Ocupações e a humanização da cidade

Dandara* Dandara, outubro de 2011 – pessoas de mãos dadas “abraçam” a comunidade.

A Prefeitura de Belo Horizonte foi ocupada por movimentos de moradia, e pouco se falou sobre isso na chamada “grande” mídia. Há dois dias atrás, divulgamos a carta de razões e reivindicações dos movimentos aqui no blog. Ontem, felizmente, a ocupação terminou com uma grande vitória!

Após vários anos sem diálogo entre a Prefeitura e os movimentos e comunidades (Camilo Torres, Irmã Doroty, Eliana Silva, Vila Cafezal/São Lucas, Zilah Spósito, Rosa Leão e Dandara), o prefeito finalmente retrocedeu e recebeu seus representantes, firmando com eles uma série de compromissos, dentre eles suspender ações judiciais de despejo contra as comunidades nas quais o Município é autor e mudar o zoneamento das áreas onde estão localizadas as ocupações para Áreas Especiais de Interesse Social 2 (Aeis-2)  (áreas destinadas à habitação popular).

Anos atrás, um amigo me convidou para conhecer uma destas comunidades, a Dandara, situada no bairro Céu Azul, na periferia de BH. A comunidade Dandara surgiu quando as famílias pobres da cidade resolveram se organizar e ocupar um grande terreno que servia há décadas ao único propósito da especulação imobiliária: seus antigos proprietários na certa aguardavam a valorização das áreas vizinhas para eventualmente vender o terreno, talvez para transformá-lo num palco de de condomínios ou shopping centers, enquanto milhares de famílias em Belo Horizonte vivem em moradias precárias, ou mesmo na rua… Com isso, o terreno ficou literalmente abandonado por décadas, sem que ali se plantasse sequer um pé de couve, servindo inclusive de refúgio para o varejo da droga e para crimes violentos.
Naquela ocasião, a comunidade ainda dava os seus primeiros passos. Apenas uma pequena parte do grande terreno ocupado já contava com moradias – a maior parte delas ainda barracos, porque apesar de uma decisão judicial favorável à comunidade, a Polícia Militar não permitia a entrada de materiais de construção. Em chão de terra e mato, faltavam condições mínimas de infraestrutura urbana, mas sobrava organização, solidariedade e disposição.
Logo na entrada da comunidade, uma espécie de porteira improvisada, havia um casebre erguido com madeirite e outros materiais, muito simples, e, na frente da “porta”, uma fila com umas dez pessoas, todas visivelmente muito pobres. Depois viria a saber que eram pleiteantes de um lugar na comunidade. Do outro lado da rua, ficava permanentemente estacionada uma viatura da PM, com policiais de pé, lançando olhares de intimidação a todos que entravam e saíam da Dandara (depois pude saber que, infelizmente, os PMs não lançavam apenas olhares ao pessoal…).
Ao chegarmos lá, ficamos à espera do amigo que iria nos receber. Inicialmente, ficamos do lado de fora da ocupação, próximos da viatura. Depois de alguns minutos de timidez e indecisão, decidimos atravessar a rua e aguardar nosso amigo lá dentro mesmo, próximos das pessoas que esperavam o atendimento. 
Nesta mesma fila, uma mulher que aparentava ter uns quarenta anos limpava insistentemente a roupa de um dos filhos que a acompanhava, o menorzinho, que empoeirava-se ao brincar no chão. Não tardou muito e o meu amigo apareceu, nos recebendo com um abraço afetuoso, e logo nos explicou que teria de atender àquelas pessoas antes de dar uma volta com a gente pela ocupação. A comunidade confiava a ele algumas tarefas, dentre elas a de ouvir e cadastrar as pessoas interessadas em um pedaço de chão para reconstruir ali as suas vidas.

Lá dentro, tive a oportunidade de acompanhar as entrevistas. Numa delas, aquela mesma mulher da fila relatou, com emoção mas muita firmeza, que infelizmente havia sido despejada e agora morava na rua com seus quatro filhos. Apesar de enfrentar uma situação tão triste e adversa, aquela mulher não se colocava em momento algum como vítima ou como alguém com uma história mais sofrida do que a das demais, mesmo sabendo que aquela conversa servia como uma espécie de triagem para selecionar as pessoas e famílias em situação mais grave, já que era pouca terra pra tanta gente empobrecida. Ao contrário: para alguém que mora na rua, banhos e roupas limpas são recursos de difícil acesso, de modo que ela deve ter se desdobrado para chegar naquele encontro como estava, com roupas simples mas muito limpas, arco no cabelo e muita coragem no coração (e sempre preocupadíssima com a limpeza das roupas do seu filhinho mais novo). Gestos muito singelos, é verdade, mas que têm um significado profundo: a luta por humanidade, por dignidade, apesar de tudo.
Depois das entrevistas e cadastramentos, fomos caminhar pela ocupação. A situação lá era complicadíssima. Naquele dia, faltou água. Havia luz, improvisada, mas inexistia saneamento. A disposição dos lotes já era organizadíssima, e, como nos informou o nosso amigo, seguia um plano de aproveitamento espacial do terreno feito em solidariedade pelo pessoal da Arquitetura da UFMG. Contudo, as pouquíssimas casas pobres de alvenaria e a maior parte de barracos que preenchiam os lotes ocupados revelavam a precariedade da ocupação. Mas a atmosfera do lugar era outra, era de dignidade em processo, e tais quais as roupas simples daquela mulher da fila e sua preocupação com a limpeza das roupas do seu filhinho, aquelas moradias ainda precárias não eram símbolos de pobreza triste e resignada, mas de luta, de renascimento, de resistência.
Não caminhamos muito até termos os nossos passos interrompidos pelo chamado de outra mulher guerreira, moradora da Dandara. Não sem algum lamento, mas de forma muito grandiosa, ela disse ao meu amigo: “Sabe aquele lote que está na frente da minha casinha, e que tinha sido designado pro meu irmão? Pois é. Olha, não é que o meu irmão não esteja na ‘precisão’, mas eu queria te falar que é pra passar esse lote pra frente, porque já se passaram duas semanas e ele ainda não veio morar aqui… É sinal de que ele conseguiu se virar de outro jeito… Eu fico triste, é meu irmão, mas tem muita gente aí que deve tá precisando mais.”
Quantos são capazes de algo parecido com isso, ainda mais vivendo numa situação tão difícil de pobreza e privações? Quantas pessoas conseguem colocar alguém desconhecido na frente do familiar, por sentir que esse alguém está numa situação mais complicada? 
Eu fiquei muito impressionado com aquilo.

Meu amigo, por sua vez, apenas concordou com ela, se despediu e continuou a caminhada pela ocupação com a gente, como se aquilo fosse a coisa mais comum que se pode acontecer, enquanto eu olhava pra ele com os olhos arregalados e boquiaberto. Depois de alguns passos em silêncio, eu disse a ele: “Cara, você viu que ela está abrindo mão de um lote pro irmão porque sente que há pessoas necessitando mais daquele pedaço de chão?”. Ele olhou pra mim, sorriu com muita tranquilidade, e apenas respondeu: “Ô, meu velho, esse tipo de coisa é muito comum por aqui.” E seguiu a caminhada como se aquilo fosse mesmo rotina na Dandara – e realmente era, tamanha a naturalidade da reação dele à minha surpresa.

No diálogo entre Êutifron e Sócrates, descrito por Platão em “Êutifron (Sobre a piedade)”, o primeiro relata ao segundo que moveu uma ação contra seu próprio pai por homicídio. Sócrates, então, questiona a Êutifron se aquele que foi morto pelo seu pai seria então alguém da família, pois era de se presumir que “por causa de um estranho” Êutifron não processaria o próprio pai. Êutifron respondeu: “É engraçado, Sócrates, você pensar que há alguma diferença entre o morto ser um estranho ou [alguém] da família…” Família é uma coisa bonita; mas mais bonita ainda é a família humana, é ver aquela mulher desconhecer diferenças entre um estranho e o seu próprio irmão, orientando a sua conduta apenas segundo a máxima de justiça – “a cada um, segundo as suas necessidades“.

Estas foram algumas das cenas que vi e vivenciei em poucas horas numa manhã de sábado na comunidade Dandara, anos atrás. De lá pra cá, Dandara cresceu e se consolidou, contra tudo e contra todos, mas especialmente com “tudo para todos” (como diz o lema zapatista: todo para todos y nada para nosotros). É claro que não devemos incorrer no erro da idealização: certamente nem tudo foram flores nesta caminhada… Mas, caramba, imaginem quantas flores não brotaram na Dandara com o decorrer dos anos; quantos gestos de dignidade e solidariedade no cotidiano daquelas pessoas, quantas vidas reconstruídas! E tudo isso porque uma gente de muita bravura decidiu, tempos atrás, transformar um terreno de abandono e violência em espaço de luz, mostrando que uma outra cidade – mais humana, justa e inclusiva – é sempre possível.
Ao relembrar dessas coisas, ao sorrir pela vitória das comunidades em luta na Prefeitura, não posso deixar de pensar, aqui com os meus botões, que mais do que um ato político, apoiar a luta das pessoas humildes por uma vida melhor é coisa muito natural para qualquer um que tenha um coração.
Parabéns às comunidades e movimentos de moradia por mais uma vitória. Que venham muitas outras!

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