Arquivo do mês: agosto 2014

Uma tarefa permanente

 

Em 14 de abril de 2013, na sua coluna de domingo no caderno Superesportes do jornal Estado de Minas, Jaeci Carvalho tratou de um tema importantíssimo: o quão pouco nós, brasileiros, valorizamos nossos ídolos, especialmente os ídolos do futebol.

Excelente que Jaeci tenha levantado a questão. Somos, historicamente, o país número 1 do esporte mais amado e praticado no mundo inteiro. Centenas de milhares de pessoas de todas as partes do mundo deveriam nos visitar para conhecer melhor a memória coletiva dessa história de talento e hegemonia; no entanto, nossos museus do futebol são pouquíssimos em número, e, lamentavelmente, também deixam a desejar em qualidade. Além disso, quantos ex-jogadores que contribuíram decisivamente para a glória do país no esporte não são devidamente reconhecidos como os heróis que foram e são?

 

Orlando Peçanha

 

 

 

 

 

 

* Orlando Peçanha de Carvalho, zagueiro da Copa de 1958, não viveu para ver reconhecida sua aposentadoria como atleta campeão do mundo.

 

Neste ponto, Jaeci está certo, certíssimo. No entanto, num determinado momento do texto Jaeci lamentou que Pelé, cuja notoriedade alegadamente o leva até mesmo a entrar em outros países sem passaporte, tenha que abrir sua mala nos desembarques para inspeções da Receita Federal como qualquer outro cidadão, como se isso também fosse um sinal de que o brasileiro não valoriza os seus ídolos. Nas palavras do jornalista:

Pelé falou que somente no Brasil a Receita Federal abria sua mala nos desembarques, enquanto em qualquer outro lugar do mundo ele entrava até sem passaporte. E lamentou que o brasileiro não valorize seus ídolos. Grande verdade. Zico, Reinaldo, Éder, Palhinha, Adílio, Andrade e tantos outros deveriam ser valorizados por tudo o que fizeram por seus clubes. São ídolos eternos e todos ainda têm grande contribuição a dar.” (Jaeci Carvalho. “Coluna do Jaeci”. Superesportes. Estado de Minas, Domingo, 14 de abril de 2013, p.6).

 

pele king of football

 

 

 

 

 

 

 

 

Não podemos confundir a valorização dos nossos ídolos com um lamentável tratamento aristocrático ou antirrepublicano que possa erroneamente ser dado a eles em vida. As justas homenagens que deveriam ser rendidas aos grandes atletas do esporte servem para reconhecê-los como heróis do povo, e não para tratá-los como lordes ou barões, como pessoas acima da lei que a todos rege. Não somos, ou ao menos não deveríamos ser uma sociedade de castas ou estamentos. Somos uma República, e não tenhamos qualquer dúvida ou ilusão: precisamos defendê-la e reconstruí-la diariamente.

 

pele as a student

 

 

 

 

 

 

 

Na mitologia grega, Sísifo desafiou a autoridade e o poder dos deuses, e foi punido com a tarefa eterna de carregar uma pedra pesada montanha acima, até vê-la novamente levada morro abaixo por uma força irresistível. Todos os dias. São muitas as forças que conspiram contra a República, e sempre que nos distraímos, elas conseguem jogar a pedra morro abaixo. Mas não se tratam de forças irresistíveis; e tampouco o trabalho permanente de carregar a pedra morro acima é punição, mas fonte de sentido para nossa existência enquanto comunidade.

É precisamente quando o Rei do Futebol é tratado pelas autoridades de uma alfândega como qualquer outro cidadão que podemos reafirmar as nossas crenças num país menos feudal e mais republicano, numa sociedade menos desigual e mais justa.

Avante, morro acima, porque ainda nos falta um bocado de chão antes de acabar o dia.

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