Arquivo do mês: abril 2014

“Estados de Espírito” (Benedetti)

benedetti

ESTADOS DE ESPÍRITO (Mario Benedetti)

“Às vezes me sinto 
como uma águia no ar.” (Pablo Milanés)

Por vezes me sinto
como pobre colina
e outras como montanha
de cumes repetidos.
Umas vezes me sinto
como um precipício
e em outras como um céu
azul, mas distante.
Às vezes se é
manancial entre rochas
e outras vezes uma árvore
com as últimas folhas.
Mas hoje me sinto apenas
como lagoa insone
com um embarcadouro
já sem embarcações
uma lagoa verde
imóvel e paciente
de bem com suas algas
seus musgos e seus peixes,
sereno em minha confiança
confiando que em uma tarde
te aproximes e te olhes,
te olhes ao olhar-me.

Tradução: H.N.A.

ESTADOS DE ÁNIMO (Mario Benedetti)

A veces me siento
como un águila en el aire. -Pablo Milanés

Unas veces me siento
como pobre colina
y otras como montaña
de cumbres repetidas.
Unas veces me siento
como un acantilado
y en otras como un cielo
azul pero lejano.
A veces uno es
manantial entre rocas
y otras veces un árbol
con las últimas hojas.
Pero hoy me siento apenas
como laguna insomne
con un embarcadero
ya sin embarcaciones
una laguna verde
inmóvil y paciente
conforme con sus algas
sus musgos y sus peces,
sereno en mi confianza
confiando en que una tarde
te acerques y te mires,
te mires al mirarme.

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“Estava escrito” (minha homenagem ao juridiquês)

 

Aroeira - Juridiquês

 

Gertrudes sofria agudamente cada vez que lia, num texto (jurídico, claro), a expressão “Neste diapasão”. A coisa era tão grave que todo jurista que ousava jogar o diapasão num pedaço de papel inocente estava, por culpa consciente ou dolo eventual, condenando a leitora Gertrudes a perder anos de vida, que dela saiam em solavancos de suspiros e franzimentos de testa.

Temendo pelo pior, Gertrudes decidiu se afastar das letras jurídicas tanto quanto pôde. Porém, razões de sobrevida logo impediram-na de sair do foro, de onde Gertrudes arrancava, a golpes de datas vênias (incongruente Gertrudes!), o seu estranho ganha-pão.

Não era preciso ser doutor médico para antecipar o que estaria por vir: num dia em que, pela manhã, já havia se desvencilhado de alguns diapasões escritos em peças processuais, não conseguiu a nossa heroína fechar os ouvidos tal como havia aprendido a desviar o olhar.

Pobre alma. Não foram necessários nem cinco minutos de palavrório para que um certo doutor advogado, embonado de abotoadora, ó-á-bê e tudo mais, alternasse, assim mesmo, como nem não quer nada e tudo ao mesmo tempo, algo em torno de sete (sete!) diapasões com mais quatro ou cinco espeques (“Neste espeque” é o decrépito irmão mais novo da Família Monstro), antes de proferir o golpe de morte: “Neste palmilhar, o colendo…”.

Pouco antes da vírgula que sucedeu o palmilhar a desgraça já tinha acontecido. “‘Neste palmilhar’ é demais pra mim!”, seguramente gritou a alma de Gertrudes, durante seu encomendamento sumário. Esvaziada de seu último suspiro, a carcaça de Gertrudes foi ao solo, sem que ela ao menos pudesse ouvir o restante da frase do doutor.

Uma pena; deve ter sido fala importante.

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