Arquivo do mês: outubro 2016

O famoso “Dezesseis Toneladas”

 

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Morto em 1975 aos 39 anos de idade, Noriel Vilela é o cantor de “Dezesseis Toneladas”. Sim, é aquela mesmo: “Este é o famoso Dezesseis Toneladas…” Bem dançante, começa com “Este samba quente é muito legal…”. Toca na pista do Paco Pigalle, danceteria de Belo Horizonte, há décadas.
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A letra festiva de “Dezesseis Toneladas” é original. Seu título e ritmo, no entanto, vieram da homônima “Sixteen Tons”. Na voz de Ernie Ford, alcançou grande sucesso da parada Billboard, ano de 1955. Fala sobre as agruras do trabalhador carvoeiro e do sistema de cantina (escravidão por dívida).
Seu refrão é mais ou menos assim:
“Você carrega 16 toneladas hoje, e o que ganha? / Menos um dia de vida, mais outra dívida… / São Pedro, não me chame, sequer posso morrer: devo até a minha alma na cantina da empresa.”
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O sistema de cantina ainda existe, inclusive no Brasil. Também persiste a exploração do trabalho e o endividamento do trabalhador, em diferentes formas e níveis.
O carregador de lixo pra reciclagem leva suas toneladas no lombo. Também as carrega o estudante e trabalhador pobre, aquele que divide a alma com o chefe da firma ou do telemarketing, o dono da faculdade privada, o dono da empresa de transporte, o dono do quartinho alugado, etc.
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Atualmente, o topo da Billboard dos EUA é da música “Closer”, com o refrão: “Então baby me puxa pra mais perto / no assento de trás do Rover / Que eu sei que você não pode pagar / Mordo aquela tatuagem no seu ombro”.
O topo da Billboard Brasil é da música “Eu sei de Cor”, com o refrão: “Se eu não me engano, agora vai me deixar só / O segundo passo é não me atender / O terceiro é se arrepender / Se o que dói em mim doesse em você”.
“Se o que dói em mim doesse em você…” “Se o que dói em mim doesse em você…” Que coisa. Em outro tom, com outro peso, a frase poderia ter sido dita pelo carvoeiro de ontem e de hoje. Quem iria ouvi-lo?

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Ricos provérbios do idioma Zulu

 

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“Zulu worshippers”. Foto: Wikipedia

 

Um dos idiomas oficiais da África do Sul desde 1994, o Zulu é falado por cerca de dez milhões de pessoas. É um idioma Bantu e, como outros do mesmo tronco linguístico, usa o alfabeto latino para a escrita.

O escritor Soka Mthembu listou alguns provérbios do idioma Zulu e seu significado em inglês. São cheios de sabedoria, ternura, criatividade e poesia.

Confira alguns deles:

 

Ikhiwane elihle ligcwala izibungu.  

<<O figo bonito costuma estar cheio de bichos.>>

Nem tudo que reluz é ouro. As aparências enganam.

 

Isitsha esihle asidleli.

<<Não se come em prato bonito por muito tempo.>>

Provérbio usado para lamentar danos a coisas bonitas ou mortes prematuras. Seria o contrário do nosso “Vaso ruim não quebra”.

 

Enethunga ayisengeli phansi.          

<<Quem tem balde não deveria ser obrigado a ordenhar leite no chão.>>

Aquele que possui algo não deveria sofrer por emprestar esse algo para outra pessoa.

 

Akukho qili lazikhotha emhlane.    

<<Não há ninguém esperto que tenha lambido as próprias costas. >>

Esperteza tem limite. Quem banca o esperto, um dia extrapola e é pego.

 

Uphakathi komhlane nembeleko.   

<<Ele está entre as costas e o saco.>>

É a pessoa que está numa boa situação, numa situação confortável (o saco nas costas é usado para carregar os filhos). Seria o contrário da situação aflitiva que chamamos, no Brasil e e na América Latina, “entre a cruz e a espada”.

 

Akulahlwa mbeleko ngakufelwa.   

<<Não se joga o saco fora depois da morte de uma criança.>>

Refere-se metaforicamente ao saco usado para ninar, abrigar e carregar crianças pequenas. Quer significar que não se deve desesperar nas adversidades; que o futuro pode reservar coisas boas.

 

Ikhotha eyikhothayo engayikhothi iyayikhahlela.

<<A vaca lambe quem a lambe.>>

As pessoas ajudam quem ajuda de volta.

 

Iso liwela umfula ugcwele.   

<<O olho atravessa o rio inteiro.>>

Desejos são capazes de transcender os limites do possível.

 

Iqaqa alizizwa ukunuka.     

<<Nenhuma doninha fedida sente seu próprio mau-cheiro.>>

Ninguém reconhece seus próprios erros, sua própria culpa.

 

Akukho mango ongenaliba.

<<Não há colina sem sepultura.>>

A morte é inevitável; o encontrará onde quer que seja.

 

Isikhuni sibuya nomkhwezeli.         

<<O tição aceso voltou com um fogo enviesado.>>

Quem brinca com fogo, acaba queimado. Quem procura (problemas), acha (o que merece).

 

Amaqili kathengani. 

<<Homens espertos evitam uns aos outros.>>

Próximo do nosso “Assombração sabe pra quem aparece”. O esperto evita lidar com quem é esperto também para não ser passado pra trás.

 

Uchakide uhlolile imamba yalukile.

<<Quando a mamba sai, a doninha fica à vontade.>>

Equivalente ao nosso “Quando os gatos saem, os ratos fazem a festa.”

 

Ukubona kanye ukubona kabili.    

<<Uma vez mordido, duas vezes desconfiado.>>

Próximo do nosso “Gato escaldado tem medo de água fria.”

 

Amanxiwa Kamili Mbuya.  

<<A pedra que rola não pega musgo.>>

Bem próximo do nosso “Cobra que circula não morre de fome.”

 

Uphembela emoyeni.

<<Ele acende fogo na ventania.>>

Designa as pessoas que favorecem estranhos em detrimento do seu próprio povo.

 

Udla indlu yakho njengentwala.     

<<Você come seu cabelo feito piolho.>>

Refere-se a quem ataca quem o ajuda ou favorece; à ingratidão.

 

Akukho nkwali yaphendela enye.  

<<Um perdiz não coça o outro.>>

Cada um que cuide de si.

 

Ingwe Idla Ngamabala.       

<<O leopardo come por causa de suas pintas.>>

Cada pessoa se vira conforme seus talentos próprios.

 

Inkunzi isematholeni.           

<<O touro está entre os bezerros.>>

Entre as crianças de hoje estão os líderes de amanhã.

 

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Não é uma beleza? Qual é o seu preferido?

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Umuntu ngumuntu ngabantu

Ubuntu

Foto: One.org

 

Vinte e sete mil, trezentos e noventa e três. Este é o número de dias equivalente a setenta e cinco anos de vida. É a expectativa de vida no nosso país. A vida é breve, passa com enorme rapidez. Com sorte, você pode aprender pelo menos uma coisa nova por dia, e assim contar com milhares delas no seu coração na hora da partida. Divido com você o que eu aprendi hoje: além de ser o nome de um software, “ubuntu” é também uma noção profunda e maravilhosa dos idiomas Zulu e Xhosa.
Para Nelson Mandela, significa: “Respeito. Cortesia. Compartilhamento. Comunidade. Generosidade. Confiança. Desprendimento. Tudo isso é o espírito de Ubuntu.”
“Ubuntu”, prossegue Mandela, “não significa que as pessoas não devam cuidar de si próprias. A questão é: você vai fazer isso de maneira a desenvolver a sua comunidade, permitindo que ela melhore?”
Para Desmond Tutu, o conceito exprime a comunhão que conecta toda a humanidade: “sou o que sou graças ao que somos todos nós.”
“Uma pessoa com Ubuntu”, disse Tutu, “está aberta e disponível para as outras, apoia as outras, não se sente ameaçada quando outras pessoas são capazes e boas, com base em uma autoconfiança que vem do conhecimento de que ele ou ela pertence a algo maior que é diminuído quando outras pessoas são humilhadas ou diminuídas, quando são torturadas ou oprimidas.”
A palavra se relaciona com a máxima Zulu “Umuntu ngumuntu ngabantu”, ou, em português: “uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas”.
O escritor uruguaio Eduardo Galeano costumava dizer que “o melhor que o mundo tem é a quantidade de mundos que o mundo contém”. Tinha toda razão. “Sou o que sou graças ao que somos todos nós”, nos ensina a sabedoria africana. Que todos nós possamos caminhar com mais ubuntu hoje, e até o último dos nossos dias. Amém e Saravá!

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