Arquivo do mês: março 2015

A um boleiro bão de cantoria

 

Zé Rico boleiro

 

Cresci ouvindo música sertaneja nas fitas k7, junto do meu pai, a caminho de Santa Luzia ou de Sete Lagoas, ou de lá voltando pra Belzonte. Ali dava de tudo: Pena Branca e Xavantinho, Tonico e Tinoco, Renato Teixeira, Almir Sater, Sérgio Reis, também os “mais recentes” Leandro e Leonardo e Zezé di Camargo e Luciano… E não faltava, claro, as músicas de Milionário e José Rico.

Em Sete Lagoas, no sítio do querido Tio Zeca, também não faltaram os churrascos com família reunida, sinuca, papo pro ar e uma boa música caipira ao vivo (o Tio tinha umas amizades por lá que valiam ouro!). Ali estiveram, de espírito presente, todos esses gênios da música sertaneja. Os que conheciam as canções desse pessoal da pesada de cor e salteado cantavam a plenos pulmões – e os que não conheciam cantavam também. Tudo certo, tudo em casa, dias de festa e despreocupação. E o povo lá em Sete Lagoas cantava era alto, viu! Não era mais ou menos assim, Daniel Gustavo?
Morreu, na semana passada, o José Rico. Há pouco morreu também Inezita Barroso. Dois golpes duros na cultura popular em questão de dias… Ô tristeza. Por dica do meu amigo Tádzio, li o texto fantástico que agora divido com vocês, e que fez com que eu acabasse descobrindo que o cantor sertanejo, além de talento na voz e figura folclórica, era antes de tudo um grande amante do futebol, desse futebol do povo, de tradição e de amor, que me comove e me entristece por estar constantemente ameaçado de virar apenas uma foto na parede. José Rico, um boleiro de luz vermelha: http://ripfutebolclube.com/2015/03/04/ze-rico-o-boleiro-da-luz-vermelha/
Quem não tomar cuidado com o texto indicado acima pode acabar homenageando o morto com alguma moça imaginária, ao som da dupla Milionário e José Rico, em algum bordel do nosso Brasilzão. E eu é que não vou ser jeca de censurar a homenagem da luz vermelha de ninguém! De minha parte, limitei-me a pedir humildemente licença e benção à boa fortuna pra me conceder a chance de fazer um ou dois gols para o grande cantor e boleiro que se foi. Pedi que, de preferência, saíssem os tentos no curso do meu futebol de sábado, na pelada do Santão FC, pequenina associação esportiva feita de amizade e amor pelo esporte, verdadeiramente grande, clube gigante na sua pequenez: sendo nem grão de areia no mundão que é o nosso país, segue o Santão a desafiar o “futebol bancário” com armas de desinteresse, família e simplicidade, com habilidade no trato da bola e com falta de habilidade também, junto e misturado. Tudo certo, tudo em casa, toda pelada é dia de festa, todo peladeiro é artista com seus momentos de herói e vilão, somos trupe da bola. É ou não é, Leonardo Tadeu?
Os gols vieram em dupla, fiquei muito agradecido, e a pelada foi sucedida por uma boa cerveja, bem geladinha, na nossa resenha tradicional. A caixa de música tocou alto umas moda caipira por cortesia do nosso amigo Peixe, e eu logo avistei foi o risco maior de marmanjo, com aquela trilha sonora especial, acabar chorando de dor de corno ou de saudade do que foi vivido – e, às vezes, inté de saudade do que não se pôde viver e do que não se pode viver mais. Essas últimas saudades aí são amargas, e podem pesar mais que touro braford. Ê mundão véio sem porteira que é doído, sô!
Talvez o morto não vá mais tomar consciência do nosso modesto tributo à sua boa memória, nosso mundão tem também as suas estranhezas. De toda sorte, teve bão, teve bão; foi e será sempre bão beber esse punhado de coisa boa aí embaixo, que José Rico e sua música representaram e representam:
o caipira e seu sonho de vida melhor;
o interior, o povo brasileiro, as origens de todas e de todos;
as dores de amor – todas elas, sem exceção! –, e também, por favor, inclua aí as suas muitas delícias;
a vida, seus casos e, sobretudo, seus acasos;
o correr da vida, seus mistérios, seus orgulhos e sombras;
quem sabe, talvez, a lição maior, simples e funda como a boa música sertaneja: rico de verdade, rico mesmo nesta longa estrada, é quem tem a sorte maior de ter bons amigos e pedaço de chão com bola pra rolar à toa… até as vista escurecer.

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