Arquivo do mês: junho 2014

Um fato, diferentes leituras, uma conclusão

campanha fim da revista vexatoria

O problema

Sob a justificativa de fiscalizar a entrada de drogas ou armas, o Estado obriga mulheres, homens, gestantes, idosos e crianças a tirar a roupa e a agachar diversas vezes, e seus órgãos genitais são também revistados.

Mais de meio milhão de mães, avós, filhos, pais, avôs, demais parentes e amigos dos centenas de milhares de homens e mulheres presos no país passam por isso todas as semanas. Todas as semanas.

O procedimento, de tão complicado do ponto de vista moral, passou a ser conhecido como revista vexatória.

Você pode se informar melhor sobre o que é a revista vexatória clicando aqui e aqui.

Um projeto de lei está sendo debatido agora no nosso Parlamento, e visa dar fim à revista vexatória em prol de procedimentos minimamente humanos de fiscalização.

A forma como essa iniciativa foi abordada por diferentes meios de comunicação diz muito sobre nossa sociedade.

 

O fato, segundo um site de notícias

 

Leio na “Folha de São Paulo” de 04/06/2014, que o Senado aprovou um projeto de lei que “proíbe revista íntima em presídios do país“.

A maneira como dão a notícia me causa alguma estranheza.

Chamam a revista vexatória de “revista íntima (sem roupas)“.

Insinuam que a lei vem para prejudicar ou mesmo inviabilizar a fiscalização nos presídios. Isso é muito evidente no texto.

A notícia começa, por exemplo, dizendo que “nos casos em que houver necessidade de revista mais detalhada, ninguém poderá ser obrigado a retirar as roupas.”

A voz de quem sofreu e sofre revistas vexatórias não faz parte da reportagem, nem ela se reporta a outros textos ou notícias que supram essa lacuna.

Deixam para o final as menções à razão de ser do projeto de lei, colocadas da seguinte forma:

Relator do projeto, o senador Humberto Costa (PT-PE) disse que o objetivo da matéria é acabar com “situações degradantes” a que são submetidos diariamente visitantes de presos em todo o país.”

Autora do projeto, a senadora Ana Rita (PT-ES) afirmou que a determinação constitucional de preservação das garantias individuais dos cidadãos não é seguida em diversos estabelecimentos penais nos momentos das visitas. “A regra deveria ser a revista pessoal indireta, ou seja, aquela que não tenha contato físico entre o agente público revistador e o revistado, realizada por meio de aparelhos de detectores de metal ou similares. E, somente em casos de fundada suspeita e em casos excepcionais seria permitida a revista direta, manual, superficial, realizada sobre a roupa do revistado”, afirma a senadora.

Termino de ler a notícia e concentro-me no fato de se tratar de uma notícia boa para qualquer um que tenha coração; é o suficiente para que eu volte a ter esperança em dias melhores.

Até que tomo a decisão de ler os comentários que leitores fizeram à notícia:

tinha que ser.petista mesmo, para ter uma ideia absurda destas que vergonha tenho destes imprestáveis

É bem claro, mais um acordo entre governo e os que realmente mandam neste país

Liberou entrada de druegas, celulares, armas, Senado brasileiro, sempre em apoio ao mal e contra o bem. Brasil, o país sem futuro.

É a bandidagem dando as cartas!!!

Agora a filha de José Dirceu não precisará mais ser revistada na Papuda quando visitar o pai mensaleiro e muito menos tirar a roupa. Fora PT e aliados.

Tinha que ser de algum PETISTA essa idéia de girico….a eleição vem ai……..vamos tirar esses sanguessugas do poder……

Está havendo algum tipo de coligação partidária entre as facções PCC e as demais que integram o Congresso Nacional? Não é possível uma coisa dessas…

Esse é o resultado em eleger esses tipos que só defendem quem faz o que não presta.

Senhores Senadores ca\be\ças-de-ba\gre, tenho uma pergunta: e como ficam as visitas femininas em que as mulheres entopem a própria va\gi\na e o â\nus com quilos de co\caí\na? Evidentemente nenhum detector de metais vai detectar. Mais uma pergunta: isso foi exigência dos líderes do PCC? Grato!

Continua a farra entre os marginais e o governo. A violencia cresce. O trabalhador paga a conta. Ainda bem que a eleição vem ai.

nunca leia os comentários

*Tirinha do artista André Dahmer (www.malvados.com.br)

 

Pela forma como a notícia é dada, o teor dos comentários surpreende alguém?

O diabo mora mesmo nos detalhes.

Você pode ler a notícia na íntegra clicando aqui (versão de 05/06/2014, acompanhada dos comentários que constavam da página da FSP nesta mesma data).

 

O mesmo fato, segundo outro site de notícias

 

Em 04/06/2014, a Carta Capital também noticiou o fato, mas de forma muito distinta, e desde o seu início:

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) aprovou nesta quarta-feira 4 o projeto de lei que sugere acabar com as revistas vexatórias realizadas em presídios brasileiros. A proposta estabelece o uso de equipamentos eletrônicos, como detectores de metais e de raio-x, para a revista íntima obrigatória, feita em pessoas que queiram visitar presos. O texto foi aprovado em caráter terminativo e segue para votação na Câmara.

A descrição da razão do projeto é semelhante àquela feita pela Folha, mas está no início, e não no final da reportagem.

Também foi dado maior espaço ao relator do projeto.

De acordo com o relator do projeto, o senador Humberto Costa (PT-PE), atualmente, em muitos presídios do país, há um flagrante desrespeito aos visitantes de pessoas presas. Eles são obrigados, em muitos casos, a se despir, tocar em suas genitálias e efetuar esforços físicos repetitivos para comprovar a inexistência de algum objeto ilegal no corpo. “A revista será realizada com respeito à dignidade humana, sendo vedada qualquer forma de desnudamento, tratamento desumano ou degradante. Se for o caso de uma revista manual, com suspeita de porte de objetos proibidos, deve-se fazê-lo preservando a integridade física, psicológica e moral da pessoa revistada, sem haver desnudamento, total ou parcial”, afirmou o parlamentar.

A notícia menciona ainda a existência de uma campanha nacional contra a revista vexatória.

Ao dar voz a um ativista, o texto se aprofunda também na compreensão do fenômeno, pois é alertado ao leitor o fato da revista vexatória gerar um número ínfimo de apreensões.

Isso denota que a sua finalidade verdadeira não é a fiscalização, mas dificultar o contato dos presos com familiares [e amigos], ampliando sua punição [e diminuindo as chances de reintegração social do preso, poderíamos acrescentar].

A notícia termina, por fim, trazendo um panorama sobre como a revista vexatória está sendo tratada juridicamente nos diferentes Estados do país, e trazendo dados que concorrem para a inexistência de correlação entre revista vexatória e número de apreensões.

Após o término da notícia, o site da Carta Capital indica ainda um texto adicional: “Leia relato de pessoas que já tiveram que passar pela revista em presídios“. O hiperlink direciona o leitor para uma reportagem detalhada sobre a revista vexatória e seus vários problemas.

Termino de ler a notícia.

Penso nas diferenças das abordagens de um veículo de mídia e de outro.

Tomo coragem para ler os comentários…

E me deparo com um único comentário, que reproduzo abaixo:

comentario weslei

Pela forma como a notícia foi dada, o teor do comentário surpreende alguém?

As diferenças de comentário resultam apenas do tipo de leitor que um ou outro site costuma atrair? A forma como noticiam as coisas não induz visões de mundo? A responsabilidade é sempre individual, sempre de cada leitor?

O diabo realmente mora nos detalhes.

Você pode ler a notícia da Carta Capital na íntegra clicando aqui (versão de 05/06/2014, acompanhada do comentário que constava da página da Carta Capital nesta mesma data).

 

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Uncategorized