Arquivo do mês: janeiro 2016

Ciência e afirmações científicas

 

aurora

* “Aurora and the Pacific Northwest” (Fonte: NASA)

 

É possível perceber a importância do método científico pela comparação com os métodos não científicos nos quais as pessoas costumam se afiançar no dia-a-dia. É nestas bases que Annemarie Zand Scholten, professora de metodologia das ciências sociais da Universidade de Amsterdã (UvA – University of Amsterdam), aborda o que é, e o que não é ciência. Cuido aqui de fazer um resumo das lições da professora sobre o tema, dadas no curso de extensão Quantitative Methods.*

 

Métodos não científicos (intuição, consenso, autoridade)

 

Uma das bases do conhecimento comum é a intuição ou crença em si considerada (intuition / belief); acreditar fortemente em alguma coisa devido a um sentimento ou intuição que faz com que a pessoa “saiba” que aquilo é verdadeiro. Outras duas bases recorrentes são a do consenso ou vontade da maioria (acreditar em algo porque muitas pessoas também acreditam na mesma coisa) e a da opinião da autoridade (acreditar em algo porque dito por uma figura de autoridade, como políticos, cientistas, especialistas, etc.). Todas elas são falhas.

Apenas sentir, acreditar ou intuir não faz com que a coisa seja verdadeira (coisas nas quais acreditamos fortemente podem simplesmente ser falsas), além de não fornecer nenhum critério para decidir, no caso de conflito de crenças ou intuições, qual delas deve prevalecer.

Tampouco a existência de um consenso ou de uma maioria (consensus / majority’s view) é razão suficiente: o fato de muitas pessoas acreditarem em algo não é razão, por si só, que ateste que a crença em questão seja verdadeira, e a própria história mostra que o consenso esteve muitas vezes equivocado (como ilustra, e.g., o fato de muitas pessoas terem acreditado durante muito tempo que o nosso planeta é plano).

Ademais, Scholten critica o embasamento de crenças na opinião de uma autoridade (authority’s opinion) por ela ser carente de objetividade em virtude de duas razões: primeiro, porque a opinião de uma autoridade continua sendo “apenas” uma opinião, e autoridades também se equivocam; segundo, porque pode haver um conflito de interesse que torna enviesada a opinião da autoridade – v.g., interesse próprio de manter-se como autoridade, de reforçar sua posição e imagem pública; outros interesses pessoais; interesses de clientes; etc. Autoridades têm contra si a desconfiança decorrente do fato de que comumente buscam que suas opiniões sejam aceitas em virtude de possíveis ganhos pessoais.

 

Evidências e método científico

 

A melhor forma de resolver conflitos de opinião, dirá Scholten, é por meio de evidências.

Há diferentes formas de busca por evidências, umas mais, outras menos objetivas. A interessante síntese de Scholten inicia-se pela forma mais básica de busca por evidências, a observação casual (casual observation), que, apesar de ser superior aos métodos ou formas não científicas, acaba sendo limitada por comumente padecer de dois problemas: a observação seletiva (selective observation) (pessoas não são boas observadoras, tendem a observar seletivamente e a se lembrar mais das coisas que estão de acordo com suas crenças); erros lógicos (nossa “lógica informal”, nosso raciocínio cotidiano, é frequentemente distorcido por falácias e similares).

Um pensamento preciso, um raciocínio acurado (accurate reasoning), não pode depender nem em fontes não verificáveis (crenças, opiniões, opiniões majoritárias…), tampouco em fontes sujeitas a pesadas distorções causadas pela nossa subjetividade (observação casual, lógica informal). São subjetivas demais, sujeitas em demasia a falhas. É aí que entra o método científico (scientific method), entendido na síntese de Scholten como baseado em dois pilares: (i) não mais a observação casual, mas a observação sistemática (systematic observation); não mais o raciocínio do cotidiano, mas a lógica formal aplicada de forma consistente (consistently applied logic).

O método nos ajuda a examinar melhor a plausibilidade das nossas hipóteses. O método serve para que possamos assegur que nossas maneiras de explicar como o mundo funciona resultam em conhecimento válido (valid knowledge).

Scholten caracteriza o método científico por meio de seis princípios (principles):

  1. Uma hipótese científica deve ser sempre empiricamente testável, i.e., deve ser possível realizar observações, coletar dados, evidências empíricas / físicas capazes de apoiar ou negar a hipótese.
  2. O estudo científico deve gozar de replicabilidade (replicability): o estudo original deve ser passível de ser repetido. Se o resultado esperado ocorre não apenas uma vez, mas muitas vezes, isso é sinal de que o resultado não é fruto de uma coincidência. A repetição torna uma hipótese mais plausível.
  3. Objetividade: não importa, não deve importar quem realize o estudo; qualquer um deve ser capaz de alcançar os mesmos resultados a partir dos mesmos pressupostos (assumptions), conceitos (concepts) e procedimentos (procedures). Também por isso, esses elementos devem ser explícita e claramente definidos, sem deixar espaço para interpretação subjetiva (subjective interpretation). Algo subjetivo é algo incomparável (incomparable).
  4. Transparência: próxima da objetividade, envolve tornar disponível ao público (tanto críticos quanto apoiadores) toda e qualquer informação necessária para a replicação exata do estudo, o que normalmente envolve os conceitos e como são definidos, os procedimentos e como foram usados, etc.
  5. O estudo deve ser refutável (falsifiability); deve admitir, ao menos em tese, evidências em contrário. Crenças irrefutáveis (e.g., crenças religiosas) sequer precisam de um estudo que confirme ou refute uma hipótese, porque “a conclusão já está alcançada” desde o início.
  6. Coerência / consistência lógica (coherence / logical consistence): é preciso que o estudo não possua nenhuma contradição interna (e.g., pressupostos não podem estar em desacordo com a hipótese), e que sua conclusão seja logicamente consistente e coerente com as evidências que confirmem ou refutem a hipótese (neste sentido, não pode haver seleção enviesada de evidências, nem mudanças na interpretação dos resultados após a coleta dos dados, e.g., para fazer com que eles se adequem à hipótese).

Aos princípios, Scholten acrescenta, como elemento essencial ao fazer científico, o que ela chamou de postura ou atitude científica (scientific attitude), associada a dois pontos principais:

(i) pesquisadores precisam ser críticos em relação a si mesmos, aos seus próprios estudos, e também em relação aos demais;

(ii) pesquisadores precisam ser transparentes e abertos, no sentido de aceitar críticas e se livrar de suas hipóteses, inclusive de suas hipóteses mais queridas, caso outras forneçam explicações melhores.

 

Afirmações científicas (observações, hipóteses, leis e teorias)

 

Há afirmações científicas (scientific claims) de diferentes tipos: algumas explicam mais fenômenos do que outras; algumas fornecem mais descrições ou explicações plausíveis do mundo à nossa volta; algumas são mais certas ou contam com apoio maior de evidências. Dividem-se em quatro tipos principais [segundo um grau de generalidade]: observações; hipóteses; leis; teorias.

Observação; consiste, essencialmente, numa representação (precisa ou não) do mundo.

Sozinha, não informa tanto; não descreve uma relação geral entre propriedades, e não explica nada.

Ainda assim, são muito importantes; são os “tijolos” que as ciências empíricas usam na construção do conhecimento.

Tornam-se especialmente úteis quando servem para confirmar ou refutar uma hipótese.

Hipótese: afirmação que descreve um padrão ou uma relação geral entre propriedades.

Além de descrever, uma hipótese também pode explicar um padrão.

A plausibilidade de uma hipótese varia muito, do muito incerto / inseguro (very uncertain) ao muito seguro (very certain).

Uma hipótese incerta ou insegura é aquela que ainda não se apóia em evidências; uma hipótese muito segura é aquela que é apoiada por um número grande de evidências, por muitos estudos empíricos diferentes.

Lei: tipo especial de hipótese que traz descrições muito precisas de relações ou padrões, usualmente expressas em equações matemáticas e fortemente apoiadas por evidências (daí decorre o grau de precisão das suas descrições).

Contudo, leis costumam apenas descrever, i.e., normalmente não explicam as relações descritas.

Nas ciências sociais, quase nunca são formuladas leis, especialmente porque ainda compreendemos muito pouco sobre pessoas e grupos de pessoas a ponto de especificar padrões de comportamento com tamanho grau de precisão.

Teoria: termo polissêmico. No âmbito das relações cotidianas, costuma ser somente uma afirmação infundada (unsubstantiated statement) ou um palpite simples. No campo científico de maneira geral, refere-se a uma explicação bastante abrangente de muitos fenômenos inter-relacionados; ao mais bem estabelecido tipo de explicação, àquilo de mais próximo da certeza ou da verdade que um cientista pode ter (no campo científico, não há verdadeiramente certezas ou verdades estabelecidas, mas apenas a melhor explicação do momento, provisória por definição).

Nas ciências naturais, em particular, teorias são hipóteses com forte apoio em evidências empíricas.

Nas ciências sociais, nas quais abordagens qualitativas e históricas têm maior impacto e abrangência, uma teoria é tida como altamente plausível quando resistiu a tentativas de refutação baseadas em fundamentos lógicos ou em análise histórica / qualitativa.

 

 

* Elaboração própria de resumo a partir de: SCHOLTEN, Annemarie Zand. Quantitative Methods. Coursera.org, Nov. 2015 / Jan. 2016. Disponível em: https://www.coursera.org/learn/quantitative-methods/. Acesso em 20 jan. 2016.

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Escala Jaguadarte

Jaguadarte

* O “jaguadarte” segundo ilustração de John Teniel (1820-1914) constante da edição de “Through the Looking-Glass, and What Alice Found There” de 1871

 

O trabalho de tradutor é dos mais desafiadores e perigosos. De dar adicional de periculosidade pro cabra e tudo mais (ao menos, deveria).
No ano passado (2015), descobri qual é o nível máximo na escala de habilidade de tradução inglês-português (na qual ocupo uma posição mais ou menos digna, conquanto assumidamente intermediária): nível “consigo-traduzir-o-poema-Jabberwocky-de-Lewis-Carroll”.
“Jabberwocky” (ou, em português, “Jaguadarte”), é um poema nonsense presente na obra “Through the Looking-Glass, and What Alice Found There” (1871).
Vejam que beleza que é a primeira estrofe do poema no idioma original:

 

Twas brillig, and the slithy toves
Did gyre and gimble in the wabe;
All mimsy were the borogoves,
And the mome raths outgrabe.

 

E agora, a tradução ninja do Augusto de Campos:

 

Era briluz. As lesmolisas touvas
roldavam e reviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.

 

Eu arriscaria alterar o “Era briluz” para “Erua briluz”, mas provavelmente certo está o Augusto de Campos.

Rodrigo Amaral inteligentemente sugeriu-me que se a escala é Jaguadarte do inglês pro português, uma boa escala do caminho inverso seria a escala “Grande Sertão: Veredas”. E desafiou: “Como se diria “nonada” na língua bretã? “Tsnothing”?

Trabalhar como tradutor é matar um jaguadarte por dia.

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Wendell Lira onde nenhum mortal jamais esteve

wendell lira campeão

(Foto: Agência Futebol Interior)

 

Abram alas para o imponderável: Wendell Lira, até pouco tempo um ilustre desconhecido trabalhador humilde do futebol, bateu o gigantesco Lionel Messi e ganhou o Prêmio Puskas da FIFA de Gol mais Bonito de 2015.

O fato com certeza vai ser encarado de muitas formas, e haverá até mesmo quem o tome por irrelevante (o que é sinal de problema de vista ou indiferença patológica).

Como a vitória de Wendell Lira enseja debate de vida e morte, glória e esquecimento, mito e realidade, bom e belo, justiça e injustiça, ah, e também debate de futebol, fui tomado por uma vontade de escrever, que passou feito bola mansa na grama após eu ler dois textos curtinhos, muito melhores do que qualquer coisa que eu fosse capaz de produzir. Senti-me contemplado por eles.

1. Menon, do “Blog do Menon”, texto “Wendell Lira e a beleza do futebol, o esporte do povo“:

“O Brasil abraçou Wendell Lira e o colocou onde nunca ele sonhou. É a prova de que este país tem muito de bom: é emotivo, é solidário e acredita em si. Acredita no mais fraco. O povo faz uma corrente por Lira que não faria por Neymar, por exemplo. Mesmo porque Neymar não precisa.

E a eleição de Lira é bonita também por mostrar que o futebol pode ser lindo em qualquer lugar no mundo. Para ver a Mona Lisa, é preciso pagar e entrar no Louvre. Para ver Guernica, é preciso pagar e entrar no museu da Rainha Sofia… Para ver uma obra de arte futebolística, basta ter a sorte de estar no lugar certo na hora certa. No caso, Goianésia.

O gol de Lira foi o mais bonito? Eu prefiro o de Messi, mas há muita beleza e plástica também no seu voleio invertido. Um gol de acrobata, de ginasta olímpico, de salto ornamental, um gol de Houdini, de Nadia Comaneci, de Greg Louganis.

A internet foi a arma de Lira, como a funda foi a arma de Davi contra Golias.

A democracia é linda e o futebol ainda mais.”

2. Douglas Ceconello, do blog Meia Encarnada, texto “Onde queres Barcelona, sou Goianésia“:

“Quando a transmissão avisou que Messi levaria pra casa sua quinta bola de ouro, isso já não tinha importância. Certamente, também outros espalhados em frente aos televisores, no asfalto ou no chão batido, ainda mantinham um olhar perdido e uma satisfação íntima, que nos caiu no colo para embalar assim, de supetão, durante uma premiação que prometia ser tão emocionante quanto uma tarde no cartório.

Tudo mais da cerimônia era videogame. Só Wendell Lira era pandorga com pé descalço. Em uma atmosfera sempre marcada pela irrealidade, glamour e grife, o jogador de 27 anos subiu ao palco com um dos dois ternos que ganhou em Goiânia para a viagem de sua vida. Atalhou o caminho: foi até a Europa não para jogar, como sempre sonhou, mas já para ser reconhecido. A distância entre Goianésia e Zurique não resistiu à maestria de um corpo no ar, duas pedaladas de capoeira seguidas de uma chicotada na bola. Era o Berimbau de Troia corrompendo o software alemão.

Ao mesmo tempo choroso e austero, encerrou seu discurso citando a história de Davi e Golias. Impossível ser mais pertinente. A força de persuasão da fábula foi o que conduziu Wendell do anonimato para uma noite de glória: a votação era popular, e às vezes nós, HUMANIDADE, ainda conseguimos nos mobilizar pelas grandes vitórias de pequenos lutadores. Se não por um refinado senso de solidariedade, talvez apenas para provar que é possível.

No Kongresshaus de Zurique, Wendell Lira era a bola de meia rolando em tela plana. A goleira de chinelos solenemente montada em pleno gramado do Santiago Bernabeu. Era aquele nosso gol de placa marcado em uma pelada qualquer perdida nos séculos, jamais filmado, nunca esquecido. O que sonha todo jogador desconhecido naquela hora de sono profundo durante a qual Cristiano Ronaldo, também dormindo, ganha o seu salário mensal.

Mentimos a nós mesmos quando temos arroubos megalomaníacos. Porque, apesar da mania de grandeza, da hipnose quando toca a música da Champions League, nós não vivemos o futebol pela final da Copa do Mundo, não vivemos nem para ver Messi e nem para ter a sorte de torcer pelo maior esquadrão de todos os tempos. Na verdade, nós vivemos o futebol esperando por um Wendell Lira.”

 

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