Arquivo do mês: setembro 2016

Resumo: “Um discurso sobre as Ciências”, de Boaventura Sousa Santos

 

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O professor Boaventura de Sousa Santos proferiu uma Oração de Sapiência como abertura solene das aulas na Universidade de Coimbra no ano letivo de 1985/1986, cujo conteúdo foi ampliado e publicado pela editora Afrontamento em 1987, sob o título “Um discurso sobre as Ciências”. O pequeno livro foi ainda publicado no Brasil e nos Estados Unidos, tendo tido grande êxito e aceitação no meio acadêmico universitário e secundarista.

Ali, Santos avança três pontos principais: (i) uma caracterização do paradigma dominante da ciência moderna; (ii) a alegação de que vivemos em um período de crise do paradigma atual e transição para um novo paradigma e (iii) uma apresentação especulativa (segundo ele, uma síntese pessoal impregnada na imaginação sociológica) do paradigma emergente.

 

Caracterização do paradigma dominante

 

Segundo Santos, o “paradigma dominante” constitui-se e se desenvolve ao longo dos séculos XVI e XIX no âmbito das ciências naturais. No século XIX, estende-se às “ciências sociais emergentes”. Sua característica fundamental é negar a racionalidade de outras formas de conhecimento, como o conhecimento do senso comum e das humanidades. Além disso, o paradigma se opõe a todas as formas de dogmatismo e autoridade; afirma os dualismos “ciência / senso comum” e “homem / natureza”; assume a matemática como basilar, o que implica ideias de que conhecer é quantificar (exclusão de aspectos qualitativos), dividir e classificar (uso do método científico para reduzir complexidades); busca leis que expliquem o “como” do funcionamento das coisas (em detrimento do “quem” e do “para que”); ao basear-se na formulação de leis, adota como “pressuposto metateórico” o “determinismo mecanicista”, a ideia de um mundo estável, ordenado e fora da história.

Este “determinismo mecanicista” é colocado como aspecto ideológico do paradigma dominante, como visão de mundo que funcionou como um dos pilares da ideia de progresso e como “horizonte cognitivo mais adequado aos interesses da burguesia”. Nas ciências sociais, deu-se através dos percursores na busca pelas leis da sociedade – Francis Bacon, Giambattista Vico e Montesquieu – e de marcos teóricos como o estado positivo de Comte, a sociedade industrial de Spencer e a solidariedade orgânica de Durkheim.

A adoção do “modelo mecanicista” pelas ciências sociais deu-se em duas vertentes: (i) como aplicação do mesmo modelo teórico das ciências naturais às sociais; e (ii) com o desenvolvimento de um modelo próprio, distinto das ciências naturais. A primeira vertente assume as ciências naturais como modelo universalmente válido, adota a ideia central do atraso (superável) das ciências sociais em relação às ciências naturais e entende que existem diferenças entre fenômenos naturais e sociais, que atuam contra as últimas, pois tornam o cumprimento do método mais difícil e o conhecimento a que se chega menos rigoroso. A segunda vertente parte da visão de que a ação humana é radicalmente subjetiva e, por isso, não pode ser descrita / explicada a partir de características externas, objetiváveis, fazendo com que as ciências sociais, enquanto ciências subjetivas, adotem métodos qualitativos. As duas vertentes pertencem ao paradigma da ciência moderna e suas características, como a distinção entre homem e natureza e a prioridade cognitiva das ciências naturais.

 

Crise do paradigma da ciência moderna

 

Segundo Santos, o paradigma da ciência moderna é um paradigma em crise. Para ele, o próprio aprofundamento do conhecimento propiciado pela ciência “permitiu ver a fragilidade dos pilares em que se funda”. Os cientistas “chegámos a finais do século XX possuídos pelo desejo quase desesperado de complementarmos o conhecimento das coisas com […] o conhecimento de nós próprios”.

Santos cita quatro condições teóricas da crise do paradigma moderno:

  1. Relatividade da simultaneidade de Einstein: inexistindo “simultaneidade universal, o tempo e o espaço absolutos de Newton deixam de existir”.
  2. Mecânica quântica: introduziu a consciência no ato do conhecimento e, fundamentalmente, colocou em xeque o rigor da medição e a distinção (forte) entre sujeito e objeto.

III. Teoremas de Gödel: abalam o rigor da medição ao questionar o rigor da matemática (veículo formal da medição e base do rigor das leis da natureza), ao mostrar que é possível formular “proposições que não se podem demonstrar nem refutar, sendo que uma dessas proposições é precisamente a que postula o carácter não contraditório do sistema”.

  1. Avanços da microfísica, da química e da biologia em geral; teoria das estruturas dissipativas e o princípio da “ordem através de flutuações” de Prigogine: “nova concepção da matéria e da natureza” que transcende a física clássica.

O sociólogo português sintetiza as mudanças teóricas que relata nos seguintes termos: “Em vez da eternidade, a história; em vez do determinismo, a imprevisibilidade; em vez do mecanicismo, a interpenetração, a espontaneidade e a auto-organização; em vez da reversibilidade, a irreversibilidade e a evolução; em vez da ordem, a desordem; em vez da necessidade, a criatividade e o acidente.”

Ao lado das condições teóricas, menciona a existência de um movimento científico convergente, de vocação transdisciplinar, também chamado de “paradigma da auto-organização”, aflorado pelas seguintes inovações: a teoria de Prigogine, a sinergética de Haken, o conceito de hiperciclo e teoria da origem da vida de Eigen, o conceito de autopoiesis do Maturana e Varela, a teoria das catástrofes de Thom, a teoria da evolução de Jantsch, a teoria da “ordem implicada” de David Bohm e finalmente, a teoria da matriz-S de Geoffrey Chew e a filosofia do “bootstrap”.

Santos associa a crise a limites qualitativos do conhecimento científico – limites que não podem ser superados por “maiores quantidades de investigação ou maior precisão dos instrumentos” –, bem como a limites quanto à sua precisão quantitativa. Sobre o último ponto, salienta que o teorema de Brillouin permite concluir que “a experiência rigorosa é irrealizável, pois que exigiria um dispêndio infinito de atividades humanas”, e que a mesma via da “parcelização do objeto” que fez avançar o conhecimento científico “confirma a irredutibilidade das totalidades orgânicas ou inorgânicas às partes que as constituem”, logo, o “caráter distorcivo” do conhecimento centrado na observação das partes.

Dentre as condições sociais da crise, destaca que o que a ciência ganhou em rigor, perdeu em capacidade de autorregulação diante do fenômeno da industrialização da ciência, compromisso com os centros de poder econômico, social e político, cujas consequências, no âmbito da aplicação, são os perigos de uma catástrofe ecológica e de um holocausto nuclear; e, no âmbito da organização do trabalho científico, a estratificação e proletarização da comunidade científica e o aumento da desigualdade entre os países centrais e periféricos em virtude da investigação capital-intensiva. Entre as facetas sociológicas da crise, menciona reflexões feitas por cientistas, nunca antes tão interessados em problematizar suas práticas, sobre questões a respeito das condições sociais de produção da ciência, que antes eram tratadas por sociólogos.

A crise é pautada por críticas às leis da natureza, ao conceito de causalidade e à relação sujeito-objeto:

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O paradigma emergente

 

Santos apresenta um conjunto de teses que conformariam o “paradigma emergente”, por ele também chamado de “paradigma de um conhecimento prudente para uma vida decente”. Ao assim proceder, assumidamente adota uma “via especulativa” que, segundo ele, é a única possível para abordar a “configuração do paradigma que se anuncia no horizonte”. Em suas palavras, o paradigma emergente que identifica decorre de uma especulação “fundada nos sinais que a crise do paradigma atual emite” e é também “produto de uma síntese pessoal impregnada na imaginação sociológica”.

O paradigma emergente gira em torno de três máximas:

  1. “Todo conhecimento científico-natural é científico-social.” No paradigma emergente, a distinção dicotômica entre ciências naturais e ciências sociais passa a ser superada. Os avanços da física e da biologia põem em causa as distinções orgânico / inorgânico, seres vivos / matéria inerte e humano / não humano, e diferentes teorias teriam introduzido na matéria “os conceitos de historicidade e de processo, de liberdade, de autodeterminação e até de consciência” nas ciências naturais. Neste processo, as ciências sociais e as humanidades assumem protagonismo. Segundo ele, há uma “emergente inteligibilidade da natureza” presidida “por conceitos, teorias, metáforas e analogias das ciências sociais”, e é notável a facilidade com que as teorias físico-naturais, uma vez formuladas no seu domínio específico, se aplicam ou aspiram a aplicar-se no domínio social. Além disso, a ciência pós-moderna abraça a concepção humanística das ciências sociais, segundo a qual a ação humana é radicalmente subjetiva, necessitando, assim, de um método próprio (qualitativo); e o faz por essa concepção exibir maior resistência à separação sujeito / objeto, preferir a compreensão do mundo à sua transformação, e colocar a pessoa como centro do conhecimento (e, no paradigma emergente, também a natureza no centro da pessoa). A ciência pós-moderna, a partir das humanidades, se constituirá a partir de analogias humanísticas como “categorias de inteligibilidade universais”, em que cada uma “desvela uma ponta do mundo”; e terá como “categorias matriciais” a analogia textual (filológica), a analogia lúdica, a analogia dramática e a analogia biográfica. Feita a transição, o mundo será natural e social ao mesmo tempo e será visto como um texto, como um jogo, como um palco ou ainda como uma autobiografia.
  2. “Todo conhecimento é local e total.” A ciência moderna é um conhecimento parcial, i.e., que avança por especialização e é mais rigoroso quanto mais restrito é o objeto e quanto mais arbitrariamente espartilha o real; e também disciplinar, que “segrega uma organização do saber orientada para policiar as fronteiras entre as disciplinas e reprimir os que as quiserem transpor”. Do caráter parcial e disciplinar decorrem males de todos os tipos, impassíveis de solução no âmbito do paradigma da ciência moderna. A ciência pós-moderna, ao revés, será local, i.e., se constituirá a partir de temas importantes para os grupos sociais e seus projetos de vida; e será total, elegendo como horizonte “a totalidade universal de que fala Wigner ou a totalidade indivisa de que fala Bohm”. Sendo total, será também local, pois assume-se como analógica e como tradutora, incentivando o uso de conceitos e teorias fora do seu contexto de origem. A ciência pós-moderna contará com conhecimento “relativamente imetódico”, “pluralidade metodológica”, “fusão de estilos”, “interpenetrações entre cânones de escrita”, “uso de vários estilos segundo o critério e a imaginação pessoal” e “constelação de métodos” para “captar o silêncio que persiste entre cada língua que pergunta”.
  3. “Todo conhecimento é autoconhecimento.” Para Santos, a distinção entre sujeito e objeto nunca foi pacífica nas ciências sociais, tendo sido questionada também nas ciências naturais. Nestas, em suma, o sujeito teria regressado “na veste do objeto”. Sinais disso são: a mecânica quântica, ao mostrar que o ato do conhecimento e o produto do mesmo são inseparáveis; os avanços da microfísica, da astrofísica e da biologia; a verificação de que a tecnologia nos separou da natureza ao invés de nos integrar a ela, e que a exploração da natureza, tendo sido veículo da exploração do homem, consolidou uma “nova dignidade da natureza”. Segundo ele, a validade da ciência decorre de um juízo de valor e, sendo assim, não há nenhuma razão científica para considerar a ciência melhor do que explicações alternativas da metafísica, da astrologia, da religião, da arte ou da poesia. A ciência, natural ou social, é necessariamente subjetiva e autobiográfica: “o objeto é a continuação do sujeito por outros meios”, e a subjetividade do cientista (seus pressupostos metafísicos, sistemas de crenças, juízos de valor) é parte integrante de sua explicação da natureza ou da sociedade. “A ciência não descobre, cria”. Diferentemente da ciência moderna, a ciência pós-moderna assume-se como autobiográfica e autorreferenciável. Ademais, preocupa-se menos com sobreviver, e mais com “saber viver”; busca ser “uma outra forma de conhecimento, um conhecimento compreensivo e íntimo” que nos une pessoalmente ao que estudamos; vê a incerteza como “chave do entendimento”; entende que, mais do que controlado, o mundo deve ser contemplado; avalia o conhecimento menos pelo que ele controla e mais pela satisfação pessoal que ele gera em quem lhe acede e partilha; aproxima-se das criações artísticas, porque subordina a transformação do real à contemplação do resultado.

Santos considera que o paradigma emergente é ao mesmo tempo científico (conhecimento prudente) e social (vida decente), e que isso resulta do fato de que a revolução científica que daria azo ao novo paradigma seria uma revolução numa sociedade já transformada pela revolução científica do século XVI.

Fonte:

Para saber mais:

  • Santos, Boaventura Sousa. Introdução a uma ciência pós-moderna. Porto: Afrontamento, 1989.
  • Baptista, António Manuel. Crítica da Razão Ausente. Lisboa: Gradiva, 2003. [críticas de um físico português ao pensamento de Boaventura Sousa Santos]
  • Santos, Boaventura Sousa (org.). Conhecimento prudente para uma vida decente: Um discurso sobre as ciências revisitado. Porto: Edições Afrontamento, 2003.

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