Alto lá! Isso daí é enganoso! Atrás desse ‘brasileiro médio’ existe um abismo social que divide ricos e pobres, e que impõe aos últimos um sacrifício muito maior para custear a vida em sociedade”.

A reforma tributária que precisamos não é aquela que reduz tributos indiscriminadamente, até porque o Estado precisa de recursos para garantir serviços públicos de qualidade para todos, em especial para os setores mais vulneráveis da nossa comunidade.

A reforma que precisamos é a que desonera os pobres ao mesmo tempo em que faz com que os setores da sociedade com mais condições de contribuir para o fundo público contribuam na medida da sua capacidade! Do contrário, que tipo de República teremos? Que tipo de Democracia? Em 1988, firmamos um compromisso jurídico na Constituição: o de construir uma sociedade livre, justa e solidária. Precisamos levá-lo a sério.

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“O Vosso Tanque, General” (Bertolt Brecht)

Bradley_Manning

* Bradley Manning, soldado estadunidense que deu ao WikiLeaks o vídeo do ataque aéreo em Bagdá de 12 de julho de 2007 que causou o assassinato de doze homens, incluindo os funcionários da Reuters Saeed Chmagh e Namir Noor-Eldeen, e ferimentos graves em duas crianças.

 

O vosso tanque, general,

É um Carro Forte

Derruba uma floresta

Esmaga cem homens,

Mas tem um defeito:

– Precisa de um motorista

 

O vosso bombardeiro, general

É poderoso:

Voa mais depressa que a tempestade

E transporta mais carga que um elefante

Mas tem um defeito:

– Precisa de um piloto.

 

O homem, meu general, é muito útil:

Sabe voar, e sabe matar

Mas tem um defeito:

– Sabe pensar

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Poema “Amarildo”, de Diego Ruas

amarildo

 

Amarildo*

 

E agora, Amarildo?
o Papa voltou,
a noite chegou,
o gigante dormiu,
você sumiu,
onde está, Amarildo?
onde está, você?
Você que é pedreiro
sem paradeiro,
você que faz casas
que ama, pesca?
Onde está, Amarildo?

Está sem documentos
está sem direitos
está sem voz
já não pode trabalhar,
já não pode pescar,
amar já não pode,
a noite passou,
o dia não veio,
você não veio,
o riso não veio,
não veio a verdade,
Cabral não ouviu
a mídia se calou
a PM não viu
cadê, Amarildo?

Cadê Amarildo?
sua força de Boi,
seu tijolo de bronze,
seu barraco pequeno,
sua grande família,
seu pouco salário,
sua pele proibida,
seu bom coração,
sua justiça — cadê?

Com a vara na mão
quer abrir o mar,
mas não existe mar;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Rocinha,
Rocinha não há mais.
Amarildo, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você cantasse
o samba portelense,
se você corresse,
se você fugisse,
se você morresse…
Mas você não morre
você vive, Amarildo!

Unidos no escuro
qual bichos-do-mato,
sem democracia,
sem justiça, de fato,
para se confiar,
sem polícia montada
que fuja a galope,
nós marchamos, Amarildo!
Amarildo, para onde?

 

*Por Diego Ruas, militante do Movimento Honestinas. Baseado no poema “José” de Carlos Drummond de Andrade, em apoio à familia, amigos/as e vizinhas/os de Amarildo. 

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Charles Bukowski (1920-1994): 93 anos de vida

Imagem

 

Hoje, 16 de agosto de 2013, Charles Bukowski (1920-1994) comemora 93 anos de vida.
 
——————
 
um poema para o engraxate (Charles Bukowski)
 
o equilíbrio é preservado pelas lesmas que escalam os
rochedos de Santa Mônica;
a sorte está em descer a Western Avenue
enquanto as garotas numa casa de
massagem gritam para você, “Alô, Doçura!”
o milagre é ter 5 mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos,
e o melhor de tudo isso é que você só é capaz
de amar uma delas.
a bênção é ter uma filha mais delicada
do que você, cuja risada é mais leve
que a sua.
a paz vem de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado em O Seu Apresentador
Preferido, sentindo o sol, sentindo o sólido roncar
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego.
a graça está na capacidade de gostar de rock,
música clássica, jazz…
tudo o que contenha a energia original do
gozo.

e a probabilidade que retorna
é a tristeza profunda
debaixo de você estendida sobre você
entre as paredes de guilhotina
furioso com o som do telefone
ou com os passos de alguém que passa;
mas a outra probabilidade –
a cadência animada que sempre se segue –
faz com que a garota do caixa no
supermercado se pareça com a
Marilyn
com a Jackie antes que levassem seu amante de Harvard
com a garota do ensino médio que sempre
seguíamos até em casa.

lá está a criatura que nos ajuda a acreditar
em alguma coisa além da morte:
alguém num carro que se aproxima numa rua muito estreita,
e ele ou ela se afasta para que possamos
passar, ou se trate do velho lutador Beau Jack
engraxando sapatos
após ter queimado todo seu dinheiro
em festas
mulheres
parasitas
bufando, respirando junto ao couro,
dando um trato com a flanela
os olhos erguidos para dizer:
“mas que diabos, por um momento
tive tudo. isso compensa todo o
resto.”

às vezes sou amargo
mas no geral o sabor tem sido
doce. é apenas que tenho
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz,
“fala que me ama”, e
você não consegue.

se você me vir sorridente
em meu Fusca azul
aproveitando o sinal amarelo
dirigindo firme em direção ao sol
estarei mergulhado nos
braços de uma
vida insana
pensando em trapezistas de circo
em anões com enormes charutos
num inverno na Rússia no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polaca
numa velha garçonete que me traz uma xícara
extra de café com um sorriso
nos lábios.

o melhor de você
me agrada mais do que pode imaginar.
os outros não importam
excetuado o fato de que eles têm dedos e cabeça
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos e pesadelos
e uma estrada a seguir.

a justiça está em toda parte e não descansa
e as metralhadoras e os coldres e
as cercas vão lhe dar prova
disso.

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Pneumoconiose e memória: nas minas de Morro Velho

Morro Velho

Imagem: foto da sede da Mina de Morro Velho, no século XIX. À esquerda está a Casa Grande e na direita a Senzala.

 

Por Tádzio Peters Coelho

 

O Brasil é historicamente um país marcado por fortes contradições. O desenvolvimento do capitalismo brasileiro é um processo que marcadamente gerou grande ônus para a sua população. Caso fosse necessário ressaltar uma única característica da história brasileira para melhor descrever o país, certamente este sociólogo destacaria a predileção por esconder a face mais problemática de sua história, a destruição sistemática e periódica da dignidade de seu povo. Na dicotomia entre a casa grande e a senzala, celebrizada por Giberto Freyre (1989), exalta-se a casa grande e oculta-se a senzala. Num país de contradições tão marcantes, em nome da governabilidade, a elite do país busca caminhos que não tragam a verdade à luz do dia, numa tentativa de manter o processo histórico incólume, intocado, evitando a reflexão e as transformações bruscas que busquem solucionar nossos problemas. As tentativas que vão neste sentido esbarram na forte resistência daqueles que defendem o status quo. No capitalismo tardio brasileiro, a revolução é passiva, as transformações prorrogam o passado e as classes privilegiadas são adoradoras de golpes de Estado e subordinadas ao capital estrangeiro.
Junto a outros colegas, venho filmando e produzindo um documentário a respeito dos mineiros da antiga mina de Morro Velho. Localizada em Nova Lima, Minas Gerais, a mina de Morro Velho – hoje pertencente à mineradora sul-africana Anglo Gold Ashanti – foi durante parte do século XX a mais profunda do mundo e notabilizou-se por ser a mina que mais produziu ouro no Brasil durante esse século. A mina foi desativada em 2003. 
 
morrovelho

O trabalho de exploração do ouro era realizado sem as condições apropriadas. Não havia instrumentos de proteção dos trabalhadores mineiros, como, por exemplo, máscaras que impedissem a inspiração do pó da sílica suspenso pela mina. Dessa forma, dentro dos túneis subterrâneos da mina, muitos de seus trabalhadores adquiriram a pneumoconiose, ou silicose, uma doença irreversível, decorrente da inalação da poeira da sílica. As partículas da sílica instaladas no pulmão endurecem e reduzem progressivamente a capacidade respiratória da vítima, desenvolvendo a tuberculose ou câncer de pulmão.
A memória é resultado de um processo de interação social. Através dela, pensamos no passado subjetivado, o que afeta diretamente nossa percepção do presente. A memória é elemento fundamental para a compreensão de práticas do presente. As construções coletivas do presente guardam memórias de experiências passadas. Sendo assim, a memória é um campo de disputa política. A memória da injustiça constitui importante papel na construção de um regime democrático porque a memória não é apenas individual, mas é construída socialmente. A memória anda lado a lado com a verdade e com a justiça.
O fato é que poucos na região atentam para um problema que atinge em torno de seis mil pessoas. Outros milhares faleceram ao longo desse tempo em decorrência da silicose e todos os dias mais gente falece. Poderíamos esperar que houvesse algum tipo de processo de reparatório, buscando a verdade sobre o acontecido e a produção de memória coletiva. Porém as gerações mais jovens pouco sabem, ou simplesmente desconhecem, o histórico destes trabalhadores, muitas vezes pais e avós destes mesmos jovens. Além da doença em si e da incapacitação para o trabalho, outros males que afligem os ex-mineiros da Morro Velho são o isolamento e a invisibilidade frente à comunidade.
A Anglo Gold Ashanti, proprietária da mina e de seu passivo trabalhista, emperra de todas as formas possíveis o processo de reparação econômica, ou seja, são pouquíssimos ex-trabalhadores que conseguem a indenização. Pra grande maioria dessas pessoas, a morte chega antes de qualquer tipo de indenização*. Em 2002 houve uma espécie de acordo “coletivo” imposto pela mineradora, pelo Sindicato dos Mineiros e pelas autoridades, que indenizou os ex-mineiros com quantias ínfimas que vão R$ 8 mil a R$ 12 mil. Hoje essas indenizações vão de R$ 100 mil chegando até R$ 400 mil.
Existem acusações de enriquecimento ilícito do presidente do Sindicato dos Minerios de Nova Lima** que teria recebido propina de funcionários de “mineradoras”. Ainda, um advogado encarregado de defender as vítimas da silicose sumiu com vários processos sendo banido da OAB em 2006. A principal dificuldade dos ex-trabalhadores é provar que são vítimas da enfermidade. Muitos passam por tratamento da doença e mesmo assim não conseguem comprová-la. Eu mesmo levei a alguns médicos uma tomografia de tórax de um amigo ex-trabalhador da Morro Velho na qual o radiologista encarregado não atesta a pneumoconiose. Todos os médicos que consultei alegaram que a silicose estava evidente na tomografia. Essa denúncia está em minha dissertação de mestrado“Dependência e Mineração no Quadrilátero Ferrífero-Aquífero: o discurso do desenvolvimento minerador e o Projeto Apolo”.
Na sede da Anglo Gold Ashanti em Nova Lima, foram construídas no começo do século XIX uma Casa Grande e uma Senzala, ainda quando a mina era explorada pelo Padre Antônio Pereira de Freitas. A Casa Grande ainda está por lá, virou museu contando a vida dos desbravadores ingleses que vieram a este rincão de minas explorar ouro, trazendo glória e progresso. Já a Senzala foi aterrada, enterrada em nosso esquecimento, afinal, é melhor suprimir tão desconfortável memória.
O silêncio sobre o problema da Morro Velho faz com que a história dos trabalhadores da mina vá caindo aos poucos no esquecimento. Não existem iniciativas de debate público onde o discurso dos mineiros possa ser exposto, ouvido e assimilado pela coletividade. Assim, os mineiros não têm reconhecidos os direitos à memória e à verdade. A falta de visibilidade da luta dos ex-trabalhadores da Mineração Morro Velho dificulta ainda mais a busca pela justiça. Guardadas as devidas proporções, o acontecido na Mina de Morro Velho tem caráter semelhante à experiência da ditadura civil-militar, isso é, ambas fazem parte do enterro da senzala, da tentativa de suprimir o lado vil de nossa história. O esquecimento social é a mais dura das penas impostas aos ex-trabalhadores da Morro Velho. Na contramão do esquecimento, lembro-me da canção “Simples”, de Milton Nascimento e Nelson Ângelo: “o ouro da mina virou veneno”.
 

 

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Ocupações e a humanização da cidade

Dandara* Dandara, outubro de 2011 – pessoas de mãos dadas “abraçam” a comunidade.

A Prefeitura de Belo Horizonte foi ocupada por movimentos de moradia, e pouco se falou sobre isso na chamada “grande” mídia. Há dois dias atrás, divulgamos a carta de razões e reivindicações dos movimentos aqui no blog. Ontem, felizmente, a ocupação terminou com uma grande vitória!

Após vários anos sem diálogo entre a Prefeitura e os movimentos e comunidades (Camilo Torres, Irmã Doroty, Eliana Silva, Vila Cafezal/São Lucas, Zilah Spósito, Rosa Leão e Dandara), o prefeito finalmente retrocedeu e recebeu seus representantes, firmando com eles uma série de compromissos, dentre eles suspender ações judiciais de despejo contra as comunidades nas quais o Município é autor e mudar o zoneamento das áreas onde estão localizadas as ocupações para Áreas Especiais de Interesse Social 2 (Aeis-2)  (áreas destinadas à habitação popular).

Anos atrás, um amigo me convidou para conhecer uma destas comunidades, a Dandara, situada no bairro Céu Azul, na periferia de BH. A comunidade Dandara surgiu quando as famílias pobres da cidade resolveram se organizar e ocupar um grande terreno que servia há décadas ao único propósito da especulação imobiliária: seus antigos proprietários na certa aguardavam a valorização das áreas vizinhas para eventualmente vender o terreno, talvez para transformá-lo num palco de de condomínios ou shopping centers, enquanto milhares de famílias em Belo Horizonte vivem em moradias precárias, ou mesmo na rua… Com isso, o terreno ficou literalmente abandonado por décadas, sem que ali se plantasse sequer um pé de couve, servindo inclusive de refúgio para o varejo da droga e para crimes violentos.
Naquela ocasião, a comunidade ainda dava os seus primeiros passos. Apenas uma pequena parte do grande terreno ocupado já contava com moradias – a maior parte delas ainda barracos, porque apesar de uma decisão judicial favorável à comunidade, a Polícia Militar não permitia a entrada de materiais de construção. Em chão de terra e mato, faltavam condições mínimas de infraestrutura urbana, mas sobrava organização, solidariedade e disposição.
Logo na entrada da comunidade, uma espécie de porteira improvisada, havia um casebre erguido com madeirite e outros materiais, muito simples, e, na frente da “porta”, uma fila com umas dez pessoas, todas visivelmente muito pobres. Depois viria a saber que eram pleiteantes de um lugar na comunidade. Do outro lado da rua, ficava permanentemente estacionada uma viatura da PM, com policiais de pé, lançando olhares de intimidação a todos que entravam e saíam da Dandara (depois pude saber que, infelizmente, os PMs não lançavam apenas olhares ao pessoal…).
Ao chegarmos lá, ficamos à espera do amigo que iria nos receber. Inicialmente, ficamos do lado de fora da ocupação, próximos da viatura. Depois de alguns minutos de timidez e indecisão, decidimos atravessar a rua e aguardar nosso amigo lá dentro mesmo, próximos das pessoas que esperavam o atendimento. 
Nesta mesma fila, uma mulher que aparentava ter uns quarenta anos limpava insistentemente a roupa de um dos filhos que a acompanhava, o menorzinho, que empoeirava-se ao brincar no chão. Não tardou muito e o meu amigo apareceu, nos recebendo com um abraço afetuoso, e logo nos explicou que teria de atender àquelas pessoas antes de dar uma volta com a gente pela ocupação. A comunidade confiava a ele algumas tarefas, dentre elas a de ouvir e cadastrar as pessoas interessadas em um pedaço de chão para reconstruir ali as suas vidas.

Lá dentro, tive a oportunidade de acompanhar as entrevistas. Numa delas, aquela mesma mulher da fila relatou, com emoção mas muita firmeza, que infelizmente havia sido despejada e agora morava na rua com seus quatro filhos. Apesar de enfrentar uma situação tão triste e adversa, aquela mulher não se colocava em momento algum como vítima ou como alguém com uma história mais sofrida do que a das demais, mesmo sabendo que aquela conversa servia como uma espécie de triagem para selecionar as pessoas e famílias em situação mais grave, já que era pouca terra pra tanta gente empobrecida. Ao contrário: para alguém que mora na rua, banhos e roupas limpas são recursos de difícil acesso, de modo que ela deve ter se desdobrado para chegar naquele encontro como estava, com roupas simples mas muito limpas, arco no cabelo e muita coragem no coração (e sempre preocupadíssima com a limpeza das roupas do seu filhinho mais novo). Gestos muito singelos, é verdade, mas que têm um significado profundo: a luta por humanidade, por dignidade, apesar de tudo.
Depois das entrevistas e cadastramentos, fomos caminhar pela ocupação. A situação lá era complicadíssima. Naquele dia, faltou água. Havia luz, improvisada, mas inexistia saneamento. A disposição dos lotes já era organizadíssima, e, como nos informou o nosso amigo, seguia um plano de aproveitamento espacial do terreno feito em solidariedade pelo pessoal da Arquitetura da UFMG. Contudo, as pouquíssimas casas pobres de alvenaria e a maior parte de barracos que preenchiam os lotes ocupados revelavam a precariedade da ocupação. Mas a atmosfera do lugar era outra, era de dignidade em processo, e tais quais as roupas simples daquela mulher da fila e sua preocupação com a limpeza das roupas do seu filhinho, aquelas moradias ainda precárias não eram símbolos de pobreza triste e resignada, mas de luta, de renascimento, de resistência.
Não caminhamos muito até termos os nossos passos interrompidos pelo chamado de outra mulher guerreira, moradora da Dandara. Não sem algum lamento, mas de forma muito grandiosa, ela disse ao meu amigo: “Sabe aquele lote que está na frente da minha casinha, e que tinha sido designado pro meu irmão? Pois é. Olha, não é que o meu irmão não esteja na ‘precisão’, mas eu queria te falar que é pra passar esse lote pra frente, porque já se passaram duas semanas e ele ainda não veio morar aqui… É sinal de que ele conseguiu se virar de outro jeito… Eu fico triste, é meu irmão, mas tem muita gente aí que deve tá precisando mais.”
Quantos são capazes de algo parecido com isso, ainda mais vivendo numa situação tão difícil de pobreza e privações? Quantas pessoas conseguem colocar alguém desconhecido na frente do familiar, por sentir que esse alguém está numa situação mais complicada? 
Eu fiquei muito impressionado com aquilo.

Meu amigo, por sua vez, apenas concordou com ela, se despediu e continuou a caminhada pela ocupação com a gente, como se aquilo fosse a coisa mais comum que se pode acontecer, enquanto eu olhava pra ele com os olhos arregalados e boquiaberto. Depois de alguns passos em silêncio, eu disse a ele: “Cara, você viu que ela está abrindo mão de um lote pro irmão porque sente que há pessoas necessitando mais daquele pedaço de chão?”. Ele olhou pra mim, sorriu com muita tranquilidade, e apenas respondeu: “Ô, meu velho, esse tipo de coisa é muito comum por aqui.” E seguiu a caminhada como se aquilo fosse mesmo rotina na Dandara – e realmente era, tamanha a naturalidade da reação dele à minha surpresa.

No diálogo entre Êutifron e Sócrates, descrito por Platão em “Êutifron (Sobre a piedade)”, o primeiro relata ao segundo que moveu uma ação contra seu próprio pai por homicídio. Sócrates, então, questiona a Êutifron se aquele que foi morto pelo seu pai seria então alguém da família, pois era de se presumir que “por causa de um estranho” Êutifron não processaria o próprio pai. Êutifron respondeu: “É engraçado, Sócrates, você pensar que há alguma diferença entre o morto ser um estranho ou [alguém] da família…” Família é uma coisa bonita; mas mais bonita ainda é a família humana, é ver aquela mulher desconhecer diferenças entre um estranho e o seu próprio irmão, orientando a sua conduta apenas segundo a máxima de justiça – “a cada um, segundo as suas necessidades“.

Estas foram algumas das cenas que vi e vivenciei em poucas horas numa manhã de sábado na comunidade Dandara, anos atrás. De lá pra cá, Dandara cresceu e se consolidou, contra tudo e contra todos, mas especialmente com “tudo para todos” (como diz o lema zapatista: todo para todos y nada para nosotros). É claro que não devemos incorrer no erro da idealização: certamente nem tudo foram flores nesta caminhada… Mas, caramba, imaginem quantas flores não brotaram na Dandara com o decorrer dos anos; quantos gestos de dignidade e solidariedade no cotidiano daquelas pessoas, quantas vidas reconstruídas! E tudo isso porque uma gente de muita bravura decidiu, tempos atrás, transformar um terreno de abandono e violência em espaço de luz, mostrando que uma outra cidade – mais humana, justa e inclusiva – é sempre possível.
Ao relembrar dessas coisas, ao sorrir pela vitória das comunidades em luta na Prefeitura, não posso deixar de pensar, aqui com os meus botões, que mais do que um ato político, apoiar a luta das pessoas humildes por uma vida melhor é coisa muito natural para qualquer um que tenha um coração.
Parabéns às comunidades e movimentos de moradia por mais uma vitória. Que venham muitas outras!

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