Arquivo do mês: agosto 2015

Resumo: David Deutsch, “Um novo modo de explicar a explicação”

David Deutsch

 

* Resumo da palestra de David Deutsch, “A new way to explain explanation”: https://www.ted.com/talks/david_deutsch_a_new_way_to_explain_explanation (acesso em 08/08/2015)

 

Em cem mil anos de existência, nossos ancestrais já buscavam progredir; seja nas tarefas do dia-a-dia, seja em momentos de contemplação, queriam compreender melhor a realidade e seu funcionamento. No entanto, falharam frequentemente; descobertas como a do fogo aconteceram tão raramente que, desde uma perspectiva individual, o mundo parecia nunca mudar ou melhorar, nada de novo era posto ao aprendizado. Se desde os primórdios olhávamos para o céu e tentávamos compreender o que eram as estrelas, somente em 1899 tivemos a primeira pista sobre a origem da luz estelar, a radioatividade, e nos quarenta anos seguintes a física logrou descobrir toda a explicação do fenômeno, o que envolveu uma série de descobertas: núcleos, reações nucleares, isótopos, partículas elétricas, antimatéria, neutrinos, conversão de massa em energia, raios gama, transmutação. Por que tudo isso foi possível em 40 anos, mas não havia sido em cem mil anos? Por que nossos antepassados não foram capaz de progredir da mesma forma, se tinham cérebros de igual estrutura? Não foi por falta de pensar sobre as estrelas. O marco histórico da mudança de uma humanidade com poucos avanços para progressos enormes no conhecimento e domínio do mundo físico é a Revolução Científica.

A Revolução Científica faz parte de um contexto maior que deve muito ao Iluminismo e sua rejeição dos dogmas e das autoridades, resumida no lema: “Na Palavra de Ninguém” (“Take no one’s word for it.”). Contudo, isso por si só não é suficiente para explicar o progresso científico, pois também em vários outros momentos da história humana autoridades foram contestadas.

O empirismo, ao defender que o conhecimento decorre dos sentidos, apesar de ter contribuído para promover a observação e testagem, incorreu num equívoco, dadas as limitações intrínsecas aos sentidos e o fato de que a ciência “explica o visto pelo não visto”, e o que não pode ser visto não vem a nós pelos sentidos: assim, e.g., ninguém vê reações nucleares em estrelas. Pedras e tentilhões não guardam nenhuma semelhante com a realidade que as torna inteligíveis: a evolução. O que os conecta? Uma “longa cadeia de raciocínio teórico e interpretação”. O conhecimento resulta de um trabalho de formulação (teórica) de conjecturas que não decorrem da observação, apenas são testadas por ela. Nunca é apenas o que percebemos; é sempre carregado de teoria. Porém, tampouco a realização de testes e experimentos é o que justifica o progresso científico, já que ela também está presente nos mitos e em toda sorte de modos irracionais de pensamento.

Um exemplo: a mudança das estações do ano era explicada pelos gregos por meio do mito segundo o qual Hades sequestrou Perséfone e negociou um contrato de casamento que exigia o retorno periódico de Perséfone ao seu reino subterrâneo como condição de sua libertação, e cuja execução subsequente sempre causou periódica tristeza à mãe de Perséfone, Deméter, deusa da terra e da fertilidade – e, consequentemente, o inverno na Terra. O mito é testável: se o inverno é causado pela tristeza de Demeter, então ele deve ocorrer em todas as partes do planeta simultaneamente.

O ponto crucial da Revolução Científica, e que faltou ao pensamento pré-científico, diz respeito nem tanto à rejeição da autoridade ou à elaboração de conjecturas testáveis, mas ao tipo de conjectura ou explicação. As explicações pré-científicas da realidade são explicações ruins, porque de variabilidade fácil, o que significa, em resumo, que podem ser substituídas por outras alternativas compostas por elementos ad hoc. Neste sentido, e.g., é plenamente possível requalificar o mito grego de explicação das estações numa explicação alternativa que não se baseia num contrato de casamento forçado por Hades: Perséfone na verdade não foi liberada por Hades após a celebração de um contrato de execução mágica e inescapável, mas escapou, e decidiu retornar ao reino subterrâneo de Hades durante todas as primaveras para se vingar, levando ao submundo o ar frio primaveril para esfriá-lo e causando, consequentemente, a emersão de ar quente na superfície – e, com isso, o verão.

A variabilidade fácil é o predicado, por excelência, de toda explicação ruim da realidade. Na ciência, duas abordagens prejudicam o progresso: teorias que não podem ser testadas; teorias que não se baseiam em boas explicações. O tipo de conjectura ou explicação tem precedência sobre o fato de a conjectura ser testável ou não, pois a questão do teste só importa de verdade se estivermos diante de uma explicação boa. Sem uma razão para preferir uma explicação em detrimento de suas alternativas, a defesa de (e a preferência por) qualquer uma das explicações disponíveis é, por definição, irracional. A busca por explicações que não exibam variabilidade fácil é “a origem de todo o progresso” e o “princípio básico do Iluminismo”; são essas explicações que constituem o que se deve entender por verdade. A ciência, como dito, explica o que pode ser visto pelo não visto, e o princípio básico apresentado tem como característica ser, ele próprio, não visto, e, ao mesmo tempo, de variação impossível.

 

–  David Deutsch (1953-) é um físico da Universidade de Oxford reconhecido como pioneiro no campo dos computadores quânticos e como proponente da “Interpretação de muitos mundos” da mecânica quântica. É também, desde 2008, um Fellow da tradicional Royal Society of London for Improving Natural Knowledge, a mais antiga sociedade científica em atividade (fundada em 1660).

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized