Arquivo do mês: dezembro 2015

Futebol: aliado da Educação Jurídica?

Gordon France - O roubo da bola

* “Fifty/fifty”, obra (aquarela) de Gordon France

 

Que tal aprender Teoria da Norma Jurídica com o Futebol?

No mês de setembro de 2013, pesquisadores do projeto “Por uma atualização curricular e pedagógica: novas perspectivas para a educação jurídica” (NPEJ) aplicaram um questionário em sala de aula, durante o horário de aula cedido por professores apoiadores do projeto, em turmas dos turnos diurno e noturno dos 3º, 4º, 6º, 8º e 9º períodos (o curso possui 10 períodos) da citada Faculdade de Direito da UFMG. Ao todo, o grupo coletou e analisou questionários de 568 alunos de um universo de 2.161 alunos matriculados (Bueno et al, 2014, p.11).

As respostas indicam a aula expositiva como o método com o qual os estudantes mais aprendem (37,3%), mas entre os alunos que assim se manifestaram, 61,6% admitiram realizar atividades paralelas durante as aulas. Para Fonseca (Bueno et al, 2014, p.40-41), os dados como um todo sugerem que a preferência pela aula expositiva não decorre tanto da sua aptidão como melhor método, mas com o fato de ela dar aos alunos o conforto para realizarem outras atividades enquanto a aula acontece.

Fonseca associa o fenômeno à percepção de que nas aulas expositivas tem-se, normalmente, não tanto a discussão de investigações originais, mas a repetição de conteúdos manualescos. Das respostas, é possível inferir também que a maior parte dos estudantes teve pouco contato com outras técnicas ou métodos de ensino (Bueno et al, 2014, p.40-41), sem mencionar a possibilidade de sua má utilização.

Fui incumbido de lecionar Teoria Geral do Direito nas duas turmas do turno noturno da Faculdade de Direito da UFMG durante o primeiro semestre de 2014. Um dos temas clássicos do Direito é o de saber o que é uma norma jurídica, e como ela se diferencia das outras normas que pautam nosso comportamento. Arrisco dizer que a resposta mais popular nos cursos de Direito do Brasil, até hoje, seja a que foi sistematizada pelo italiano Norberto Bobbio em duas obras publicadas originalmente no final da década de 1950 e no início da década de 1960 – “Teoria da Norma Jurídica” e “Teoria do Ordenamento Jurídico”.

Ambas as obras são adotadas oficialmente pelo Plano de Ensino da disciplina, que integra o rol de disciplinas do 2º período (o curso é dividido em 10 períodos, cada qual correspondendo a um semestre). O Plano é pré-aprovado pelo departamento, e é composto, basicamente, por uma ementa e um programa, além da indicação de bibliografia básica e de bibliografia complementar. Não há indicação de técnicas de ensino.

Na preparação das aulas, preocupei-me, em particular, com a concepção de situações concretas em que os estudantes pudessem aplicar os conceitos de Teoria da Norma Jurídica, porque julgava que isso poderia ser uma ferramenta pedagógica interessante e potencialmente capaz de (i) produzir maior envolvimento dos alunos com a disciplina e (ii) aumentar as chances de aprendizado e memorização.

O conteúdo básico é até relativamente simples; usando o critério da reação ou resposta à violação de uma norma, é possível identificar três tipos principais (Bobbio, 2001, p.154-176):

  • normas morais – regras de conduta que, caso violadas, ensejam apenas uma reação ou resposta íntima, pessoal;
  • normas sociais – caso descumpridas, ensejam uma reação externa imediata, não institucionalizada e nem sempre constante com as reações anteriores em situações semelhantes do passado (por isso, potencialmente desproporcionais, como bem ilustram, e.g., os linchamentos);
  • normas jurídicas – se caracterizam por fazerem parte de um sistema de normas que, na maior parte dos casos, responde às violações das normas por meio de respostas que, a exemplo das normas sociais, são também externas ao indivíduo perpetrador, mas que, diferentemente delas, são respostas ou reações institucionalizadas (por isso, tendentes à proporcionalidade em relação aos casos semelhantes).

Mas como fazê-lo mais atrativo para os estudantes? Como tornar o aprendizado mais efetivo?

Tive um insight de usar um caso real de violação de norma de fair play numa partida de futebol profissional. Percebi que a situação me permitia trafegar por todos os três tipos principais de normas segundo o critério da resposta à violação.

Usar o caso me pareceu particularmente atraente, também, porque um número relevante de estudantes já havia manifestado interesse por futebol em diferentes ocasiões (algo esperado, considerando a proeminência desse esporte na cultura nacional).

Ademais, é razoável conjecturar que, naquelas ou em outras turmas, haja uma presumível minoria que não simpatize com o esporte, o que é ótimo do ponto de vista pedagógico: não gostar também é ter uma ligação afetiva, e, além do mais, também já foi reportado na literatura o papel do desconforto como catalisador de processos de conhecimento (Bueno et al, 2014, p.40; Ribeiro, 1999).

A situação explorada: no final de 2012, no confronto entre as equipes de futebol do Nordsjaelland (Dinamarca) e do Shakhtar Donetsk (Ucrânia) pela Liga dos Campeões da Europa, o jogo foi interrompido para atendimento de um atleta da equipe dinamarquesa. Quando a bola foi alçada ao chão para o recomeço, o meia Willian, do Shakhtar, deu um chutão para frente para devolvê-la ao adversário quando Luiz Adriano, atacante companheiro de clube de Willian, resolveu aproveitar-se da situação, interceptando a bola para em seguida avançar sem marcação, driblar o goleiro e marcar o gol de empate do seu time.

 

luiz adriano

* O atacante Luiz Adriano, logo após marcar o gol polêmico.

 

Nos jogos de futebol, a devolução da posse de bola é considerada um ato de “fair play”, ou “jogo limpo”, extremamente comum. A situação típica é exatamente aquela em que, quando um jogador se machuca, alguém do time adversário chuta a bola para fora a fim de permitir a interrupção da partida e o consequente socorro célere ao atleta rival. Diante disso, espera-se que o time do jogador socorrido devolva a posse de bola ao rival como agradecimento pelo ato. Por vezes, é o próprio juiz que interrompe a partida. Pelas regras do jogo, o recomeço da partida é feito por meio da “bola ao chão”, i.e., o juiz solta a bola onde ela se encontrava no momento da interrupção. Geralmente, a bola jogada ao chão não é motivo de disputa entre os atletas rivais: um dos atletas da equipe que não detinha a posse da bola no momento da interrupção, segundo o espírito esportivo do “fair play”, simplesmente “devolve” a bola ao rival. O ato é tido como justo, porque de alguma maneira restaura o status quo prévio à interrupção, ou se aproxima disso; e é tido como moral e cortês precisamente por ser opcional: naquele momento, o atleta escolhe agir segundo o “espírito esportivo” em detrimento do seu interesse estratégico.

O ato de Luiz Adriano gerou críticas e revolta não apenas entre os jogadores dinamarqueses, como também por parte do seu treinador, da torcida presente e da imprensa mundial (BBC, 2012; Ekstra Bladet, 2012; SporTV, 2012; The New Zeland Herald, 2012; Gazzetta Dello Sport, 2012; The New York Times, 2012; Larsen, 2012).

No ritmo de toda essa repercussão negativa, a Uefa, federação de futebol europeia responsável pelo torneio, decidiu abrir um inquérito disciplinar para apurar se o jogador não teria violado os princípios de conduta previstos no art. 5º do código disciplinar da entidade (UEFA ,2012). Apenas uma semana depois do jogo, Luiz Adriano foi julgado e disciplinarmente punido com a suspensão por uma partida da competição e com a obrigação de prestar serviços comunitários por um dia (Globo, 2012).

Dentre as várias possibilidades de conjecturas a partir do caso, pode-se debater, por exemplo:

I. Se acaso Luiz Adriano sentiu remorso, e qual sua possível eficácia e relação com o fair play como dever moral ou como expectativa social (debatendo, assim, os conceitos e a fronteira entre normas morais e normas sociais).

II. A reação externa dos atletas da equipe adversária, do treinador, da torcida e da imprensa como manifestações de uma normatividade social.

III. A necessidade ou desnecessidade da punição institucionalizada (até que ponto a punição descaracteriza o caráter moral e cortês do fair play?) e como ela se diferencia de um eventual remorso e da documentada reação externa ao ato de Luiz Adriano.

Além da evidente pertinência do caso para o ensino da Teoria da Norma Jurídica de Bobbio, ele também pode ser explorado em outros contextos também caros à formação jurídica, v.g., para debater o agir moral e a distinção entre Moral e Direito em Kant, bem como a distinção entre racionalidade estratégica e racionalidade comunicativa em Habermas.

Apliquei o caso como parte de um exercício avaliativo em duplas após aulas expositivas sobre a Teoria da Norma Jurídica, com discussão em sala, na aula seguinte. Não segui um roteiro bem estabelecido. Preocupei-me em provocar os estudantes a expor argumentos sobre a relação entre o caso e os conceitos da Teoria da Norma Jurídica e a expor também possíveis méritos e falhas da teoria sistematizada por Bobbio.

O caso foi utilizado por mim num caminho dedutivo: dos conceitos teóricos apreendidos anteriormente para sua aplicação numa situação concreta. Contudo, é perfeitamente possível o caminho inverso, i.e., com a apresentação da situação e com a formulação de perguntas para instigar os estudantes a tirarem suas próprias conclusões sobre as características dos diferentes tipos de normatividade envolvidos, permitindo assim o aprendizado dos conceitos (“norma moral”, “norma social”, “norma jurídica” etc.) por indução. A eficácia da via “indutiva” de teorias como técnica pedagógica já foi atestada, e.g., no campo da Engenharia, cujo ensino costuma ser dedutivo a partir de teorias e sua aplicação (cf. Prince; Felder, 2006). No campo jurídico, precisamos de mais estudos. De todo modo, intuitivamente parece ser bastante interessante, em especial no âmbito dos conceitos da Teoria Geral do Direito.

Minha percepção, a partir do comportamento das turmas e de alguns retornos (feedbacks), informais e voluntários, de alguns discentes, foi a de que os objetivos de produzir maior envolvimento dos alunos com a disciplina e aumentar as chances de aprendizado e memorização foram alcançados. É apenas uma impressão. Para o futuro, seria muito importante realizar pesquisas de eficácia das diferentes técnicas de ensino no campo do Direito.

Há, claro, muitas maneiras de se fazer isso. Consigo rascunhar, aqui, um desenho de pesquisa em que um grupo (e.g., uma sala) é exposto a um ensino com determinadas técnicas de pesquisa (grupo experimental), e outro grupo não (grupo de controle), com posterior testagem para dimensionar o aprendizado e memorização de longo prazo em cada um dos grupos testados (e.g., uma avaliação-surpresa meses depois do término da disciplina e comparação entre o grupo experimental e o grupo de controle).

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Referências

BBC. Shakhtar Donetsk striker Luiz Adriano charged after goal. BBC Sport Football, 21 November 2012. Disponível em http://www.bbc.co.uk/sport/0/football/20436292. Acesso em 14 jan. 2013.

BOBBIO, N. Teoria da norma jurídica. Trad. Fernando Pavan Baptista; Ariani Bueno Sudatti. Bauru: EDIPRO, 2001.

__________. Teoria do ordenamento jurídico. Trad. Maria Celeste C. J. Santos. Rev. Técnica Cláudio de Cicco. 6 ed. São Paulo: UnB, 1995.

BUENO, L. A.; CONSTANTE, P. S.; DOMINGUES, L. B.; FONSECA, J. G. H. M.; LEITE, M. V. F. T.; MANSOLDO, M. C. N.; MIRANDA, V. O.; RESENDE, C. S.; ROSA, M. B.; UGARTE, N. I. Novas perspectivas para a educação jurídica. Belo Horizonte: Editora D’Plácido, 2014.

EKSTRA BLADET. Kryber til korset: Nu undskylder Adriano. Ekstra Bladet, 22 Nov. 2012. Disponível em http://ekstrabladet.dk/sport/fodbold/udenlandsk_fodbold/championsleague/article1870081.ece. Acesso em 14 jan. 2013.

GAZZETTA DELLO SPORT. Shakhtar, che cosa combini? Ottavi e gol da scandalo. Gazzetta Dello Sport – Calcio, 20 Novembre 2012. Disponível emhttp://www.gazzetta.it/Calcio_Estero/Primo_Piano/20-11-2012/shakhtar-che-cosa-combini-che-beffa-gol-anti-fair-play-913276889035.shtml. Acesso em 14 jan. 2013.

GLOBO. Luiz Adriano é suspenso por um jogo e desfalca Shakhtar contra Juventus. GloboEsporte.com, 27 de novembro de 2012. Disponível emhttp://globoesporte.globo.com/futebol/liga-dos-campeoes/noticia/2012/11/luiz-adriano-e-suspenso-por-um-jogo-e-desfalca-shakhtar-contra-o-juventus.html. Acesso em 16/01/2013.

LARSEN, J. Football world condemns Shakhtar Donetsk for foulest fair play. Kyiv Post, Nov. 21, 2012. Disponível em http://www.kyivpost.com/content/sport/football-world-condemns-shakhtar-donetsk-for-foulest-fair-play-316468.html. Acesso em 14 jan. 2013.

PRINCE, M. J.; FELDER, R. M. Inductive Teaching And Learning Methods: Definitions, Comparisons, And Research Bases. Journal of Engineering Education, v.95(2), p.123–138, 2006.

RIBEIRO, R. J. Não há pior inimigo do conhecimento que a terra firme. Tempo Social, v.11(1), p.189-195, maio de 1999.

SPORTV. Gol de Luiz Adriano afeta a imagem de todo o Brasil, diz jornalista. Redação Sportv, 21 de Novembro de 2012. Disponível em http://sportv.globo.com/site/programas/redacao-sportv/noticia/2012/11/gol-de-luiz-adriano-afeta-imagem-de-todo-o-brasil-diz-jornalista.html. Acesso em 14 jan. 2013.

THE NEW YORK TIMES. Champions League: Matchday 5(A). The New York Times Soccer Blog, November 20, 2012. Disponível em http://goal.blogs.nytimes.com/2012/11/20/champions-league-matchday-5a/. Acesso em 14 jan. 2013.

THE NEW ZEALAND HERALD. Soccer: Unfair play charge after drop ball goal. The New Zealand Herald, 21 de Novembro de 2012. Disponível emhttp://www.nzherald.co.nz/soccer-football/news/article.cfm?c_id=86&objectid=10849169&ref=rss. Acesso em 14 jan. 2013.

UEFA. Inquérito disciplinar a Luiz Adriano. Uefa – Futebol em Primeiro Lugar, 21 de Novembro de 2012. Disponível em http://pt.uefa.com/uefa/footballfirst/matchorganisation/disciplinary/news/newsid=1895845.html. Acesso em 14 jan. 2013.

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ALVES, Henrique Napoleão. Futebol: aliado da Educação Jurídica? Velho Trapiche, 15 de dezembro de 2015. Disponível em: https://velhotrapiche.wordpress.com/2015/12/15/futebol-aliado-da-educacao-juridica/. Acesso em 28 dez. 2015.

 

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Razão e Ciência (Noam Chomsky) *

 

chomsky 2015

* Noam Chomsky, professor emérito do MIT, Estados Unidos.

 

 

Michael Albert (MA): Bem resumidamente, o que é irracionalidade? E, reciprocamente, o que é racionalidade?

 

Noam Chomsky (NC): Bem, um exemplo perfeito de irracionalidade extrema é o que estávamos a falar agora mesmo. O que Orwell chamou de “duplipensar” [double-think]. A capacidade de ter na mente duas ideias contraditórias ao mesmo tempo e de acreditar em ambas. É o auge da irracionalidade. E é o que praticamente define a comunidade intelectual de elite.

Agora, tomemos exemplos concretos de irracionalidade fundamentalista. Te darei um exemplo real. Na verdade, é um exemplo sobre o qual tomei conhecimento cerca de cinco anos atrás, mas que não divulguei porque soou insano demais pra ser verdade. Atualmente, já foi verificado e comprovado. Em janeiro de 2003, imediatamente após a invasão do Iraque, George Bush buscava arrebanhar apoio internacional para a invasão e se reuniu com o presidente francês [Jacques] Chirac. Nessa reunião com Chirac, Bush começou a endoidecer a respeito de um trecho de Ezequiel, do livro de Ezequiel, um trecho muito obscuro que ninguém entende, sobre Gogue e Magogue. Ninguém sabe se Gogue e Magogue são pessoas ou lugares ou qualquer outra coisa. Mas Gogue e Magogue supostamente virão do Norte para atacar Israel, e daí a coisa desceu para o nível da loucura cristã evangélica ultrafanática. Há toda uma estória grande sobre como Gogue e Magogue descem para atacar Israel, há uma batalha no Armageddon, todo mundo é massacrado, e as almas que são salvas ascendem ao paraíso. Ok, um tipo de estória assim.

Parece que Reagan acreditava nisso. Quando seus domadores não o controlavam o suficiente, quando ele estava mais ou menos por conta própria, logo começava a vociferar sobre coisas assim. Para Reagan, Gogue e Magogue eram a Rússia. Para Bush, Gogue e Magogue eram o Iraque. Então Bush disse isso a Chirac, e Chirac não fazia a menor ideia sobre o que era aquilo que estava sendo dito. Por isso abordou o Ministério de Relações Exteriores francês, o Elysée, e perguntou: “Vocês conhecem o que esse maluco está vociferando?” E nem eles sabiam, foram buscar um conhecido teólogo belga responsável pelo grande trabalho sobre esse trecho, sobre como interpretá-lo, o que quer que ele possa significar, etc.

Ok, como eu sei disso? Bem, eu sei disso porque esse teólogo belga me enviou um texto com toda a história de fundo. E eu nunca divulguei isso porque me parecia fora demais da realidade. Finalmente, [tempos depois] conversei com um acadêmico australiano, pesquisador, mencionei o caso para ele, ele decidiu investigá-lo, e a coisa revelou-se correta. De fato, a história aparece numa das biografias de Chirac e em outras evidências. Então, sim, isso realmente aconteceu. Tivemos o mundo nas mãos de um lunático vociferante que, sabe, diz coisas sobre Gogue e Magogue e Armageddon e almas subindo pro paraíso; e o mundo sobreviveu. Ok, isso, isso não é uma coisa pequena nos Estados Unidos. Não sei ao certo a porcentagem, mas talvez 25, 30% da população [acredita nesse tipo de coisa]. Sim, é irracionalidade das graves.

 

MA: O que é “Ciência”? Quero dizer, por que algo é científico? O que define algo como sendo ciência assentada ou como não ciência, mascaramento, etc.? Já que você vai responder a isso integralmente, como se sente sobre a crítica esquerdista sobre a ciência – esquerdistas que criticam a ciência por ser… você sabe, o que que eles costumam dizer: que é imperialista, ou sexista, ou enraizada em qualquer coisa ocidental etc.?

 

NC: Bem, em qualquer coisa que nós compreendemos – se muito – sobre matéria tão complicada quanto a dos assuntos humanos, as respostas são bem triviais. Se não são verdadeiras, nós podemos entender [por que].

Há uma categoria de intelectuais que são, sem dúvida nenhuma, perfeitamente sinceros… Se você olha de fora, o que eles estão realmente fazendo é usar palavras truncadas e complicadas construções que eles parecem entender, porque conversam entre si… Apesar de, na maior parte do tempo, eu não conseguir entender [nada d]o que eles falam, e olha que são pessoas que supostamente estão na minha área de atuação.

E é tudo muito pomposo, com muito prestígio, e assim por diante. Provoca um efeito terrível no terceiro mundo. No primeiro mundo, nos países ricos, não importa tanto. Então, se um monte de nonsense ocorre nos cafés parisienses ou no Departamento de Literatura Comparada de Yale, bem, ok. Por outro lado, no terceiro mundo os movimentos populares realmente precisam que intelectuais sérios tomem parte. E se eles todos estiverem a promover disparates pós-modernos por aí, bem, estarão perdidos. Vi exemplos reais disso.

Logo, há essa categoria. E é considerada muito de esquerda, muito avançada / progressista, e coisas assim. Na realidade, parte do que surge nela faz sentido, [mas] quando reproduzida em palavras simples / compreensíveis, acaba por ser obviedades / truísmos. Então, sim, é perfeitamente verdadeiro que, se você olhar para os cientistas no Ocidente, eles são em sua maioria homens. E é perfeitamente verdadeiro que mulheres têm enfrentado grandes dificuldades para adentrarem nas áreas de atuação científicas. E é perfeitamente verdadeiro que há fatores institucionais determinando como a ciência procede que refletem estruturas de poder. Tudo isso pode ser descrito – literalmente – em palavras simples / compreensíveis. E acabam sendo truísmos. Ok. De outra parte, você não chega a ser um intelectual respeitado se apresentar truísmos por meio de palavras simples.

Quando a crítica “de esquerda” – eu não a considero de esquerda – quando a chamada crítica “de esquerda” ocorre de estar correta, ok, tudo certo. Se você apontar um monte de coisas como as que mencionei, bem, tudo certo. Você as aponta, todos podem compreendê-lo, é possível ver se [a crítica] é verdadeira, etc. Por outro lado, muito do que é chamado de crítica de esquerda parece não passar de nonsense puro. Na verdade, isso já foi demonstrado conclusivamente. Há uma obra importante de Jean Bricmont e Alan Sokal em que eles apenas examinam os… por acaso eles se concentram em Paris, que é o centro da podridão, mas a coisa está em toda parte… e eles examinam os mais respeitados intelectuais franceses e analisam o que eles dizem sobre ciência e, sabe, é tão constrangedor que por vezes você meio que sente vergonha alheia ao ler. Um dos mais marcantes [entre eles] é um dos poucos que realmente é um cientista e sabe alguma coisa sobre ciência, [Bruno] Latour. Ele tem formação em Ciência e Filosofia da Ciência… Bricmont e Sokal esmiúçam um artigo no qual ele… Alguém na França ou em outro lugar descobriu que um dos faraós morreu de tuberculose, e fez isso por análise de DNA ou algo assim… Latour escreveu um artigo ridicularizando isso como totalmente absurdo porque a tuberculose só foi descoberta no século XIX e tudo é uma construção social…

 

MA: Logo, [a tuberculose] ainda não tinha sido construída, portanto…

 

NC: … portanto, não ocorreu. Sabe, é mais ou menos no nível de Bush e Chirac. Mas esse tipo de coisa é levado muito a sério, e é considerado muito de esquerda.

 

MA: Mas uma coisa a se pensar, suponho eu, é que a descrição dos intelectuais, a descrição dos jornalistas e agora a descrição desse setor ou parte da esquerda… Há algo similar acontecendo aí, mesmo que o preço [para a sociedade] seja bem menor. Você tem esses caras assentados em salas com ar-condicionado bombardeando o mundo em prol de suas carreiras, de seu status, em decorrência das lições que tiveram, e aqui você tem pessoas que estão na crítica literária ou qualquer outra área, e que também estão completamente divorciadas da realidade ou a obscurecendo por razões semelhantes. Claro que o preço é bem menor…

 

NC: O preço, no terceiro mundo, é alto.

 

MA: Tudo bem, mas ainda assim não é como tacar bombas no mundo. Mas é um… é o mesmo fenômeno.

 

NC: Não é tão difícil assim de entender. Quero dizer, são boas pessoas, muitos são meus amigos… Se você olha pro que está acontecendo, eu penso que é bem fácil sacar o que se passa. Suponha que você é um professor letrado em alguma universidade de elite, sabe, um antropólogo, ou algo assim. Se você fizer bem o seu trabalho, tudo certo, mas você não ganhará grandes prêmios por isso. Por outro lado, você dá uma olhada no resto da universidade e aí estão esses caras do Departamento de Física e do Departamento de Matemática, e eles possuem todo o tipo de teorias complicadas que, claro, você não é capaz de entender, mas que aparentemente eles entendem; e eles têm, sabe, princípios, e eles deduzem coisas complicadas desses princípios, e eles fazem experimentos e descobrem o que funciona e o que não funciona, e assim por diante… E é realmente um troço que impressiona. Então você também quer ser como eles, quer ter uma teoria. Nas Letras, nas Humanidades, sabe, Crítica Literária, Antropologia etc. há um campo chamado “Teoria”, que é como os Físicos. “Eles [os Físicos] falam de forma incompreensível, nós falamos de forma incompreensível; eles possuem palavras complicadas, nós também possuímos palavras complicadas; eles alcançam conclusões abrangentes, nós também alcançamos conclusões abrangentes. Somos tão importantes quanto eles.” Agora, se eles disserem “Nós estamos fazendo ciência de verdade, e vocês, não”, isso é coisa de branco, de macho sexista, de burguês, ou qualquer que seja a resposta. “Em que nós somos diferentes deles?”. Ok, e isso tem apelo.

E há outras coisas que ocorreram. Lembre-se que muito disso vem de Paris, e coisas interessantes estavam ocorrendo em Paris nos anos 1970. Os intelectuais franceses foram o último grupo de intelectuais no mundo a ser, esmagadoramente… não digo 100%, sabe, mas era bem padrão e muito respeitado ser… um fervoroso stalinista ou maoísta. Nos anos 1970 isso foi virando uma posição muito difícil de ser defendida. Houve uma mudança súbita. Pessoas que tinham sido ardentes maoístas e stalinistas de repente se tornaram as “primeiras” pessoas no mundo a descobrir o Gulag, e fizeram um alarde enorme sobre como todas as outras pessoas apoiaram as atrocidades stalinistas e maoístas, e nós somos a França, então é lógico que precisamos estar à frente dos demais. Então nós[, intelectuais franceses,] é que expusemos a coisa e agora nós somos… a “nova filosofia”, ou algo do tipo. Recordo-me de ter me reunido – não irei mencionar nomes porque é constrangedor – com uma das figuras principais entre os pensadores culturais franceses, que ocorreu de me visitar por volta de 1974, e ela era uma maoísta fervorosa. Alguns anos depois ela se tornava uma das “primeiras” pessoas a compreender ou descobrir as atrocidades stalinistas e maoístas. Quando você passa por essa transição, tem que encontrar outra coisa pra fazer. De que forma irá se manter sob os holofotes? Ok, daí tem-se a invenção do pós-estruturalismo.

 

* O texto é um trecho de uma série de vídeos em que Michael Albert (MA), co-fundador da “Z Communications”, entrevista o professor Noam Chomsky (NC). A entrevista ocorreu no início de 2010, está disponível em vídeo no Youtube, e ganhou o nome de “The Chomsky Sessions”. Está dividida em cinco partes no total. O trecho ora traduzido é retirado da parte 2, intitulada “Ciência, Religião e Natureza Humana”.

O título do video no canal: “Science, Religion & Human Nature – The Chomsky Sessions – (2) Z Video Productions. February 2010. Interviewer – Michael Albert, co-founder of Z Communications.This is the second session of a 5-part series.” Foi publicado no Youtube em 16 de setembro de 2012. Está disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=f02gcRrdK2I. Acesso em 10 dez. 2015.

Há uma transcrição da entrevista, em inglês, no site da “Z Communications”: https://zcomm.org/zcommentary/the-chomsky-sessions-ii-science-religion-and-human-nature-part-i-by-noam-chomsky/. Acesso em 10 dez. 2015.

 

Tradução: Henrique Napoleão Alves

 

Leia também:

 

– Noam Chomsky, “Pós-Modernismo?

 

– Noam Chomsky, “A verdadeira face da crítica pós-moderna

 

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Melhores do Brasileirão 2015

 

Quem foram os melhores jogadores e a revelação do Brasileirão de 2015? Depende do critério. Vejamos algumas tentativas de escolha. Depois, façamos a nossa.

 

renato augusto

* Renato Augusto, eleito o craque do campeonato pela CBF, pela Revista Placar e pelo Troféu Armando Nogueira.

 

CBF

 

É o prêmio oficial, dado pela própria organizadora do campeonato. A escolha é feita por votação de jornalistas brasileiros, com representantes de todos os estados do país, os capitães e técnicos dos 20 clubes que disputaram a Série A deste ano e os jogadores e integrantes da comissão técnica da Seleção Brasileira (segundo a escalação contra Argentina e Peru pelas Eliminatórias).

 

No Brasileirão desse ano, a premiação ficou assim: Cássio (COR), Marcos Rocha (CAM), Gil (COR), Jemerson (CAM), Douglas Santos (CAM), Elias (COR), Rafael Carioca (CAM), Renato Augusto (COR), Jadson (COR), Luan (GRE), Ricardo Oliveira (SAN). Técnico: Tite (COR). Craque (melhor jogador): Renato Augusto (COR). Artilheiro: Ricardo Oliveira (SAN) – 20 gols. Melhor Estrangeiro: Lucas Pratto (CAM). Troféu Fair Play (time com menos pontos perdidos por faltas, cartões amarelos e expulsões): Corinthians.

 

Revista Placar

 

A Revista Placar, desde 1970, premia os melhores do Brasileirão. Todos os jogos são assistidos por jornalistas da Placar, sempre nos estádios, e atribuem notas de 0 a 10 aos jogadores. Ao final do campeonato, são premiados os jogadores com as melhores médias, por posição (somente os jogadores com mais de dezesseis jogos são levados em consideração). Os escolhidos levam a Bola de Prata. A melhor média de todas leva a Bola de Ouro.

 

No Brasileirão desse ano, a seleção do campeonato ficou assim: Marcelo Grohe (GRE), Galhardo (GRE), Gil (COR), Geromel (GRE), Douglas Santos (CAM), Elias (COR), Rafael Carioca (CAM), Renato Augusto (COR), Jadson (COR), Luan (GRE), Lucas Pratto (CAM). Bola de Ouro (melhor jogador): Renato Augusto (COR). Artilheiro e Chuteira de Ouro: Ricardo Oliveira (SAN) – 20 gols. Revelação: Gabriel Barbosa, o GabiGol (SAN).

 

Diferenças entre Placar e CBF:

– A CBF premia a equipe com menos pontos perdidos por faltas, cartões amarelos e expulsões (Troféu Fair Play), o melhor Técnico e o Melhor Estrangeiro.

– A Placar premia a Revelação do Campeonato.

 

Zico
* Zico, maior vencedor das premiações da Revista Placar, com duas Bolas de Ouro (Melhor do Campeonato) e nove prêmios individuais no total.

 

Troféu Armando Nogueira

 

Troféu Armando Nogueira é um prêmio concedido pela Rede Globo ao melhor jogador de cada temporada do Campeonato Brasileiro de Futebol. A premiação é definida de acordo com notas de 0 a 10, concedidas a cada jogo, por comentaristas da Rede Globo, do SporTV e do GloboEsporte.com e consideradas as médias por partidas disputadas. O jogador deve disputar, no mínimo, 13 partidas.

Com base nas notas, é feito um ranking geral e por posições. Ganham destaque os cinco melhores de cada posição, e os cinco melhores do campeonato.

 

Com base na pontuação e numa escalação de 4-4-2, fiz um time dos onze melhores: Weverton (APR), Patric (CAM), Jemerson (CAM), Geromel (GRE), Douglas Santos (CAM), Gabriel (PAL), Renato Augusto (COR), Jadson (COR), Lucas Lima (SAN), Luan (CAM), Luan (GRE). Ganhador do Prêmio Armando Nogueira (melhor jogador): Renato Augusto (COR).

 

Cartola FC

 

Cartola FC é um jogo fictício no qual as pessoas montam seus times com jogadores de futebol da vida real. A disputa do Cartola FC é realizada utilizando todos os jogadores inscritos oficialmente na Série A do Campeonato Brasileiro e suas escalações em súmula. O objetivo é obter mais pontos que os adversários. O desempenho real dos jogadores do campeonato, a cada rodada, é transformado em pontos no Cartola de acordo com as seguintes regras:

– Roubada de bola: + 1,7 pontos

– Falta cometida: – 0,5 ponto

– Gol contra: – 6,0 pontos

– Cartão amarelo: – 2,0 pontos

– Cartão vermelho: – 5,0 pontos

– Falta sofrida: + 0,5 ponto

– Passe errado: – 0,3 ponto

– Finalização na trave: + 3,5 pontos

– Finalização defendida: + 1,0 ponto

– Finalização para fora: + 0,7 ponto

– Gol: + 8,0 pontos

– Impedimento: – 0,5 ponto

– Pênalti perdido: – 3,5 pontos

– Assistência: + 5,0 pontos

 

Não há verdadeiramente uma premiação dada pelo Cartola a jogadores, mas como o jogo computa dados reais que dão uma dimensão interessante sobre a participação positiva ou negativa de cada jogador nos jogos do Campeonato, pode servir como meio para uma escolha da seleção do campeonato baseada em critérios totalmente objetivos. Claro, futebol não é matemática, e nem sempre os tais “scouts” dizem sobre o quão bom um jogador realmente é. Por isso é importante haver subjetividade na escolha. De todo modo, o Cartola FC dá uma seleção a mais a ser comparada com aquelas em que o critério subjetivo ou intersubjetivo impera.

 

A escolha dos melhores ficou assim (segundo a média de pontos e com um mínimo de 18 jogos disputados): Danilo Fernandes (SPO), Uendel (COR), Rodrigo (VAS), Fred (GOI), Patric (CAM), Otávio (APR), Elias (COR), Felipe Menezes (GOI), Jadson (COR), Nenê (VAS), Henrique Almeida (CTB). Técnico: Tite (COR). Melhor Média (melhor jogador): Nenê (VAS).

 

O fato de algumas escolhas pelos critérios do Cartola FC serem bastante destoantes mostra bem como números são importantes, mas estão bem longe de serem o único ou o principal critério a se considerar. Há também um problema da própria pontuação do Cartola, que dá bastante ênfase a scouts ofensivos, particularmente ao gol, independentemente da posição do atleta (é o que explica, e.g., a dupla de zaga Rodrigo e Fred).

 

Mais interessante é a possibilidade de analisar dados específicos do Cartola para orientar escolhas difíceis entre jogadores que, subjetiva e intersubjetivamente, foram alçados ao grupo dos possíveis melhores. É o que, em alguma ou boa medida, vou fazer em seguida.

 

Antes disso, uma ressalva importante: pode ser que nem todos os jogos do campeonato tenham sido computados pelos dados do Cartola FC, porque algumas partidas específicas, em razão de datas especiais, foram expressamente retiradas do fantasy game. Ainda assim, é uma base de dados digna de consulta e observação atenta.

 

Armando-Nogueira

* O jornalista e cronista esportivo Armando Nogueira (1927-2010), um apaixonado pelo ludopédio.

 

Uma outra seleção do campeonato

 

O campeonato brasileiro tem 380 jogos. É altamente improvável, para se dizer o mínimo, que alguém consiga assistir a todos eles. Por isso, opiniões individuais em relação aos melhores jogadores do campeonato são sempre problemáticas de início, porque baseiam-se numa porcentagem bem menor do total de jogos disputados.

Nem por isso deixo de fazer a minha, levando em conta as minhas impressões e o que de melhor e de pior os critérios acima podem me fornecer.

 

Goleiro

 

O campeonato desse ano teve muitos bons goleiros em campo, e isso se refletiu nos critérios acima: cada um tem o seu próprio goleiro. Cássio para a CBF, Grohe para a Placar, Weverton pro Troféu Armando Nogueira, Danilo Fernandes pro Cartola FC.

 

Cássio teve a vantagem de ser o goleiro da equipe menos vasada, mas isso parece ser mais um mérito de todo o sistema defensivo corintiano do que propriamente dele. Grohe realmente foi bem, assim como Weverton. Mas Danilo Fernandes parece ter mais mérito individual.

 

“Todo grande time começa com um grande goleiro”: o Sport fez belíssima campanha (6ª colocação), tomou poucos gols e… Ambas as coisas estão na conta de Danilo Fernandes, que no scout do Cartola FC fez nada mais, nada menos que 64 defesas difíceis nos jogos que disputou (contra 55 de Weverton, 52 de Cássio e 24 de Grohe).

 

O critério das defesas difíceis é muito interessante para sabermos o quão decisivo individualmente um goleiro foi, e, no quesito, Fernandes só perde para Marcelo Lomba, da Ponte, que fez um campeonato excelente (provavelmente o melhor de sua carreira) e contabilizou incríveis 73 (!) defesas difíceis.

 

Há alguma subjetividade na avaliação dos funcionários do Cartola FC para definir se uma defesa foi ou não difícil. É um conceito que admite interpretação. No entanto, considerando o número elevado de jogos e rodadas, erros de julgamento tendem a se diluir. É, enfim, um padrão valoroso, e só atesta o que qualquer boleiro percebe ao ver algumas partidas do campeonato: Fernandes e Lomba pegaram muito!

 

Fiquei muito na dúvida entre os dois, mas acabei escolhendo o Danilo Fernandes, mas com a menção mais do que honrosa ao Lomba. Estranho que nenhum dos dois tenham sido incluídos na seleção da CBF ou da Revista Placar, mas o ano realmente foi atípico no sentido de termos tido muita qualidade na posição.

 

danilo fernandes

* O goleiro Danilo Fernandes, de verde, em ação, abafando ataque do time de Santos, comandado por Lucas Lima.

 

Lateral-direito

 

O único lateral a figurar em mais de uma das quatro seleções mencionadas (CBF, Placar, Armando Nogueira, Cartola FC) foi Patric. No entanto, apesar de ele realmente ter feito bons jogos, o fato de ter jogado muitas vezes em outra posição e de não ser titular no seu clube o descredenciam a pleitear uma vaga na seleção dos melhores do campeonato.

 

A verdade é que não houve um grande destaque na posição a reclamar unanimidade, ou chegar perto disso. Num cenário assim, fica bem fácil seguir a maré e escolher Marcos Rocha, o melhor da posição nos últimos anos. Mas Rocha não teve uma grande temporada, em parte devido a lesões.

 

Outros se saíram melhor do que ele: Victor Ferraz, do Santos; Galhardo, do Grêmio; Renê, do Sport; Fágner, do Corinthians; e Rodinei, da Ponte. Vejamos os “scouts” relevantes de cada um deles:

 

laterais

Comparativamente, Ferraz teve baixo número de roubadas de bola, o que pode ser explicado pelo seu papel mais ofensivo que defensivo na equipe do Santos. No quesito, destacam-se Renê, Rodinei e, um pouco abaixo, Fágner. Também pela ofensividade, Ferraz foi o líder em assistências, seguido de perto por Renê e Rodinei. A ofensividade de Ferraz manifestou-se mais nos passes do que nas finalizações, o que se espera de um lateral. No quesito finalizações, Ferraz está empatado em último com Renê e Fágner. Galhardo é, de longe, o que mais finalizou. Isso se explica por ser responsável pelas bolas paradas no Grêmio. É também o que fez mais gols, dois; nem tanto a mais que Ferraz e Renê, com um cada. Galhardo é o segundo que mais sofreu faltas, seguido de perto por Renê. No quesito, Rodinei lidera com alguma folga. Galhardo e Renê erraram muitos passes, o que pode ser tanto um sinal ruim, quanto um sinal bom (tentaram muito, presumivelmente estiveram bastante presentes na armação das jogadas). Ferraz e Fágner foram os que menos erraram passes, mas são também os que menos jogaram; Rodinei também não vai mal no quesito, especialmente porque jogou mais jogos que Ferraz e Fágner. Em termos de faltas cometidas, Ferraz é o destaque positivo, o que também pode ser compreendido pelo fato de defender menos. Faz menos faltas, mas também rouba menos bolas. Renê, apesar de ser o mais eficiente nas roubadas de bola, é também o que mais tomou cartões amarelos. Uma relação mais balanceada é a de Rodinei, com altíssimo número de roubadas de bola, muitas faltas cometidas mas menos cartões amarelos (apesar de uma expulsão).

Tentando ponderar impressões subjetivas e números, fico com Rodinei, da Ponte Preta. É o que mais jogos disputou, um dos que mais roubou bolas, um dos que mais deu assistências, o segundo que mais finalizou, o que mais sofreu faltas e apenas o terceiro dentre os cinco em termos de passes errados.

 

Zagueiros

 

Levando em conta as seleções da CBF, da Placar e do Troféu Armando Nogueira, os mais frequentes foram Gil, Jemerson e Geromel, cada um com duas menções. Os dois zagueiros com melhor média no Cartola FC, considerado o recorte de mínimo de jogos disputados, foram Rodrigo e Fred, mas, como dito, aí constam especialmente por fazerem gols. Pra mim, zagueiro tem que “zagueirar”. Se também for capaz de fazer gols, melhor ainda, mas sua função principal é defender. Pelo que pude ver do campeonato, Gil, Jemerson e Geromel estiveram acima de Rodrigo e Fred em termos de marcação. Rodrigo, em particular, é muito forte, fez bom campeonato, mas é muito lento e não se pode olvidar que integrou uma das defesas mais vasadas do campeonato, cujo desempenho ruim explica em boa medida o descenso vascaíno para a Série B. O Vasco teve a segunda pior defesa, e também o segundo pior ataque do campeonato.

 

zagueiros

Em termos de estatísticas disponíveis no Cartola FC, selecionamos as positivas roubadas de bola e faltas sofridas, e as negativas passes errados, faltas cometidas, cartões amarelos e cartões vermelhos. Em termos de cartões, praticamente um empate entre Jemerson, Gil e Geromel. Jemerson tem apenas um amarelo a mais, e, apesar de ser o que mais cometeu faltas entre os três, é também o líder disparado em roubadas de bola. Isso sugere que Jemerson fez muitas faltas de experiência, que não rendem cartões. O trade-off de ter cometido mais faltas sem ter uma quantidade relevante de cartões a mais e com um número muito maior de roubadas de bola coloca Jemerson a frente dos outros dois.

Ao fim e ao cabo, Geromel tem números melhores, e o Grêmio fez grande campanha, terminando o campeonato em terceiro. Mas há algo que os números do Cartola não mostram, e que é muito importante para zagueiros: entrosamento. Como medir isso? O número de gols que cada equipe toma pode ter relação com o nível de entrosamento da defesa. O Corinthians tomou 31 gols em todo o campeonato, e o Grêmio, 32. Empate técnico. Já a defesa do Atlético tomou bem mais gols, especialmente na reta final do torneio.

Os três são meus finalistas pelo grande destaque individual de Jemerson e pelo destaque individual e coletivo de Gil e Geromel. Entre os dois últimos, a escolha fácil seria a de Gil: zagueiro do time campeão, em grande fase, badalado, convocado pra seleção… Mas os números de Geromel são excelentes. Escolha difícil. Fico com Jemerson pelas roubadas de bola responsáveis, e Gil por ter errado menos passes na comparação com Geromel. Como disse, escolha difícil, ainda mais que o passe errado pode ter sido computado tanto em erro que dá ataque ao adversário quanto em “bico pro mato que é jogo de campeonato” (esse último me agrada muito, zagueiro tem que zagueirar!). Menção honrosa ao zagueiro do Grêmio, que esquentará o banco da nossa seleção do campeonato.

 

Lateral-esquerdo

 

Na posição de lateral-esquerdo, unanimidade nas seleções da CBF, da Placar e do Troféu Armando Nogueira: Douglas Santos. Trouxe equilíbrio defensivo e algum apoio para o vice-campeão, e boa opção para a comissão técnica da nossa Seleção Brasileira olímpica.

Uendel teve melhor média no Cartola FC, merece menção honrosa, mas Douglas Santos foi titular absoluto e mais presente, tendo disputado 29 jogos (contra 18 de Uendel) (dados do Cartola FC). Além do mais, é possível que outros jogadores, não mencionados nas seleções citadas e menos badalados por não fazerem parte do time campeão, tenham se saído melhor que Uendel. Pode ser o caso de Zeca, do Santos; de Marcelo Oliveira, capitão do Grêmio; e do eterno Zé Roberto, do Palmeiras (mas, ressalva seja feita, o veterano acabou atuando bastante em outras funções do campo, embora tenha sido aproveitado na sua posição de origem).

 

Ficamos com Douglas Santos por não vermos boas razões de discordarmos da unanimidade mencionada.

A título de comparação, as únicas outras unanimidades foram Renato Augusto e Jadson, os dois grandes craques do campeonato (ao lado do veterano matador Ricardo Oliveira). “Nem toda unanimidade é burra”: Santos, Renato Augusto e Jadson realmente tiveram desempenho diferenciado nas respectivas funções.

Extremamente regular e equilibrado na defesa e no ataque, Douglas Santos também é o dono da camisa 6 na nossa seleção dos melhores do Brasileirão.

 

Volantes e meias

 

De início já digo que minha seleção ficou com o mesmo meio-campo das seleções da CBF e da Revista Placar: Rafael Carioca, Elias, Renato Augusto e Jadson.

 

Rafael Carioca terminou o campeonato com média de acerto de passes superior a 95%. É um dado impressionante que confirma impressões subjetivas. Fez um grande torneio, errou muito pouco e deu segurança na defesa e no início das jogadas do Atlético. Por ser adepto de um jogo mais jogado, escolho ele em detrimento do excelente Otávio, que defensivamente foi, de longe, o melhor volante do campeonato, com abismáveis 96 roubadas de bola. No mesmo quesito, também se saíram muito bem Fernando Bob, da Ponte, e Patrick, do Goiás.

 

Elias, Renato Augusto e Jadson formaram a espinha dorsal do time campeão. Jogaram muito, muito mesmo. Lembraram os melhores momentos do nosso futebol. Aplicação tática, movimentação, triangulações, intensas trocas de passe… Deu gosto de ver.

 

O Troféu Armando Nogueira coloca Gabriel como volante ao lado de Renato Augusto, e Jadson com Lucas Lima na armação. Apesar de ter ido bem, não acho que Gabriel mereça um posto no time, e nem posição de reserva imediato. Otávio, do Atlético Paranaense, é mais merecedor.

 

Lucas Lima é um problema à parte em termos de escolha, porque foi um dos grandes responsáveis pelos shows dados pelo time da Vila Belmiro e pela chuva de gols promovida por Ricardo Oliveira e Gabriel Barbosa, o GabiGol. Acabei deixando-o de fora por priorizar o equilíbrio, entrosamento e força coletiva para defender e para atacar do trio Elias – Renato Augusto – Jadson. De mais a mais, Renato Augusto foi o craque do campeonato para a CBF, para a Placar e para o Troféu Armando Nogueira, e Jadson foi o meia que mais fez gols e deu assistências no campeonato, e disparado. Na comparação, em números do Cartola FC, o meia corinthiano fez 13 gols e deu 12 assistências, contra 6 assistências e 4 gols de Lucas Lima.

 

Vale também mencionar o bom futebol de Diego Souza no time do Sport, equipe que, mesmo com orçamento bem menor do que os grandes do Sudeste, fez bonito e terminou o campeonato em 6º lugar. Diego Souza terminou o campeonato valorizado, tendo contribuído com a criação de muitas jogadas para gol, além de ter anotado 9 bolas na rede.  Vale o registro.

 

Resumo da ópera, em termos de volantes e meias a nossa escolha foi: Rafael Carioca, Elias, Renato Augusto e Jadson no time titular; menções honrosas para Otávio e Lucas Lima.

 

Ricardo Oliveira

* O atacante Ricardo Oliveira, do Santos, artilheiro isoladíssimo do Campeonato Brasileiro com 20 gols.

 

Atacantes

 

O campeonato tem um artilheiro: Ricardo Oliveira, com 20 gols. O vice-artilheiro, Vagner Love, fez 14 gols.

O escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015) dizia que o futebol é a única religião sem ateus, dizia que “O gol é o orgasmo do futebol”.

“Gol, o grande momento do futebol”: qualquer seleção que não inclua Ricardo Oliveira está errada.

Simples assim.

 

Escalado o camisa 9, quem será seu companheiro?

 

Pelo Cartola FC, o ataque é formado por Nenê, do Vasco, e Henrique Almeida, do Coritiba. Ricardo Oliveira nem entra.

 

Henrique Almeida parece estar finalmente reencontrando o futebol que encantou o mundo no seu período de formação: ganhou a Chuteira de Ouro pela artilharia, e a Bola de Ouro por ser o craque da Copa do Mundo Sub-20 de 2011, além de ter sido campeão com o Brasil. A mesma Seleção Brasileira de base tinha Dudu, do Palmeiras, e Philippe Coutinho, hoje no Liverpool, dentre outros. Henrique fez 12 gols no campeonato.

 

Meia-atacante, Nenê chegou ao Vasco quando a barca estava quase afundada e fez 9 gols, a maioria em cobranças de pênalti. Desempenhou grande papel, mas não mostrou futebol suficiente para entrar na seleção do campeonato.

 

CBF e Placar votaram em Luan, do Grêmio, como um dos atacantes da seleção. O Troféu Armando Nogueira também elegeu Luan, do Grêmio, para o ataque, ao lado do seu xará do Atlético (que realmente fez bom campeonato, mas não a ponto de merecer lugar na seleção dos melhores do torneio, muito menos para tirar o posto do artilheiro Ricardo Oliveira). Luan fez 10 gols e deu 7 assistências.

 

Dudu, do Palmeiras, fez os mesmos 10 gols e deu as mesmas 7 assistências, mas foi bem menos badalado que Luan ao longo do campeonato. Só nos últimos dias, após fazer dois gols na final da Copa do Brasil em que seu clube sagrou-se campeão, é que Dudu passou a ser mais comentado pela imprensa. Dudu é grande jogador, rápido, pode atuar pelas pontas, e daria bom companheiro de ataque para Ricardo Oliveira. Luan também pode fazer bem a função de segundo atacante. Gabriel Barbosa, o GabiGol, também fez 10 gols no campeonato, tendo dado 4 assistências (números também do Cartola FC).

 

Apesar de ser um “camisa 9” que gosta de se movimentar fora da área, Vágner Love fez muitos gols, mas deu pouquíssimas assistências. Lucas Pratto, do Atlético, foi escolhido para a seleção do campeonato da Revista Placar e eleito o “Melhor Estrangeiro” pela premiação oficial da CBF. Marcou 13 gols e também deu poucas assistências. É um centroavante de ofício que também sabe se movimentar, muito perigoso e com bom porte físico. Mesmo número de gols fez André, atacante que pertence ao Atlético-MG mas esteve emprestado ao Sport, e que também foi um destaque positivo da competição.

 

Entre os mencionados, minha escolha de companheiro do inquestionável Ricardo Oliveira se reduz a dois nomes principais: Dudu ou Luan?

 

Os dois são muito bons. Dudu e Luan empatam em efetividade no campeonato, medida por gols e assistências. Dudu é um pouco mais experiente, mais pronto. Luan é uma das figuras importantes do excelente time do Grêmio, terceiro colocado no campeonato. Dudu tem mais problemas de disciplina que Luan. O Grêmio é mais time Entre um e outro, fica fácil escolher Luan pra “fazer média” com o Grêmio, entendendo que a campanha feita pelo time gaúcho precisa ser refletida na seleção do campeonato. Mas fazer média não é argumento.

 

Fico com Luan porque apesar do empate em gols e assistências, ele conseguiu ser um pouco mais participativo e melhor que Dudu, e os números também mostram isso: sofreu bem mais faltas, errou menos passes e finalizou bem mais vezes.

 

 

A SELEÇÃO DO BRASILEIRÃO 2015

 

Com isso, minha seleção ficou assim: Danilo Fernandes (SPO), Rodinei (PON), Gil (COR), Jemerson (CAM), Douglas Santos (CAM), Rafael Carioca (CAM), Elias (COR), Renato Augusto (COR), Jadson (COR), Luan (GRE), Ricardo Oliveira (SAN).

 

Craque do campeonato: Renato Augusto (COR). Maestro, marcador, cadenciador e criador de jogadas do time campeão. Menção honrosa ao artilheiro do campeonato, Ricardo Oliveira, e ao também corinthiano (e também eficientíssimo) Jadson. De fato, ninguém poderia alegar que se tratou de injustiça caso Jadson tivesse sido eleito como craque do campeonato pelas premiações mais badaladas.

 

Técnico: Tite (COR). Campeão com sobras, soube remontar uma equipe que perdeu peças importantes. Menção honrosa para o novato Roger, do Grêmio, e para o técnico vice-campeão, Levir Culpi.

 

E que tal uma seleção reserva? Aí vai: Marcelo Lomba (PON), Renê (SPO), Geromel (GRE), Felipe (COR), Zeca (SAN), Otávio (APR), Rodrigo Dourado (INT), Lucas Lima (SAN), Luan (CAM), Lucas Pratto (CAM), Dudu (PAL). Técnico: Roger (GRE) (sim, Roger; entendo que o desafio dele foi maior do que o de Levir Culpi, embora ambos tenham se saído extremamente bem na temporada).

 

Por fim:

Revelação: Luan (GRE). Menção honrosa para Gabriel Barbosa (SAN). Ambos jogam por suas equipes com frequência desde 2014. Luan tem 22 anos, GabiGol tem 19. Sigo o limite de idade da Premiere League inglesa, que premia o “melhor jogador jovem” da competição levando em conta o corte de até 23 anos. Os números favorecem Luan, mas Gabriel também foi muito bem na temporada. Um último destaque jovem: o atacante Clayton, do Figueirense.

 

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Resumo: Carl Sagan, “A Refinada Arte da Detecção de Mentiras”

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“O entendimento humano não é luz pura, pois recebe influência da vontade e dos afetos, donde se poder gerar a ciência que se quer. Pois o homem se inclina a ter por verdade o que prefere. Em vista disso, rejeita as dificuldades, levado pela impaciência da investigação; a sobriedade, porque sofreia a esperança; os princípios supremos da natureza, em favor da superstição; a luz da experiência, em favor da arrogância e do orgulho, evitando parecer se ocupar de coisas vis e efêmeras; coisas não comumente críveis, por respeito à opinião do vulgo. Enfim, inúmeras são as fórmulas pelas quais o sentimento, quase sempre imperceptivelmente, se insinua e afeta o entendimento.”
Francis Bacon, Novum Organon (1620)

 

Mentiras de diferentes tipos fazem parte da nossa cultura; se fazem presentes com frequência em muitas áreas da vida em sociedade, como no âmbito da religião, da política e da publicidade. Muitos exemplos diferentes poderiam ser dados. Por vezes, a mentira surge inocentemente, mas de forma colaborativa, coletiva; por outras, é fruto de cínica premeditação. Normalmente, as vítimas são levadas ou se deixam levar devido a emoções fortes: espanto, medo, ganância, aflição, pesar. A aceitação crédula de mentiras cobra um preço alto; “quando governos e sociedades perdem a capacidade de pensamento crítico, os resultados podem ser catastróficos, independente do quão empáticos possamos ser com aqueles que aceitam mentiras como verdades.”

A ciência nos fornece um verdadeiro kit de detecção de mentiras que inclui diferentes ferramentas, como:

 

▪ Busca, sempre que possível, pela confirmação independente de fatos.
 

▪ Encorajamento de debate sobre argumentos e evidências por proponentes bem informados de todos os pontos de vista envolvidos na questão.

 

▪ Menos peso para argumentos de autoridade. “[N]a ciência, não há autoridades; há, se muito, experts.”

 

▪ Levantamento e testagem de mais de uma hipótese. A “seleção dentre múltiplas hipóteses de trabalho tem mais chance de ser a resposta certa”, é bem superior do que a fixação pela primeira ideia que te chama a atenção.

 

▪ Rigor com a hipótese principal. Não ter apego a ela por ser sua. Perguntar-se por que gosta da hipótese. Comparar a hipótese principal com as alternativas de maneira justa. Buscar ao máximo razões contra a hipótese (se você não fizer isso outros o farão).

 

▪ Sempre que possível, quantificar. Isso permite melhor diferenciação diante de hipóteses concorrentes. O que é vago e qualitativo é também aberto a mais explicações. Há verdades qualitativas, mas são mais difíceis de serem encontradas.

 

▪ Navalha de Occam: entre duas ou mais hipóteses capazes de explicar os dados igualmente bem, escolher a mais simples.

 

▪ Hipóteses irrefutáveis não servem para muita coisa. Buscar hipóteses que possam, ao menos em princípio, serem falseadas.

 

▪ Hipóteses não testáveis também geram dificuldades. A confiança em experimentos cuidadosamente concebidos e controlados é central à ciência, porque, diferentemente da mera contemplação, permite uma decisão informada por uma dentre duas ou várias explicações concorrentes. Ademais, o controle de experimentos tem a grande virtude de reduzir a influência da subjetividade dos pesquisadores (que, muitas vezes, conscientemente ou não, buscam de antemão encontrar determinados resultados).

 

Além de nos ensinar como devemos avaliar uma alegação sobre o conhecimento, o kit de detecção de mentiras deve também nos ensinar o que não se deve fazer, i.e., como reconhecer as falácias lógicas e retóricas mais comuns e perigosas (particularmente comuns na religião e na política, dois domínios em que praticantes precisam constantemente justificar proposições contraditórias).

 

               ERRO                                                                DESCRIÇÃO

 

 

Ad hominem

 

Atacar o argumentador, e não o argumento

 

Argumento de autoridade (argument from authority)

 

 Valorizar o argumento em virtude da autoridade do argumentador, e não pelo argumento em si

 

Argumento das consequências adversas (Argument from adverse consequences)

 

Defender coisas ilegítimas sob a alegação de que o mundo ficaria pior sem elas. Um exemplo clássico está numa famosa fala do historiador romano Políbio, para quem os antigos fizeram bem de inventar deuses e defender a crença na punição após a morte porque são meios importantes de controlar as massas, caracterizadas por seu comportamento “inconstante”, “passional”, “imprudente”.

 

 

Apelo à ignorância (Appeal to ignorance)

 

Supor que aquilo que não foi desmentido é verdadeiro, e vice-versa. Exemplo: como não existem provas de que UFOs não visitaram a Terra, isso é sinal de que UFOs existem. É um erro por uma razão simples: a ausência de evidência não é o mesmo que a evidência de ausência.

 

 Defesa especial (Special pleading)

 

Resposta com menção a algo irrefutável para defender uma proposição em apuros. Exemplo: “Como um Deus misericordioso condenou as futuras gerações a um tormento sem fim porque uma mulher induziu um homem a comer uma maçã? Defesa especial: você pergunta isso porque não entende a sutil Doutrina do Livre Arbítrio.”

 

 Convite ao questionamento (Begging the question)

 

Ocorre quanto alguém busca fundamentar uma proposição a partir de uma premissa que necessita, ela própria, de fundamentação. Exemplo: “Devemos instituir a pena de morte para desencorajar a criminalidade violenta”. No exemplo, não é apresentada nenhuma razão a respeito de se a pena de morte de fato seria capaz de desencorajar a criminalidade violenta, de reduzir as taxas de ocorrência de crimes desse tipo.

 

 Seleção de dados (Observational selection)

 

Enumerar circunstâncias favoráveis e ignorar (ou dar menos importância) (a)as desfavoráveis. Nas palavras de Bacon (Novum Organon, XLVI), “O intelecto humano, quando assente em uma convicção (ou por já bem aceita e acreditada ou porque o agrada), tudo arrasta para seu apoio e acordo. E ainda que em maior número, não observa a força das instâncias contrárias, despreza-as, ou, recorrendo a distinções, põe-nas de parte e rejeita, não sem grande e pernicioso prejuízo. […] O intelecto humano tem o erro peculiar e perpétuo de mais se mover e excitar pelos eventos afirmativos que pelos negativos, quando deveria rigorosa e sistematicamente atentar para ambos.”

 

Estatística de números pequenos (Statistics of small numbers)

 

Ocorre quando o tamanho da amostra é pequeno demais para sustentar uma generalização. Exemplo: “Dizem que uma em cinco pessoas é chinesa. Como isso é possível? Conheço centenas de pessoas, e nenhuma delas é chinesa!”.

 

 Compreensão errônea da natureza da estatística (Misunderstanding of the nature of statistics)

 

Ocorre quando a pessoa não compreende bem noções básicas de matemática / estatística, o que prejudica o entendimento da realidade expresso por meio desse útil tipo de linguagem e display de informação. Compreendida desta forma, seria gênero do qual a estatística de números pequenos é espécie. Isso, aliás, está mais próximo à definição de ambas na Wikipedia em português, que as trata como sinônimas. Exemplo dado pelo Sagan: “O Presidente demonstrou surpresa e preocupação ao saber que metade dos estadunidenses possui inteligência abaixo da média”.

 

 Inconsistência (Inconsistency)

 

Adotar crenças opostas; sustentar comportamentos / juízos contraditórios. Exemplos: “planejar-se prudentemente para o pior cenário [de destruição] que o adversário militar em potencial é capaz de provocar, mas parcimoniosamente ignorar projeções científicas sobre perigos ambientais por considerá-los ‘sem prova / fundamento’.” “Atribuir o declínio de expectativa de vida na antiga União Soviética a falhas pretéritas do comunismo, mas não atribuir a alta taxa de mortalidade infantil nos Estados Unidos […] às falhas do capitalismo.”

 

Non sequitur

 

Ocorre quando a conclusão não decorre das premissas. Todo argumento inválido é um caso especial de non sequitur. Exemplo: “Nossa Nação prevalecerá porque Deus é grande.” É um non sequitur porque incontáveis outras nações podem arrogar o mesmo para si (ou seja, é possível que a premissa seja verdadeira sem que a conclusão – “Nossa Nação prevalecerá” – o seja).

 

 Depois disso, logo, causado por isso” (Post hoc, ergo propter hoc)

 

Também conhecida como correlação coincidente, consiste na ideia de que dois eventos que ocorrem em sequência cronológica estão necessariamente interligados através de uma relação de causa e efeito. Exemplos: “Sei de uma mulher de 26 anos que aparenta ter 60 porque toma pílulas contraceptivas” (insinuação de que tomar pílulas contraceptivas causou a aparência envelhecida). “Antes de mulheres começarem a votar, não havia armas nucleares” (insinuação de o voto feminino é causa do desenvolvimento de armas nucleares).

 

 Pergunta sem sentido (Meaningless question)

 

Questionamento que não pode de fato ser respondido afirmativa ou negativamente. Exemplo: “O que acontece quando uma força irresistível encontra um objeto inamovível?”. A pergunta é sem sentido porque se houver uma força irresistível, não pode haver objeto inamovível, e vice-versa. É interessante mencionar também a afirmação sem sentido (meaningless statement), que ocorre quando, e.g., (i) duas categorias são distinguidas sem que seja mencionado o critério da distinção; (ii) são usadas palavras sem sentido (falta de sentido semântica) (é o que ocorre, e.g., quando se cantarola, ou no famoso poema non sense “Jaguadarte”, de Lewis Carroll); (iii) são usadas palavras que têm sentido por si, mas não na afirmação (falta de sentido sintática) (e.g., “meu cão tem pulgas” faz sentido, mas “cão pulgas tem meu”, não); (iv)  uso de palavras que fazem sentido, juntas numa estrutura gramatical correta, mas ainda assim incompreensíveis por causa da relação entre os significados (falta de sentido contextual) (e.g. “Idéias incolores verdes dormem furiosamente”).

 

 Falsa dicotomia (Excluded middle, False dichotomy)

 

Situação em que dois pontos de vista são colocados como sendo as únicas opções contrapostas, quando na realidade existem outra ou outras que não foram consideradas. Exemplo: “Ou você ama o seu país, ou você o odeia” (a versão estadunidense para “Brasil: Ame-o ou Deixe-o”).

 

 Curto prazo vs. Longo prazo

(Short- term v.

long-term)

 

Caso especial de falsa dicotomia recorrente em discussões sobre políticas públicas. Exemplo: “Por que explorar o espaço quando se tem um déficit orçamentário tão grande?”. No Brasil, um exemplo comum refere-se ao Programa Bolsa-Família: “Melhor investir em educação do que dar a bolsa; não se deve dar o peixe, é preciso ensinar a pescar.”

 

 Declive escorregadio (Slippery slope)

 

Ocorre quando a vagueza de uma categoria é explorada no argumento para sustentar que não há diferença significativa entre as coisas que integram e as que não integram essa mesma categoria. Em sua versão causal, também conhecida como “argumento dominó” (domino argument) ou o “desfile de horrores” (parade of horrors), defende que, se o evento em questão leva, através de uma cadeia de etapas, a uma calamidade, então é melhor que ele seja evitado o quanto antes. Exemplo: “Se autorizarmos aborto nas primeiras semanas de gestação, será impossível impedir assassinatos de infantes completos.” É um argumento falacioso. Mesmo se houver uma relação que, em si considerada, revele uma probabilidade relevante, uma cadeia de eventos implica probabilidades em série que podem fazer com que o “é provável” ou o “é possível” contido num dos elos da cadeia seja um “é improvável” ou “é extremamente improvável” quando os extremos da cadeia de eventos forem relacionados.

 

 Confusão entre correlação e causalidade (Confusion of correlation and causation)

 

Quando há correlação entre A e B, pode ser que A cause B, que B cause A, que A e B sejam causados por um terceiro fator ou conjunto de fatores C, ou, finalmente, que a correlação seja apenas uma coincidência. A confusão entre correlação e causalidade ocorre quando uma correlação que não implica relação de causalidade entre variáveis é, contudo, assim erroneamente entendida. Exemplo: “Um estudo mostra que mais pessoas com ensino superior são gays do que pessoas com menos instrução. Logo, a educação superior faz com que as pessoas se tornem gays.”

 

 Argumento do Espantalho

(Straw man)

 

Consiste em caricaturar a posição contrária para torná-la mais facilmente criticável. Exemplos: “Ambientalistas se preocupam mais com peixes e corujas do que com seres humanos.” “Cientistas supõem que a vida surgiu por acaso” (caricatura muito mal feita do darwinismo).

 

 Evidência suprimida, ou jogo da meia verdade (Suppressed evidence, or half-truths)

 

Ocorre quando uma afirmação ou argumento, com o intuito de ser mais crível, oculta um ou mais elementos principais do conteúdo informativo. Exemplo: “Os abusos desse governo demandam uma revolução, mesmo que não seja possível fazer o omelete sem quebrar os ovos.” O argumento omite se por “quebrar os ovos” queremos dizer violência revolucionária tão grave ou mais grave que os abusos que a revolução visaria combater.

 

Discurso vazio (Weasel words)

 

Consiste no uso de palavras ou frases evasivas, vagas, ambíguas, eufemísticas, com o objetivo de causar engano ou confusão, esconder problemas e/ou de evitar uma resposta direta ou uma declaração imprópria. Exemplo dado por Sagan: “a separação dos poderes na constituição norte-americana especifica que os Estados Unidos não podem travar guerra sem uma declaração do Congresso. Por outro lado, os presidentes detêm o controle da política externa e o comando das guerras, que são potencialmente ferramentas poderosas para que sejam reeleitos. Portanto, os presidentes de qualquer partido político podem ficar tentados a arrumar disputas, enquanto desfraldam a bandeira e dão outros nomes às guerras – ‘ações policiais’, ‘incursões armadas’, ‘ataques de reações defensivas’, ‘pacificação’, ‘salvaguarda dos interesses norte-americanos’ e uma enorme variedade de ‘operações’, como a ‘Operação da Causa Justa.’ Os eufemismos para a guerra são um dos itens de uma ampla categoria de reinvenções da linguagem para fins políticos. Talleyrand disse: ‘Uma arte importante dos políticos é encontrar novos nomes para instituições que com seus nome antigos se tornaram odiosas para o público’.”

 

O kit de detecção de Mentiras, conclui Sagan, pode, como qualquer outra ferramenta, ser mal utilizado; porém, se bem aplicado, pode fazer “toda a diferença do mundo”, mesmo e especialmente em questões de vida e de morte.

Sagan ilustra a gravidade do tema com exemplos afeitos ao debate sobre os malefícios do cigarro, historicamente desvirtuado por propagandas e demais formas de lobby da indústria tabagista, mas não imune às ferramentas acima (v.g., um dos argumentos que a indústria alegou é o de que a correlação estatística entre fumar e desenvolver câncer não revela uma relação causal entre as duas, pois é possível que pessoas com propensões hereditárias para fumar possuem também propensões hereditárias para desenvolver câncer; a tese foi desmentida pelo uso do método científico com experimentos controlados).

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O resumo foi feito, sobretudo, a partir de:

SAGAN, Carl. “The Fine Art of Baloney Detection”. In: SAGAN, Carl. The Demon-Haunted World – Science as a Candle in the Dark. London: Headline Publ., 1997, p.189-206.

No texto original, Sagan muitas vezes não define / conceitua os erros, mas apenas menciona exemplos. Por isso, acrescentei definições onde foi necessário, baseando-me nos verbetes sobre falácias etc. da Wikipedia inglesa e da Wikipedia portuguesa, e também nas anotações pessoais que fiz sobre o curso “Think Again: How to Reason and Argue”, oferecido pela Duke University na Plataforma Coursera e ministrado pelos professores Walter Sinnott-Armstrong e Ram Neta (https://www.coursera.org/course/thinkagain).

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