Arquivo do mês: setembro 2014

Jorge Amado e o araponga

Jorge Amado

A NOTÍCIA

Em agosto de 2001, a Folha de São Paulo divulgou em seu sítio virtual uma reportagem muito interessante, intitulada “Jorge Amado foi o autor mais espionado”. Para justificar o título, alguns fatos são apontados:

– Quando foi viver no Uruguai, Jorge Amado foi seguido por arapongas a serviço do Estado Novo (1937-45).

– As viagens do escritor pelo mundo, em que pregava contra o poder bélico dos EUA e a favor da URSS, foram acompanhadas de ofícios com o carimbo do Ministério das Relações Exteriores, endereçados aos órgãos de repressão política, esmiuçaram seus passos, discursos e companhias.

– Numa viagem a Belo Horizonte, Jorge Amado foi seguido por agentes secretos do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), que descreveram todas as pessoas que recepcionaram o escritor na estação ferroviária, as que conversaram com ele, os drinques servidos num coquetel e o horário em que, de madrugada, uma festa terminou (2h30).
– Sua casa foi invadida por agentes de segurança em várias ocasiões, e, numa delas, policiais levaram preciosidades como o roteiro original do filme “”Estrela da Manhã”, escrito a máquina e autografado com caneta-tinteiro por Jorge Amado, e o cartão que ele recebeu num almoço em sua homenagem no Automóvel Clube do Brasil, no Rio, em 1952, assinado também por figuras como Graciliano Ramos e Cândido Portinari.

– Sua correspondência era por vezes interceptada, e através dela a polícia buscava detectar mudanças nas orientações políticas da cúpula da Internacional Comunista na América Latina (além de monitorar questões pessoais do escritor).

– Somente no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro há documentos sobre Amado que totalizam cerca de 300 páginas, havendo ainda outros dados sobre o escritor em pelo menos uma centena de outros relatórios.

– Aparentemente, outros relatórios não cedidos à Folha contêm relatos “mais apimentados, com acentuada curiosidade sobre a vida privada dos investigados”.

Eu leio essas coisas, e ao invés de ficar impressionado e chateado com a violação da privacidade do escritor, que realmente é muito grave, não consigo deixar de, poeticamente, imaginar uma cena diferente:

A CENA

Após o decurso de algum tempo seguindo os passos de Jorge Amado, um dos arapongas sofreu uma transformação radical, tal qual Baldo ou Bala, passando a considerar o escritor baiano, platonicamente, como um amigo, quem sabe de alguma forma parecida (aunque profanada) com a que Cortázar homenagou Che Guevara no poema “Yo tuve um Hermano”:

Yo tuve un hermano

no nos vimos nunca

pero no importaba.

 

Yo tuve un hermano

que iba por los montes

mientras yo dormía.

 

Lo quise a mi modo

le tomé su voz

libre como el agua.

 

Camine de a ratos

cerca de su sombra

no nos vimos nunca

pero no importaba.

 

Mi hermano despierto

mientras yo dormía.

Mi hermano mostrándome

detrás de la noche

su estrella elegida.

Em bão português:

Tive um irmão.

Não nos vimos nunca

mas não importava.

 

Eu tive um irmão

que andava pelas montanhas

enquanto eu dormia.

 

O amei ao meu modo,

lhe tomei a voz

livre como a água.

 

Caminhei, por vezes, vezes

perto da sua sombra.

Não nos vimos nunca

mas não importava.

 

Meu irmão desperto

enquanto eu dormia.

Meu irmão mostrando-me

por detrás da noite

a sua estrela eleita.

É uma cena real? É, apenas, o fruto de uma imaginação ingênua e contraditória? Algo assim, daquelas coisas que em nada contribuem para o combate das injustiças do mundo?

Eu fico pensando que a cena é real, e vai mais longe: o araponga misterioso viveu inúmeras aventuras como agente duplo a serviço de ideias e sentimentos, e passou os anos sabotando como podia todas as operações militares para proteger o amigo poeta, sem nunca quebrar seu excêntrico pacto de fidelidade, distância e segredo.

E que, no fim da vida, já muito embebido de literatura, ousou abrir apenas uma pequena exceção às rígidas regras que impôs a si mesmo para anonimamente, em algum canto mágico da Bahia, beber uma cerveja com o Amado, e também com Pedro Malazarte, Guma, Antônio Balduíno, Quincas, Pedro Bala e todos os amigos que silenciosamente protegeu com destreza e cuidado, até a saída da próxima balsa no cais escuro.

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