Arquivo do mês: fevereiro 2015

Beba do samba, meu bem!

Paulinho da Viola, Nelson Sargento, Anescarzinho, Jair do Cavaquinho e Elton Medeiros

* Paulinho da Viola, Nelson Sargento, Anescarzinho, Jair do Cavaquinho e Elton Medeiros. Circa anos 1960.

 

Um mestre do verso, de olhar destemido,

disse uma vez, com certa ironia :

‘Se lágrima fosse de pedra,

eu choraria.’

Mas eu, Boca, como sempre perdido,

bêbado de sambas e tantos sonhos,

choro a lágrima comum,

que todos choram,

embora não tenha, nessas horas,

saudade do passado, remorso

ou mágoas menores.

Meu choro, Boca,

dolente, por questão de estilo,

é chula quase raiada,

solo espontâneo e rude

de um samba nunca terminado;

um rio de murmúrios da memória

de meus olhos, e quando aflora

serve, antes de tudo,

para aliviar o peso das palavras,

que ninguém é de pedra.

 

(Paulinho da Viola)

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Estranhamento

LinkedIn - logo

Existe uma rede social para contatos profissionais chamada LinkedIn. Lá, as pessoas podem fazer comentários (elogiosos) umas às outras, que constam nas páginas dos respectivos perfis como “recomendações profissionais”.

Não são poucas as vezes em que, nas recomendações, o fulano diz que a cicrana é pessoa de “fino trato”, ou que a cicrana diz que o beltrano é “amigável”, “dócil”, “colaborativo” ou “companheiro / parceiro”.

Alguns mais ousados já dizem essas coisas de si mesmos ao preencherem seus próprios perfis! “Dócil nas relações com colegas e stakeholders”, “Perfil colaborativo e amigável”, e por aí vai.

Talvez seja um pouco rude de minha parte o estranhamento, admito, mas não consigo deixar de pensar na cômica coincidência: palavras parecidas com estas poderiam ser usadas tranquilamente em anúncios de animais de estimação! Au-au!

P.S. Ei, você aí! Acalme-se, foi apenas um comentário jocoso, não é nada pessoal! Não se leve tão a sério… 🙂

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“O Direito como Magia” – Arthur José Almeida Diniz

Arthur Diniz

“A sociedade que tenta eliminar o que julga ser “sagrado”, “místico”, de sua experiência diária, tenderá fatalmente a dirigir essa experiência inevitável para outros domínios. Sem exagero, podemos dizer que o Direito, em parte, vem ocupando esse espaço. […] Para usarmos o jargão psicanalítico, nossa necessidade de viver a dimensão sagrada da existência é “transferida” para o espaço vizinho, isto é, para o Direito, além de se espalhar por outros campos de atividades: o “caráter “sagrado” dos cantores de rock, seus “shows” (constituem uma verdadeira celebração ritual), as fortunas dos ídolos do futebol, a descrição minuciosa de seus corpos (como a dos antigos ídolos pagãos)…
O fetichismo da lei, o fetichismo dos contratos, a impressionante decoração e o luxo dos modernos tribunais traduzem muito bem essa ‘transferência’.”

– Arthur José Almeida Diniz. O Direito como Magia. Revista Forense. v. 87, n. 313, p.21-31, jan./mar. 1991.

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“O Sangue de Outros” — Gioconda Belli

 

gioconda belli

 

“O Sangue de Outros” — Gioconda Belli

Leio os poemas dos mortos,
eu que estou viva,
eu que vivi para rir e chorar
e gritar “¡Patria Libre o Morir!”
na carroceria de uma caminhonete
no dia em que adentramos em Manágua.
Leio os poemas dos mortos,
observo as formigas na grama,
meus pés descalços,
seu cabelo liso,
costas encurvadas em reuniões.
Leio os poemas dos mortos
e sinto que esse sangue que alimenta o nosso amor
não nos pertence.

“La Sangre de Otros” — Gioconda Belli

Leo los poemas de los muertos
yo que estoy viva
yo que viví para reírme y llorar
y gritar Patria Libre o Morir
sobre un camión
el día que llegamos a Managua.
Leo los poemas de los muertos,
veo las hormigas sobre la grama,
mis pies descalzos,
tu pelo lacio,
espalda encorvada sobre la reunión.
Leo los poemas de los muertos
y siento que esta sangre con que nos amamos,
no nos pertenece.

Tradução: H.N.A.

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